Wado – A Beleza Que Deriva Do Mundo, Mas A Ele Escapa

 

 

Gênero: Alternativo

Duração: 34 min.
Faixas: 12
Produção: Wado
Gravadora: Lab 344

4 out of 5 stars (4 / 5)

 

O novo disco de Wado, “A Beleza Que Deriva Do Mundo, Mas A Ele Escapa”, é um complexo de delicado trabalho musical. Há texturas diversas, que vão mudando à medida em que as canções vão surgindo. Há letras bem escritas, envoltas por arranjos que espelham detalhes e deixam espaço para o ouvinte se achar em meio à chuva de instrumentos, que varia e molha sem incomodar. Há detalhes, há pistas, há belezas ocultas e expostas, tudo funcionando para que a mensagem de Wado seja passada: estamos em busca de um olhar gentil para um passado, uma adolescência constante, um tempo que talvez tenha ido rápido demais e nos deixou aqui, meio com cara de paisagem. Se há um conceito no álbum é o da saudade e da introspecção. Um olhar interno, que reflete o mundo à volta, mas não o que está aí, um outro, que já não mais está. É uma brincadeira de esconde-econde com o tempo e o espaço. E com a resultante disso, nós.

 

Não é comum ouvir um disco de Wado sem suas habituais incursões pelos tambores e demais percussões, mas ele tem duas de suas características preservadas aqui: sua voz peculiar, sua predileção por colaborações e um abraço discreto a elementos como o samba e a bossa nova, que contrasta com influências igualmente sutis de Sufjan Stevens aqui, de Elliott Smith ali. Muitos pianos, cordas, violões, tudo belo e bem produzido. Tudo está em seu devido lugar e a serviço deste clima introspectivo que falamos acima. “A Beleza…” é um álbum noturno, para se ouvir olhando a cidade lá embaixo, feliz e triste pela distância, ao mesmo tempo. Mas há algumas canções presentes no disco que contrariam esta máxima, portando um sol particular.

 

Talvez o maior exemplo desta simpática insolência diante da noite que se impõe sobre os pensamentos mais reservados seja “Nina”, na qual Wado recebe a participação de Lucas Santtana. A letra é feminina, o amor expresso nela também, gentilmente convertido numa melodia que parece um passeio na praia logo cedo. “Faz Comigo” é´canção de amor carnal com poesia bem pensada, com vocais divididos com Flora, cantora alagoana de muito talento, que confere um contraponto ideal. Os pianos e violões aqui são o destaque, fazendo tudo soar natural e belo. Cordas pontuam o arranjo, dando o tom ideal para a canção decolar e não pousar mais. “Nanã”, com Otto, é outro exemplo desta visita a tradições musicais brasileiras, com um arranjo elegante que se sobrepõe delicadamente a uma melodia de samba.

 

“Tempo Vago” é outro belo momento do álbum. Com participação de Kassin e LoreB, a melodia é doce e propulsionada por violão dedilhado, uma lindeza de álbum de fotografia reencontrado após muito tempo. “Angola” já expõe seu corpo e lamento contra o véu da noite, pianos e violões sob a luz da lua, enquanto “Cacos” busca libertação diante do que o tempo trouxe: “nada pra esconder, nada pra guardar”, “a noite vem e o sono não está”. Quem nunca? “Arcos”, um dos singles do álbum, com Felipe De Vas e Yo Soy Toño, traz sua influência de Elliott Smith decalcada pelo arranjo a dentro, com violões e vocais multiplicados, salpicados por pianos econômicos. E no fim do percurso, uma linda e triste canção, “Depois do Fim”, com participação de Zeca Baleiro e Patrícia Ahmaral, na qual a dureza dos tempos idos é relembrada pela falta de talheres em contraposição com a proximidade do céu, trazida pelos sonhos e imaginação. Fechando a conta, a arrepiante “Sereno Canto”, com um inventário do que aconteceu, como e quando.

 

“A Beleza Que Deriva Do Mundo, Mas A Ele Escapa” é´um disco belo que fala de saudade sem ser triste nem óbvio. Tem uma produção muito bem feita e um conjunto de canções coesas e bem feitas. Um dos trabalhos mais maduros de Wado em toda a sua extensa carreira.

 

Ouça primeiro: “Nina”

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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