O Não-Grunge Faz 25 Anos

 

Não existe este termo “não-grunge”, mas ele é bem elucidativo para fazer referência a um disco que completa 25 anos por estes dias: “Cracker Rear View”, a estreia do quarteto Hootie And The Blowfish. Como assim, você não conhece a banda? Nem o disco? Tudo bem, porque o Hootie é um desses fenômenos americanos, como o hambúrguer, o cachorro-quente e o Mickey Mouse, mas, de quando em vez, eles ultrapassam as fronteiras dos USA e respingam em várias partes do mundo. De qualquer forma, mesmo que você não conheça ou lembre do disco, vamos falar deste tempo, meados de 1994, quando o grupo lançou esta que é a estreia mais bem sucedida da história do disco. Sim. O álbum vendeu mais de 15 milhões desde seu lançamento, é o 19º colocado em vendas de todos os tempos nos Estados Unidos, só ficando, em termos de discos dos anos 1990, atrás do “Black Album”, do Metallica e de “Supposed Former Infactuation Junkie”, de Alanis Morrissette. Pois é, não tem “Nevermind”, “Ten”, Badmotorfinger” ou outro clássico grunge que seja mais bem sucedido que “Cracker Rear View”.

 

A comparação com o grunge procede porque Hootie And The Blowfish significava o oposto do estilo forjado nas camisas de flanela de Seattle. Isso rendeu à banda uma aura de armação fonográfica, mas uma audição cuidadosa de qualquer um de seus discos mostrará que o quarteto sempre foi uma competente e discreta usina de boa música. Descompromissada, pra cima, às vezes romântica e simples demais, porém, devedora direta de bandas mais conhecidas e famosas, como Tom Petty And The Heartbreakers ou Bruce Springsteen e sua E Street Band. Som para grandes estádios, inegavelmente americano, com origens numa espécie grudenta de blues-rock com acento popíssimo e feito para tocar no rádio e passar na MTV como uma alternativa para qualquer ouvinte que não quisesse ouvir as ladainhas sombrias de gente como Alice In Chains, Pearl Jam ou Nirvana naqueles tempos.

 

A engenhosidade do Hootie passa diretamente pelo seu tempo. Para não desconectar-se completamente do momento em que surgiu – o início dos anos 1990 – era bom ter guitarras e fazer um som potente. A banda oferece isso, com um ataque de duas guitarras eficientes, uma boa cozinha, personificados em Dean Felber, Jim Sonefeld e Mark Bryan e o grande trunfo: Darius Rucker, um vocalista negão que conseguia emular o registro rouco e sentimental de Eddie Vedder. Sendo assim, ouvir o Hootie significava o mais próximo/distante que você poderia chegar da estética grunge, sem jamais ser participante dela. Entendem? Era uma jogada de gênio do selo Atlantic. Surgida em 1989, em Columbia, Carolina do Sul, a banda precisou solidificar seu som e pegada ao longo de quatro anos, até surgir com um EP chamado “Kootchypop”, no qual trazia várias canções que se tornariam hits depois de regravadas e produzidas com a manha do estúdio profissional.

 

O Hootie And Blowfish chegou ao público entre 1994 e 1995. Neste espaço de tempo, foi colocado em duas coletâneas, além do álbum de estreia. A primeira a surgir foi a trilha sonora de “Friends”, na qual vieram com uma cover do obscuro grupo 54-40, intitulada “I Go Blind”. A faixa é um dos destaques do álbum, mais grudenta que chiclete e ajudou a pavimentar o sucesso dos caras. Quase ao mesmo tempo, a banda emplacou uma cover de “Hey Hey What Can I Do”, no tributo Encomium, dedicado ao Led Zeppelin. Ainda que fosse anos- luz distante do original, a voz roufenha de Rucker chamava a atenção pela diferença essencial ao registro agudo de Robert Plant. Quase sem tempo para respirar, chegou às lojas a estreia do grupo, “Cracker Rear View”, que viria a ser o disco mais popular nos Estados Unidos durante o ano de 1995.

 

De fato, poucos discos de rock recentes têm tantas canções ganchudas e belas. De cara, as quatro canções iniciais mostram as credenciais do grupo e prendem o ouvinte. Desde a pegada acelerada de “Hannah Jane”, passando pelo lirismo romântico de homem comum de “Hold My Hand” e “Let Her Cry”, chegando na belezura de fogueira de acampamento que é “Only Wanna Be With You”. Pouco adiante surgem novas belezas, caso de “Drowning”, com dinâmicas de guitarra e levada quebrada de baixo/bateria, mostrando que os sujeitos tinham habilidade como músicos. Em seguida, outro hit, “Time”, com melodia cheia de dedilhados de guitarra e refrão infeccioso. Fechando o disco, uma desencarnada balada ao piano, “Goodbye”, que sintetiza essa poesia urbana e simples, que norteia tudo – melodias e letras – ao longo do disco.

 

A existência de bandas fazendo sucesso com um instrumental calcado em baixo, bateria e guitarras, fez surgir uma enorme quantidade de grupos com esta proposta sonora. Além do Hootie, podemos citar o Gin Blossoms e o Counting Crows, cuja estreia, “August And Everything After”, também completa 25 anos em 2019. Em comum, boas canções, letras interessantes e estes instrumentais coesos, fortes, porém capazes de agradar uma multidão de ouvintes, que não estavam conectados com o aspecto sombrio do grunge à época. Por mais que estas e outras formações tenham gravado discos interessantes e cravado vários singles nas paradas de sucesso, nenhuma delas terá sido tão competente em fazer um álbum tão bonito e capaz de sobreviver ao tempo como “Cracker Rear View”, estreia do Hootie And The Blowfish.

 

Como forma de celebrar a data, a Warner/Atlantic pos no mercado – lá fora – duas edições do disco: uma versão em CD duplo, trazendo o álbum remasterizado, sobras de estúdio e as gravações de “I Go Blind” e “Hey Hey What Can I Do”. Além dela, uma versão tripla, com um DVD também está à venda, com a íntegra de um show da banda e as versões iniciais das canções, incluindo o EP “Kootchypop”.

 

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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