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Dinosaur Jr: 0 lado bom dos anos 1990

 

 

 

Dinosaur Jr – There Near
42′, 11 faixas
(Jagjaguwar)

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

 

 

 

Eu sempre gostei do Dinosaur Jr. Sua mistura de hardcore furioso com o lado mais folk de Neil Young (e o lado não tão folk dele também) sempre me soou como algo fora da curva em meio ao turbilhão grunge/pós-grunge dos anos 1990. Ainda que tenha desfrutado de um período de exposição e relevância, o grupo do guitarristas e vocalista JMascis já começou aquela década sem a sua formação original. Lou Barlow, baixista e vocalista, espécie de nêmesis de Mascis dentro da própria banda, foi demitido de forma controversa ainda na virada de 1989/90. E Murph, o ótimo baterista, pulou fora em 1993, quando o grupo já havia lançado ótimos álbuns como “Where You Been?”, naquele ano, e “Green Mind” (1991). Mesmo assim, o Dino seguiu com dois bons trabalhos, “Without A Sound” (1994) e “Hand It Over” (1997), tendo Barlow fundado dois projetos pessoais bacanas, o Sebadoh e o Folk Implosion, com Mascis também iniciando uma trajetória solo legal. Pois bem, todo esse turbilhão de discos, separações e projetos culminou na interrupção das atividades do Dinosaur Jr por dez anos, com a banda se agrupando em 2007 para uma retomada vigorosa de sua carreira. Barlow, Mascis e Murph, o trio original, que iniciou atividades no longínquo ano de 1984, se reconciliou, retornou e reiniciou sua trajetória brilhante com o álbum “Beyond”. De lá pra cá, já são seis álbuns, sendo este ótimo “There Near”, o mais recente.

 

Dentro dessa sonoridade assumida pela banda de “folk/não-folk” inspirado em Neil Young e mesclado com hardocore furioso, mencionada acima, estão dois elementos marcantes – as guitarras de Mascis, identificáveis a quilômetros de distância, fazendo dele um dos instrumentistas mais peculiares dos últimos tempos, e seu vocal anasalado, entre o sofrido e o doce, sempre pontilhando o ataque da banda, que é impulsionada por uma das cozinhas mais interessantes do rock nos últimos tempos. A rigor, o Dino é um power-trio, denominação que não se usa muito para grupos que não façam blues ou blues rock, mas o termo se aplica, dada a importância da dinâmica que os instrumentos têm nos arranjos do grupo. É uma fórmula com poucas variações, mas que não cansa, sendo refinada ao longo dos anos para soar menos abrasiva do que nos primeiros tempos da banda. Essa “calma”, no entanto, não significa acomodação ou perda de foco, pelo contrário. A música de Mascis e seus amigos é extremamente honesta, reflete o momento que eles atravessam e dá pra dizer que Barlow, Murph e ele são caras em paz. Se no passado foram extremamente abrasivos dentro e fora do palco, hoje dá gosto ver como conseguem falar de amor, reflexão e entendimento sem soar bundões e sem perder a identidade sonora. Ainda há guitarras em turbilhonamento, críticas ao governo – mais do que nunca – e existencialismos românticos por todos os cantos.

 

“There Near” começa com alto impacto, mostrando traz uma grande carga de vulnerabilidade, além de muito carinho pelas melodias. A banda sempre foi hábil em gravar canções que, sob a tempestade de guitarras habitual, traziam linhas melódicas belíssimas. Aqui não é diferente e, logo de cara, com “Several Got Away”, já temos um belo refrão e uma pegada que não vai ocultar os efeitos da passagem do tempo e das dores na voz inconfundível de JMascis antes que seu solo característico tome conta do espaço. Essa dinâmica de melancolia disfarçada de energia ganha ainda mais força nas faixas seguintes: “No Friends” mergulha na solidão do envelhecimento e do afastamento dos amigos com um refrão glorioso, tributário do mais puro espírito do rock alternativo dos anos 1990, enquanto a explosiva “Take Me With You” traz uma performance arrebatadora de bateria de Murph e riffs de guitarra que funcionam como verdadeiros apelos, acompanhados por um piano sutil que quase se perde em meio à tempestade de distorção.

 

O ponto alto do álbum surge na transição da intensidade de “Gone Off” — uma faixa direta e precisa que equilibra a mágoa nas letras com um ritmo contagiante — para a impressionante “Clam Along”, uma desaceleração calculada que se consolida como uma das melhores composições da história recente do grupo. Aqui, o refrão crescente vai convidando o ouvinte para se juntar no canto, num movimento em que a tensão emocional e o desespero se acumulam a cada verso, desaguando em um solo de guitarra dilacerante e inesquecível. O disco abre espaço para momentos mais cadenciados e expansivos, como a lamúria smpatiquinha de “Everything At Once”, a “balada” (ou o mais perto que a banda poderia chegar dessa denominação) “Walk Me Back” — coroada por um solo abrasivo que se mescla perfeitamente com a voz de Mascis — e o flerte com o alt country em “Read The Room”, onde a vulnerabilidade atinge seu ápice em um arranjo reflexivo sobre o isolamento pessoal. As composições de Mascis ganham o contraste perfeito com a habitual presença das duas faixas de Lou Barlow, que trazem novos ares e uma visão afiada sobre dilemas contemporâneos. Em “Put It Down”, o peso cresce gradativamente através de um arranjo com piano, órgão e um solo de guitarra monumental. Barlow assume o protagonismo na invocada “Blowin Up”, disparando críticas diretas à cultura do engajamento e ao extremismo nas redes sociais sobre uma base rítmica frenética. No fim, “No One’s Ready”, uma faixa semi-grunge que fala de incertezas no presente e não mais no futuro.

 

“There Near” é puro Dinosaur Jr. Assim como outra banda de trajetória parecida, o Afghan Whigs, o grupo de Mascis, Barlow e Murph é exemplo de sobrevivência, reinvenção mas com zero abandono de convicções, formato e estilo. Em meio a tantas outras formações que ficaram no meio do caminho, ter esses três sócios-fundadores em atividade é mais que privilégio.

 

Ouça primeiro: o disco todo.

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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