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“Casinha Branca” e a utopia pós-hippie

 

 

 

Para quem vivenciou o final dos anos 1970, a memória afetiva da infância ou da juventude está invariavelmente atrelada ao rádio de pilha ou aos sistemas de som domésticos, que funcionavam como os grandes curadores musicais da época. Em 1979, o dial radiofônico brasileiro era dominado por uma safra de composições que equilibravam sofisticação harmônica e apelo popular: a transição estética de Djavan em “Meu Bem Querer”, o lirismo mineiro de “Feira Moderna” (na leitura de Beto Guedes), o samba de terreiro e asfalto de “Todo Menino é um Rei” (sucesso na voz de Roberto Ribeiro), a crônica urbana e romântica de “Berenice” (de Jorge Ben), o vocal em bloco de “Quem Tem a Viola” (Boca Livre) e a força de “Alguém Me Avisou”, de Dona Ivone Lara, interpretada por Maria Bethânia no emblemático disco “Talismã”, en trio com Caetano e Gil). No centro desse greatest hits de alta rotação, um dedilhado simples de violão introduzia um dos maiores fenômenos comerciais daquele período: “Casinha Branca”.

 

A canção, interpretada e composta por Gilson Vieira da Silva em parceria com Joran, tornou-se onipresente após integrar a trilha sonora da novela “Marron Glacé”, da Rede Globo. O recente falecimento de Gilson aos 73 anos convida a um olhar mais atento ao peso dessa obra. Longe de ser apenas um tema romântico banal, “Casinha Branca”, pelo contrário, soa como um sintoma da ressaca histórica de sua era. O formato folk-pop original abrigava o esvaziamento das utopias contraculturais do início da década e o sufoco prolongado do regime militar. A busca por um refúgio bucólico expressa na letra fala diretamente com o isolamento ou a comunhão com a natureza propostos por contemporâneos — dinâmica visível em “Na Rua, na Chuva, na Fazenda” (Hyldon), “Sal da Terra” (Beto Guedes), “Toada” (Boca Livre) ou “Nos Bailes da Vida” (Milton Nascimento) ou “Meu Mar”, de Erasmo Carlos. A canção de Gilson oferecia uma resposta existencial ao cinza urbano e político através do escapismo lírico.

 

 

Embora o mercado frequentemente classifique Gilson sob o rótulo reducionista de one-hit wonder devido ao gigantismo de sua faixa-título, sua carreira como compositor entrega outras credenciais importantes para a música popular brasileira. Gilson foi o autor de “Verdade Chinesa”, lançada em 1990, que se transformou em um dos maiores sucessos da fase madura de Emílio Santiago no projeto “Aquarelas”. Sua obra também abasteceu o repertório de nomes que transitavam entre o samba, o pagode e a música romântica, demonstrando uma sólida afinação com a engrenagem melódica e pop do rádio nacional. Ao longo das décadas, “Casinha Branca” manteve-se ativa no Ecad através de regravações que buscaram diferentes nichos: o registro pop romântico de Fábio Jr., a interpretação ainda mais romântica de José Augusto e a apropriação sertaneja de Roberta Miranda, além da própria Maria Bethania, que a regravou num tom singelo. Mais recentemente, a mineira Roberta Campos conferiu à faixa uma leitura bela, com um arranjo folk pop enxuto, resgatando o caráter de desabafo íntimo da composição original.

 

O desdobramento mais peculiar da obra de Gilson, contudo, deu-se no mercado internacional. No início dos anos 1980, o músico britânico Jim Capaldi — baterista, cantor e um dos fundadores do Traffic, grupo fundamental do rock psicodélico e progressivo inglês — fixou residência no Rio de Janeiro após seu casamento com a baiana Ana Campos. Fissurado pela programação radiofônica local, Capaldi percebeu o potencial melódico de “Casinha Branca” e elaborou uma versão em inglês intitulada “Old Photographs”.

 

A faixa foi incluída em seu álbum solo de 1981, “Let the Thunder Cry”. O disco obteve uma recepção comercial modesta no mercado europeu e americano, onde a carreira solo de Capaldi disputava espaço com as novas tendências da New Wave, mas a música encontrou excelente resposta nas rádios brasileiras do então nascente FM. Em termos de talento musical, a gravação de Capaldi destaca-se pelo time envolvido no arranjo e execução: ninguém menos que os integrantes do grupo carioca Azymuth (Ivan Conti no topo da bateria, Alex Malheiros no baixo e José Roberto Bertrami nos teclados) garantiram a belezura total, enquanto os sintetizadores ficaram a cargo de Steve Winwood, então parceiro de Capaldi no Traffic e estourado como artista solo por conta do álbum “Arc Of A Diver”, lançado em 1980.

 

O amor de Capaldi pela produção brasileira não acabou ali. Em 2002, o músico repetiu a dose ao se interessar por “Anna Julia”, o sucesso de estreia do grupo carioca Los Hermanos. Capaldi verteu a composição para o inglês sob o título “Anna Julia (Tell Me Why)” em seu álbum “Poor Boy Blue”, que eu lembro de ouvir nos tempos de Rock Press, na saudosa redação da Glória. Para além da curiosidade do registro, a faixa carrega um peso histórico: Capaldi convenceu seu amigo pessoal George Harrison a registrar as guitarras solo da gravação. O trabalho acabou se configurando como uma das últimas contribuições musicais em estúdio do ex-Beatle antes de seu falecimento.

 

A passagem de Gilson Vieira da Silva encerra um ciclo, mas consolida a permanência de sua música. A trajetória de sua principal obra comprova que a suposta simplicidade estrutural, quando sintonizada com o sentimento coletivo de uma época, é capaz de romper as barreiras do mercado regional e dialogar com a própria vanguarda do rock internacional. E permanecer viva na história. No fim das contas, é isso que mais importa.

 

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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