Sr. Compromisso — ou a ameaça simbólica
Pode ser que seja só comigo, então não é como se importasse muito, mas sempre achei meio ridículo aqueles casais que dividem o teto, dividem as contas da casa, estão juntos desde que o Trump era só um empresário de índole questionável e jeitão de cocainômano, mas evitam a todo custo falar que são casados, usar as expressões esposa/esposo/marido, etc, como se casamento fosse algo muito mais sério do que essa vida compartilhada enquanto calculam pra qual bairro dá pra se mudar da próxima vez sem que o condomínio pese demais na conta do casal.
Despida de questões religiosas, o que é o casamento além de uma declaração jurídica de amor? Um contrato que diz: “ok, é verdade, estamos juntos, e eu não me vejo abrindo mão disso aqui no futuro próximo. Então espero, do fundo do meu coração, que, caso eu morra antes — agora ou daqui a trinta anos —, esse pedaço de papel facilite algumas coisas pra você”. Sei que assim escrito pode parecer pouco romântico, mas, sinceramente, sendo pragmático, não consigo pensar em nada mais real, tangível e útil do que isso.
Claro que existem outras questões: o custo legal do processo, a vontade de tornar uma eventual celebração pública especial para os mais próximos, a necessidade de conciliar agendas e calendários e tudo mais. O que nunca entendi foi a simples fuga da ideia do casamento — ainda antes do contrato ou da festa — como se a própria palavra carregasse algum peso insuportável. Não estou falando exatamente de medo de compromisso; é mais um desconforto curioso com o título em si, mesmo quando todo o resto já está estabelecido.
E, desculpem os ofendidos, mas posso opinar sobre isso com certa liberdade nesses dias. Estou planejando um casamento. Vou casar com a minha esposa depois de um compromisso de quase dez anos, oito dos quais já estamos, na prática, embora não legalmente, casados.
Mas o que isso tem a ver com livros? Bem, me refiro nos primeiros parágrafos às pessoas que são exatamente como Rob Fleming, achando que é possível uma vida de casal, estar emocionalmente comprometidos, mas ainda acreditando na formalização como se ela representasse uma transformação ontológica irreversível. Um medo tão grande da própria palavra que só poderia ser comparada àqueles velhos que não falavam a palavra câncer porque achavam que isso atrairia a doença.
O casamento como ameaça simbólica. Como encerramento de uma liberdade que, na prática, já desapareceu, talvez no primeiro aluguel dividido pelos dois.
Existe algo meio triste nisso. A tentativa de preservar simbolicamente possibilidades das quais já se tem aberto mão.
E Rob não é caso isolado, embora seja o mais representativo na minha galeria afetiva de personagens. Leio neste momento, enquanto faltam aproximadamente dez semanas para a pequena celebração da minha própria união, Sr. Compromisso, de Mike Gayle.

Ela sorriu, curvou-se para me beijar e sussurrou, “Então vamos nos casar.”
Meu primeiro impulso, à medida que as palavras ricocheteavam na minha cabeça, causando todo tipo de dano cerebral, foi correr.
Meu segundo impulso (um pouco mais sutil), foi me esconder.
Meu terceiro impulso (seguramente muito menos sutil) foi correr e me esconder.
A literatura pop está cheia de cenas assim. A lad lit tem dessas a dar com o pau. É claro que eu não quero dizer que existe um limite de tempo pra se tomar certas decisões, nem mesmo que existe a necessidade de um próximo passo (em defesa de Duffy, o protagonista de Sr. Compromisso, ele e Mel sequer dividiam um apartamento, embora estivessem juntos houvesse quatro anos). Minha implicância é contra essa rejeição paranoica de uma palavra ou de um documento apenas porque sim, porque ela representaria o fim de uma ponta que precisaria estar solta, mesmo que essa ponta já não exista mais.
Aqui eu abro um parêntese: eu amo esses personagens cretinos. Só não penso que deveriam existir no mundo real.
Daqui a umas dez semanas, talvez quando alguém ler esse texto, meu contrato estará assinado. Terei passado alguns minutos desconfortável dentro de uma roupa social demais pro meu gosto, o suficiente pra dizer depois, numa piada ruim, que torcerei pra vestir de novo só no dia do meu velório. Vou entrar ao som de alguma coisa num arranjo de violão e violino e menos de meia dúzia dos poucos convidados vão reconhecer o tema. E sabe o que muda depois? Nada além de oficializar uma rotina que já existe.
Não vou ser o Peter Gabriel gritando “get me out of the cage” mais do que poderei ser o Phil Collins com “I will follow you will you follow me / all the days and nights that we know will be”. Muito provavelmente só voltaremos pra casa preocupados com uma rápida viagem a ser feita nos dias seguintes e com algumas observações sobre as parcelas do buffet terem ou não valido a pena.
Talvez seja a banalidade que torne tudo bonito.
Palavras não encerram possibilidades, só dão nomes àquilo que já existe.

Natural de Paracambi, nascido em 1984, Jorge Wagner é jornalista e trabalha com comunicação na área pública desde 2015. Produziu os tributos Jeito Felindie (2012) e Ainda Somos os Mesmos (2014). Em 2023, lançou o álbum Toda Forma de Adeus.
