Será o Hermano?
Saí na Estação Uruguai pela Rua José Higino e, alguns metros à minha frente, na Conde de Bonfim, vi o Hermano Vianna. Parecia o Hermano Viana, andava como o Hermano Vianna e estava abraçado com uma sacola de supermercado, carregando um daqueles pacotes gigantescos com umas duas dúzias de papel higiênico Neve. Bem, pelo menos eu acho que era o Hermano Vianna. Era ele ou alguém muito parecido com ele, o que significa que era alguém muito parecido com o Mário de Andrade, mas com menos maxilar.
Segui o Hermano/Mário involuntariamente porque, aparentemente, estávamos indo para o mesmo lado. Ele dobrou a Uruguai e eu continuava alguns metros atrás dele e seu suprimento infinito de papel higiênico Neve, e foi só quando me distraí respondendo uma mensagem no celular que o perdi de vista, não sabendo, no fim, se ele seguiu sentido Andaraí ou se dobrou na General Espírito Santo Cardoso seguindo pros lados da Muda. No dia eu tive certeza de que era ele, ou pelo menos de que era a cara dele, ao menos um pouco parecido com o Mário de Andrade, e é só agora, relembrando e escrevendo, que me questiono quanto à validade dessa impressão.
Tomei café com o Hermano, o Hermano mesmo, uma vez, em algum momento entre o fim de 2006 e o começo de 2007. Meu orientador o levou para uma palestra sobre algum assunto que foge à minha memória, e antes dessa palestra fizemos hora no café da faculdade. Não sei sobre o que conversamos e nem quão bobo eu devo ter parecido. A certeza é que falamos sobre a passagem do Wilco pelo Tim Festival em 2005 e sobre como essa vinda se tornou possível depois que o antropólogo encontrou com Glenn Kotche em um bar durante uma viagem para os EUA. Seis graus de separação que nada! Naquele momento eu estava a dois graus de separação dos meus heróis, no máximo três, porque, depois do Glenn, a gente chegava no Jeff Tweedy.
Que momento!
Nunca mais estive com o Hermano — talvez no máximo perto dele agora recentemente, a depender da verdadeira identidade do meu vizinho nas cercanias da Tijuca. E não tinha contato com meu ex-orientador há pelo menos uns 15 anos, quando esbarrei rapidamente com ele próximo ao Largo do Machado, mas retomamos o contato há poucos dias e estamos combinando de tomar um café quando possível.
Enquanto escrevo me pergunto quais as chances dele convidar Vianna para esse nosso café, pelo menos pra pedir pra que ele conte de novo aquela história de esbarrar com o Glenn Kotche num bar em um festival. Ou pra perguntar: “Vem cá, era você andando na Conde de Bonfim um dia desses abraçado com um pacote tamanho família de papel higiênico Neve?”.

Natural de Paracambi, nascido em 1984, Jorge Wagner é jornalista e trabalha com comunicação na área pública desde 2015. Produziu os tributos Jeito Felindie (2012) e Ainda Somos os Mesmos (2014). Em 2023, lançou o álbum Toda Forma de Adeus.
