Os trinta anos do primeiro disco do Mestre Ambrósio

A primeira vez que vi o Mestre Ambrósio foi em novembro de 1994, em um evento que reunia bandas emergentes da Cena Mangue, num festival que deu pouco mais de cem pessoas no histórico e hoje extinto Circo Maluco Beleza. Na época, a banda vivia um dilema: seguiria uma formação elétrica ou acústica?
“A banda surgiu como um trio, em 1992! Eu tocava bateria, Siba comandava a guitarra e Helder Vasconcellos, que era responsável pelos teclados e percussão, lembra Eder “O” Rocha”. E complementa. “Depois resolvemos investir no formato acústico, e mergulhamos de cabeça na cultura tradicional pernambucana, pesquisando ritmos como Coco e Cavalo Marinho”. O ecletismo de Eder dá a dimensão da amplitude estética dos músicos da banda. Com formação erudita, Eder tocou nas Orquestras Municipais de Olinda e Recife. Além disso, foi baterista durante anos da banda de Thrash Metal Arame Farpado, uma das mais ativas do cenário pesado de Pernambuco.
Optando pelo formato acústico, o Mestre Ambrósio achou sua formação definitiva com Siba (guitarra, viola, rabeca e vocais); Helder Vasconcelos (Fole de Oito Baixos, percussão e vocais); Mazinho Lima (Baixio e vocais); Maurício Alves (Percussão e vocais); Sérgio Cassiano (Percussão e vocais) e Eder “O” Rocha (Zabumba e percussão). Foi este time que gravou o clássico disco de estreia, ”Mestre Ambrósio”, lançado em 1996.
O álbum foi gravado no Conservatório de Pernambucano de Música, e produzido pela dupla Lenine e Suzano. “O processo de gravação foi fácil, pois todos os músicos já tinham experiência de estúdio em seus projetos paralelos”, conta Eder, que já havia gavado com Silvério Pessoa.
Um fã ilustre do Mestre Ambrósio era Chico Science. Tanto que o líder do Movimento Mangue articulou uma turnê europeia da sua Nação Zumbi com a banda de Siba. Só que Chico não pôde embarcar, pois o lançamento de “Afrociberdelia”, segundo disco da Nação Zumbi, atrasou. Mas o Mestre Ambrósio embarcou sozinho rumo à Europa.
“Percorremos dez países e fizemos toda a turnê de trem. Era mais barato na época. Eles davam descontos se as viagens fossem feitas por toda a banda. Ou seja, seis pessoas juntas”, conta Eder. Com o álbum já em mãos, conseguiram divulgá-lo no velho continente. Eles ainda fariam outra turnê europeia e uma nos Estados Unidos.
O disco é assombroso de tão bom, e nele descobrimos a genialidade do compositor Siba. Das 16 faixas, dez são composições do rabequista.
O álbum abre com o forró pesado “José”, cuja letra aconselha: “Terra alheia / Pisa no chão devagar”. Segue com a impressionante “Se Zé Limeira Sambasse Maracatu”, permeada por uma guitarra frenética e percussão vibrante, em letra inspirada em Zé Limeira, repentista que ficou conhecido como “O Poeta do Absurdo”. Na sequência vem a deliciosa “Pé-de-Calçada”, de título autoexplicativo, comandada pela rabeca de Siba. Depois seguem dois temas instrumentais, “Forró de Primeira” e “Jatobá”, legítimos forrós de raiz com influências árabes.
Em seguida vem a canção tradicional “Estrela Amazona”, simplesmente desconcertante. Serve de abertura para o impressionante baixo que marca “Três Vendas”, que dá espaço para um catimbó recitado por Siba: “Vou chamar minha cobrinha / do tronco da Jurema / Surucucu, ‘cascavé’ / Salamanca, ‘jiriocá’”.
E vem três irresistíveis instrumentais em sequência, “O Circo de Seu Bidu”, “Baile Catingoso” e “Mensagem pra Zé Calixto”, todas de Siba. Depois temos a hilária “Usina (Tango no Mango)”, de Chico Antônio e Paurílio. E chega então uma versão maravilhosa para “Pipoca Moderna”, clássica parceria de Caetano Veloso com a Banda de Pífanos de Caruaru. Outro destaque vem logo a seguir, “A Roseira (Onde a Moça Mijou”, de Waldemar Oliveira e Luiz Oliveira.
Entra depois a genial “Benjaab”, parceria de Siba e Lenine, que entrou na trilha sonora do premiado filme “Baile Perfumado”, de 1997. “Matuto do Salame” traz a irresistível conexão entre o forró e a música árabe. E vem mais uma versão genial, desta vez para o clássico “A Feira de Caruaru”, de Onildo Almeida, que encerra o disco.
O Mestre Ambrósio é uma banda diferente de tudo o que apareceu no cenário Mangue de Recife. Seus shows são arrebatadores. O grupo ainda lançou mais dois álbuns, e encerrou as atividades em 2003, por necessidade dos músicos de respirarem novos ares e outros horizontes, cada um com projetos solos interessantíssimos. Até que resolveram voltar em 2019 para shows em todo o Brasil.
Atualmente, fazem apresentações comemorativas dos trinta anos do disco de estreia. E já tem três datas agendadas em novembro deste ano no Recife. Uma só seria pouco, já que seus shows lotam todas as casas da capital pernambucana. Este é o Mestre Ambrósio, a banda universal mais regionalista do planeta.

Hugo Montarroyos é jornalista com pós-graduação em Jornalismo Cultural. Fã declarado do Teenage Fanclub e leitor compulsivo, acredita no poder transformador da arte! É Corinthiano, porque ninguém na vida é perfeito.
