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15 Discos dos Anos 1990 Mais Revolucionários que “Nevermind”

 

 

 

Estamos em 2026. Se olharmos para a década de 1990, estaremos falando de um espaço que pode ultrapassar os trinta anos. E, ao longo do tempo, mais de três décadas é suficiente para percebermos se alguma obra de arte se tornou influente ou mesmo atemporal. Por exemplo, “Nevermind”, o segundo disco do Nirvana. Incontestavelmente um dos marcos daquele tempo, lançado em 1991. É considerado unanimidade em termos artísticos dentro do contexto da época, mas, olhando para os rumos que a música pop tomou, ele permanece … revolucionário? É pra fazer essa discussão que listamos quinze álbuns dos anos 1990, que consideramos mais importantes que “Nevermind”, seja em impacto criativo, seja em barreiras estéticas quebradas e ressignificadas. O que você acha? O segundo álbum do trio de Seattle permanece importante? Está acima desses álbuns? Você tem algum outro pra acrescentar nessa lista? Tiraria algum?

 

 

1. My Bloody Valentine – Loveless (1991) – Mais revolucionário que “Nevermind” porque enquanto o Nirvana ainda usava a guitarra pra fazer riffs, “Loveless” destruiu a guitarra como a gente conhecia. Kevin Shields usou tremolo, reverse reverb e 30 overdubs pra transformar o instrumento em pura textura, sem ataque, sem acorde definido. O Nirvana de “Nevermind” queria soar como uma banda de punk tocando alto num ginásio; o MBV em “Loveless” queria soar como um sonho que você não consegue lembrar direito. Mudou a ideia de produção pra sempre.

 

 

2. Massive Attack – Blue Lines (1991) – “Nevermind” acelerou tudo. “Blue Lines” fez o oposto e foi mais radical por isso: pegou a energia do hip-hop e desacelerou pra 80bpm, enfumaçado, paranoico, misturado com soul, reggae e dub. Foi a primeira vez que um disco de dance não queria que você dançasse. Se “Nevermind” trouxe o underground pro mainstream, “Blue Lines” inventou um gênero inteiro, o trip-hop, que não existia antes.

 

 

3. Slint – Spiderland (1991) – “Nevermind” acenava para uma catarse direta, euquanto “Spiderland” foi catarse reprimida. Voz falada, quase cochichada, guitarras limpas com afinações esquisitas e silêncios enormes que explodem do nada. Enquanto Kurt Cobain seguia a estrutura pop clássica, o Slint, direto de Louisville, Kentucky, acabou com verso-refrão e inventou o post-rock. Sem ele não existiriam Mogwai, Godspeed You! Black Emperor, nem todo o emo e math-rock que veio depois.

 

 

4. Primal Scream – Screamadelica (1991) – O Nirvana tinha horror de pista de dança e de sampler. O Primal Scream, que era uma banda de jangle pop mediana, mas teve a coragem de se entregar ao acid house de Manchester, chamar um DJ, Andrew Weatherall, pra produzir e misturar Rolling Stones com gospel e ecstasy. Foi mais revolucionário porque derrubou o muro entre rock e cultura de DJ que o grunge fez questão de manter de pé.

 

 

5. A Tribe Called Quest – The Low End Theory (1991) – Mais revolucionário que “Nevermind” porque enquanto o Nirvana trocou o metal farofa dos anos 1980 por uma atualização do punk dos anos 70, o Tribe trocou a própria base do hip-hop. Até ali o rap sampleava loops gritados de funk. Q-Tip e Ali Shaheed Muhammad jogaram tudo isso fora e trouxeram contrabaixo acústico de Ron Carter, jazz, minimalismo e espaço. A batida se tornou quieta e sofisticada. O Nirvana de “Nevermind” fez o rock voltar a ser barulhento; o Tribe Called Quest em “Low End Theory” provou que o rap podia ser inteligente, jazzy e cool sem perder chamada “street credibility” — e inventou o som que virou o neo-soul e metade do hip-hop dos anos 1990 e 2000.

 

 

6. De La Soul – De La Soul Is Dead (1991) – Mais revolucionário que “Nevermind” porque enquanto o Nirvana usou a fórmula Pixies pra levar o underground pro topo da Billboard, o De La Soul usou o topo da Billboard pra se sabotar de propósito. Depois de virar o “grupo hippie fofo do rap” com o ótimo disco anterior, “3 Feet High and Rising”, eles abriram o disco seguinte matando o próprio personagem. Sonoramente, Prince Paul transformou o sampler em arte dadaísta – colagens de Steely Dan, Hall & Oates, desenhos animados, ruídos, – muito antes do mashup existir. Foi o primeiro disco de rap que provou que você podia ser mais subversivo desconstruindo sua própria fama do que atacando os outros.

