Você lembra? Amor e ódio ao Spin Doctors

 

 

Tenho uma raiva secreta. Não ver “Pocket Full Of Kryptonite”, primeiro disco do grupo novaiorquino Spin Doctors, participando de listas de melhores dos anos 1990. O álbum, lançado em agosto de 1991, foi um enorme sucesso mundo afora e chegou aqui atrasado meio ano. De súbito, o clipe de “Two Princes” invadiu a programação da MTV Brasil e a banda começou a ser descoberta pelo público que gostava de rock mas não tinha muita paciência pra embarcar nas viagens mais pesadas e barulhentas de gente como Pearl Jam e Nirvana. Na verdade, “Two Princes” nem era a primeira canção dos SD a fazer sucesso, posto este pertencente a “Jimmy Olsen’s Blues”, que tomou as paradas pop americanas em 1991, junto com “Nevermind”, do Nirvana, lançado dois meses depois.

 

O fato é que a banda passou de amada a execrada, pelo menos por um certo senso comum opinativo. E o fato nem foi restrito ao Brasil, visto que os Doctors sumiram de vista após lançar o segundo disco de estúdio, o confuso “Turn It Upside Down”, em 1994. Eles ainda soltaram mais alguns poucos álbuns, retomaram a carreira em algum ponto da década de 2000 e hoje são uma nota de rodapé no rock alternativo americano da década de 1990. Acho sinceramente injusto e olha que os sujeitos vieram ao Brasil a bordo da Voodoo Loung Tour, a primeira aparição dos Rolling Stones em solo pátrio, no início de 1995. Eles fizeram parte de um time que abriu os shows dos Glimmer Twins por aqui, que, a saber – além dos SD – tinha Rita Lee e Barão Vermelho. Os shows de São Paulo e Rio – ao qual eu fui – foram inesquecíveis mas ficou inequívoco o gosto amargo da apresentação do Spin Doctors. O fato é que, depois de dois anos e meio martelado pelas execuções de “Jimmy Olsen’s…”, “Two Princes” e o outro sucesso do disco, a boa “Little Miss Can’t Be Wrong”, o público já havia enchido o saco. E isso ficou evidente nos shows.

 

O problema foi de timing, penso eu. A banda, como eu disse, mandou bem em “Pocket Full Of Kryptonite”. O disco é bem feito, bem gravado, com várias faixas se equilibrando habilmente entre as fronteiras do rock e do funk, com uma pitada leve de jazz. Seria a fonte de inspiração de gente chatíssima como Dave Matthews Band, ou nem tanto, como Blues Traveler e Third Eye Blind, com uma diferença: os SD eram bons compositores, tinham noção de arranjo e percebiam a necessidade de boas músicas para servirem de veículo pra alguma eventual demonstração de habilidade num instrumento ou para uma jam improvisada. A DMB e seus filhotes acredita na levada pela levada, no groove pelo groove e compõe canções que não têm estrutura, sendo intermináveis jams estéreis. Neste ponto, o Blues Traveler, por exemplo, é bem melhor. Pois bem, os Spin Doctors nada tiveram a ver com isso, certo?

 

“Pocket” tem algumas faixas bem legais que não chegaram a fazer sucesso ou ultrapassar a barreira dos fãs. “What Time Is It”, por exemplo, é bem legal, basicamente uma frase de guitarra funkeada em meio a um bom refrão, com certo peso. “How Could You Want Him (When You Know You Could Have Me?)” é o máximo de balada que o grupo conseguia compor na época, com ótima levada de guitarra e um clima de alternância entre levadas mais lentinhas e o groove habitual. “Off My Line” tem mais peso e se vale de uma gaitinha para encorpar a maçaroca sonora da banda, tocada por John Popper, não por acaso, cantor e gaitista do Blues Traveler. “Refrigerator Car” é mais psicodélica e poderia ser uma faixa dos Red Hot Chili Peppers da época e “More Than She Knows” tem certo tom latino em meio ao som da banda.

 

A destacar a habilidade dos sujeitos: o baterista Aaron Comess, capaz de segurar levadas e propor viradas intrincadas no meio delas, sem perder o tempo ou o swing; o guitarrista Eric Schenkman, com personalidade para alternar peso e groove e o baixista Mark White, capaz de fornecer a argamassa pra unir essa gente. À frente de tudo, o bom cantor Chris Barron, com bom desempenho e personalidade.

 

Mesmo com todo o sucesso do álbum, os Spin Doctors se tornaram sinônimo de banda chata. Enquanto isso, Dave Matthews Band segue como uma reserva de bom gosto e habilidade – para os fãs, claro – mas tem mais filme e cartaz que os novaiorquinos. Proponho uma mudança de status e um reconhecimento pelos bons serviços prestados pelos Docs. A propósito: “Pocket Full Of Kyrptonite” foi relançado há nove anos, quando o álbum fez 20 anos, com um CD-bônus, com 16 faixas entre demos e versões ao vivo.

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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