O Cramps iniciante em “Gravest Gravy”

Lux Interior, que estais nos Céus, santificado seja o vosso Cramps.
Venha a nós um disco novo, feito em 1977, assim em Memphis, como na produção de Alex Chilton.
O lançamento de “Gravest Gravy” nos dai hoje.
Uma ideia daqueles tempos, assim como nós constatamos o que pôde ser gravado.
E não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos da caretice do Mal.
Amém.
Esse é um culto devastador aos desajustados, aos malucos de plantão e aos “freaks” em geral, com guitarras de riffs fumegantes, batidas vindas das catacumbas mais obscuras e uma animosidade vocal poucas vezes vista no rock. Assim são os Cramps: uma banda tão difícil de definir quanto o psychobilly que eles criaram. O som básico, que sua aparente superficialidade traz, esconde toda a animosidade e o amor que o rock’n’roll pode carregar. Não estou falando de rock; estou falando de ROCK’N’ROLL, assim mesmo, em letras maiúsculas, porque é isso que a banda faz.
Essas gravações, lançadas somente agora, soam cruas e poderosas, como só o sangue de uma banda nova pode produzir. O incrível registro, gravado originalmente em outubro de 1977, no lendário Ardent Studios, em Memphis, e produzido por Alex Chilton, tão maldito quanto a própria banda, captura a essência dos Cramps em seu estado bruto. É como descobrir uma pedra preciosa escondida pelo tempo. Tudo bem que muitas músicas são conhecidas do repertório da banda em várias outras gravações, mas aqui temos a chance de ouvi-las em suas versões iniciais, registradas no lendário estúdio que deu ao mundo alguns dos grandes sons de rock’n’roll, soul, R&B e blues. Isso traz um charme todo especial ao lançamento.
Esta é uma das primeiras gravações de estúdio do quarteto Lux/Ivy/Bryan/Nick, formação que estava se consolidando e terminaria como uma das mais cultuadas da banda: foi o grupo que seguiria gravando os primeiros singles e o disco Songs the Lord Taught Us (1980), além de arrepiar em suas performances ao vivo mais insanas.
Dito isso, obrigado, Larry Hardy por descobrir essas fitas e Henry Rollins e Ian MacKaye, pelo lançamento dessas gravações incríveis. Porque é isso que um registro desses faz: captura o instante exato em que uma banda ainda não sabe que vai virar lenda, mas já toca como se soubesse. É arqueologia do rock mais sujo e mais vivo que os Estados Unidos já produziram, o tipo de fita que devia estar perdida num porão e que só existe hoje porque alguém teve o bom senso obsessivo de guardar, catalogar e, décadas depois, soltar no mundo.
Que descanse Lux Interior. Que a lenda de Poison Ivy siga do jeito que sempre foi, inabalável. E que esse registro continue circulando exatamente como sempre devia ter circulado: cru, sujo e absolutamente essencial.

Publicitário e apaixonado por música música, apresentou e dirigiu o programa de rádio Distorção, que posteriormente se tornou um canal no YouTube. É diretor do documentário Aridez.