 

 

7. Dinosaur Jr. – Green Mind (1991) – Mais revolucionário que Nevermind porque inventou a fórmula que o Nirvana só popularizou. Saiu sete meses antes, gravado quase todo sozinho pelo sensacional J Mascis – ele na bateria, no baixo, na guitarra e naquele vocal arrastado e deprimido. Juntou o peso do Black Sabbath com a melodia folk de Neil Young e um volume de guitarra que parecia um jato, tudo em dinâmica quiet/loud que o próprio Kurt Cobain admitia copiar. Enquanto “Nevermind” precisou do produtor Butch Vig pra polir o som, “Green Mind” já era hino slacker, virtuoso e barulhento ao mesmo tempo, sem pedir permissão pra rádio.

 

 

8. Pavement – Slanted and Enchanted (1992) – O Nirvana gastou uma pequena fortuna pra soar grande e perfeito em “Nevermind”. O Pavement gastou quase nada pra soar torto, vazado, desafinado e fez disso uma ética. Stephen Malkmus provou que era possível escrever uma canção pop perfeita e gravar como se fosse uma fita demo. Foi mais revolucionário porque libertou o indie da obrigação de competir com o som grande de Seattle e criou a estética lo-fi que domina o rock alternativo até hoje.

 

 

9. Wu-Tang Clan – Enter the Wu-Tang (36 Chambers) (1993) – O Nirvana em “Nevermind” revolucionou como uma banda de 3 caras. O Wu-Tang revolucionou com 9. RZA pegou samples sujos, barulhentos, de filmes de kung-fu e soul cortado na base da violência e dispôs 9 MCs com vozes e personalidades completamente diferentes. Mais revolucionário porque não foi só sonoro, foi estrutural: inventou um modelo de coletivo, de marca, de mitologia e de produção minimalista que o rock nunca conseguiu pensar.

 

 

10. PJ Harvey – Rid of Me (1993) – Se “Nevermind” cantava a angústia do garoto suburbano, “Rid of Me”, produzido cru e seco pelas mãos de Steve Albini, trouxe a fúria feminina sem filtro, sexual, vingativa e predatória. Enquanto Kurt falava em metáforas, Polly Jean dizia “lick my legs I’m on fire” por cima de uma bateria seca como o deserto. Foi mais revolucionário porque quebrou a ideia de quem podia ser agressivo e explícito no rock alternativo.

 

 

11. Portishead – Dummy (1994) – Lançado três anos depois de “Blue Lines, “Dummy” foi além e foi mais revolucionário que “Nevermind” porque fez a eletrônica soar humana e atormentada. A novidade aqui era o direcionamento do uso do sampler. O Portishead surgia como uma banda pronta pra soar como se fosse um disco de hip-hop arranhado, com órgão, guitarra formatada em gotas gordas e uma impressionante Beth Gibbons cantando como se fosse uma cantora de jazz num filme noir. É tristeza de vinil.

 

 

12. DJ Shadow – Endtroducing….. (1996) – Esse é o anti-“Nevermind” perfeito. Se o segundo disco do Nirvanaa precisou de banda, estúdio caro, bateria, baixo e vocal gritado. O DJ Shadow em “Endtroducing” lançou o primeiro disco da história feito 100% apenas com samples de outros discos – sem tocar nada. Josh Davis criou um disco profundamente emocional e cinematográfico só cavando caixotes de vinil esquecido. Foi mais revolucionário porque provou que o produtor sozinho, com dois toca-discos e um MPC, podia ser tão compositor quanto Lennon e McCartney.

 

 

13. Beck – Odelay (1996) – Mais revolucionário que “Nevermind” porque enquanto o Nirvana trocou o metal farofa por punk, Beck trocou a própria ideia de ser autor. Produzido pelos Dust Brothers – os mesmos do “Paul’s Boutique”, segundo dos Beastie Boys – “Odelay” é um disco feito de “lixo”: samples de country, hip-hop, folk, noise, blues, canto falado, tudo colado como se fosse um dial captado de rádio pirata. “Nevermind” precisou de banda, estúdio caro e hino pra soar novo; Beck fez um clássico sozinho, com gravador de fita cassete, piada e melancolia, e inventou o indie collage que virou o som dos anos 2000.

 

 

14. Radiohead – OK Computer (1997) – Se “Nevermind” capturou perfeitamente 1991, “OK Computer” capturou 2026. Enquanto o Nirvana ainda estava preso na dinâmica grunge, o Radiohead abandonou o rock de vez: juntou Krautrock, jazz, música eletrônica e orquestra pra falar de ansiedade digital, estradas, capitalismo e desumanização. “Nevermind” olhou pra trás, pro punk dos 1970; “OK Computer” olhou pra frente e acertou tudo. Demorei pra perceber isso.

 

 

15. Boards of Canada – “Music Has the Right to Children” (1998) – Mais revolucionário que “Nevermind” porque enquanto o Nirvana usou o barulho pra expressar angústia adolescente, o Boards of Canada usou o silêncio e a nostalgia. Dois irmãos escoceses isolados pegaram fita VHS velha, documentário dos anos 1970, voz de criança, batida de hip-hop e sintetizador analógico empoeirado e criaram um gênero inteiro – a hauntology. “Nevermind” queria ser alto e urgente; “Music Has the Right to Children” provou que dá pra ser revolucionário sussurrando, e inventou o som que virou base do lo-fi de todo eletrônico nostálgico dos últimos vinte anos.

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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