“Years And Years” deveria passar nas Escolas

 

Como já dizia Renato Russo, intuindo historiadores angustiados, “o futuro não é mais como era antigamente”. Este verso, contido na bela canção “Índios”, de 1986, sintetiza toda uma linha de estudo da História, conhecida como História do Tempo Presente. Basicamente – porque não estamos na sala de aula – esta é uma linha de pesquisa que analisa a percepção do tempo presente e como ela determina a nossa visão do passado e do futuro, através do estudo dos fatos. Se, por exemplo, olharmos para os anos 1950, veremos um otimismo ocidental sobre o futuro. Era o triunfo do capitalismo americano, o protagonismo em relação ao resto do mundo – menos a URSS – e a abundância de dinheiro em caixa. Os EUA eram credores da Europa, arrasada pela guerra. Nada mais justo que imaginar um futuro cheio de carros voadores, casas na lua e viagens interplanetárias para nos levar às férias nos anéis de Saturno ou entre as luas de Júpiter.

 

Pois bem, isso mudou com o tempo. O futuro imaginado já não inclui a palavra otimismo. E o motivo é o estudo preciso do que fizemos no século 20. Convenhamos, não foram coisas boas. Genocídios, guerras, fome, desigualdade, tudo isso aconteceu para que, em síntese, pensássemos: o ser humano tem potencial destrutivo e já o colocou em prática várias vezes. É bastante lógico pensar que o fará novamente. E novamente. E indefinidamente ao longo do tempo. Tal noção, ainda que seja óbvia hoje, não parecia fazer parte do pensamento de alguns anos atrás. Foi preciso um apurado levantamento de dados, fontes históricas e uma mudança no próprio conceito da história como ciência humana, para que isso fosse possível. A resultante é sombria e verdadeira. O futuro, como dizia Leonard Cohen, “é assassino”.

 

Sobre isso trata a sensacional “Years And Years”, uma produção conjunta da BBC com a HBO. Com estas duas siglas envolvidas, o risco é próximo do zero, convenhamos. A ideia é constrangedoramente simples: uma família de Manchester é o centro das atenções. Uma avó e quatro netos adultos (e seus filhos e CONGES) são os personagens. Aliás, melhor dizendo, o personagem é o cotidiano de uma Inglaterra de 2019, com um futuro de 15 anos projetado na tela. Dentro dele está inserida a família Lyons. A avó, Muriel; os netos Edith, Stephen, Daniel e Rosie e seus agregados. Eles são agentes e pacientes das mudanças pelas quais o país – e o mundo – vão atravessar no futuro próximo, também conhecido como “o ano que vem”, “daqui cinco anos”, “quando fulaninho acabar a faculdade”. São prazos terrivelmente próximos e tangíveis, mas que já não são previsíveis. Esta é a grande mágica da série, trazer essa sensação de passividade diante do desenrolar dos fatos.

 

E que cotidiano é esse? Aquele que é afetado pela eventual reeleição de Donald Trump, pela extinção das borboletas, pela crise entre Estados Unidos e China, pelo esfacelamento da Europa unida, pelo pós-Brexit, pela crescente migração de pessoas dentro da Europa, pela anexação da Ucrânia pela Rússia novamente soviética, pelo crescente avanço tecnológico em detrimento da melhoria da vida das pessoas, pelo risco crescente sobre as liberdades individuais, pelo surgimento de campos de concentração. É um cotidiano que já chegou em muitos aspectos. Na série, a Inglaterra passa por terríveis oscilações econômicas, pelo desemprego em massa, pelos maus tratos com os imigrantes e pela ascensão de uma milionária chamada Vivienne Rook, interpretada de forma magistral por Emma Thompson. Ela surge como uma figura estranha à política, mas que “fala o que pensa” nas redes de TV.

 

Aos poucos ela vai ganhando a simpatia das pessoas porque “não é política” e cultiva a espontaneidade. E isso – sem spoilers – não vai acabar bem. A série mostra com precisão constrangedora o emburrecimento das pessoas ao longo do tempo, a passividade, a falta de atitude e o conformismo. É tudo muito real, angustiante em muitos aspectos. Em certos momentos, os roteiristas certamente se inspiraram em situações que estamos vivendo hoje, em 2019. A sensação de constatar a semelhança entre os eventos e atitudes é terrivelmente desconfortável.

 

Criada por Russell T Davies, que já nos deu “Queer As Folk” e remake de “Doctor Who”, só para ficarmos nas mais famosas, “Years And Years” é um exercício de adivinhação fácil de fazer. Os fatos, as tramas, os entrelaces e sua relação com os contextos políticos, sociais e econômicos, são exemplos de maestria na TV. Confesso que, como historiador, jamais pensei ver algo assim fora do âmbito dos documentários. “Years And Years” é, salvo o surgimento de algo completamente inesperado, a melhor série de de 2019. E conseguiu isso em apenas seis episódios. Não deixe de ver.

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

Um comentário em ““Years And Years” deveria passar nas Escolas

  • 12 de agosto de 2019 em 09:52
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    Meu Deus! Por que não li a coluna antes de assistir…?
    Perdi o sono e acho que a minha pressão subiu.

    0
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