Uma voz negra e potente de volta pra casa

 

 

Em mais de 15 anos de carreira artística, João Biano já fez um bocado de coisa. Paulistano de Bauru, já foi tubista de banda marcial, tocou bateria em bandas covers dos Guns N’ Roses e do Queen; participou de bandas de pop rock; estudou teatro, fez peças e musicais; e montou a banda Preto Básico, seu xodó, entre outras iniciativas, como o Raul da Semana, projeto pelo qual divulga, toda quinta-feira, releituras de pérolas do maluco beleza Raul Seixas. Desde 2012 no Rio de Janeiro, deu um salto de conhecimento musical ao passar a participar, como vocalista, dos blocos Estratégia, Quizomba, Monobloco e Bloco Brasil.

 

 

Biano é múltiplo, inquieto e negro. Sua cor perpassa sua obra, que ganha mais um capítulo com o lançamento, em todas as plataformas de streaming, no dia 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, de Despreconceituosamente, regravação da música do mestre Mateus Aleluia, do álbum Cinco Sentidos, de 2010. No perfil do artista no Instagram você pode conferir uma deixa do belo resultado. À Coluna Coringa, ele falou sobre música, inspiração e claro, preconceito.

 

 

Coluna Coringa: João, de onde surgiu a ideia ou inspiração para regravar Despreconceituosamente? Quais são o conceito e a mensagem que você quer passar?

João Biano: Desde 2018 lanço um single no dia 20 de novembro abordando as questões do povo preto. Os dois primeiros foram composições próprias, Lágrima e Todos Sabem como se Tratam os Pretos, e o próximo será essa versão minha para Despreconceituosamente, de Mateus Aleluia, do trio baiano Os Tincoãs. Conhece?

 

 

CC: Muito! E acho que todos que gostam de boa música deveriam conhecer…

JB: Seu Mateus Aleluia é uma referência pra minha vida musical. Ele é doce e consegue ser gigante sem perder a ternura jamás. É um ícone que fez parte d’Os Tincoãs, hoje muito respeitados, mas que na época em que lançaram o segundo disco, Os Tincoãs, de 1973, pela EMI Odeon, foram muito criticados, pois harmonizavam vozes em pontos de candomblé. Então, essa canção, pra mim, é mais uma volta pra casa. Todos os dias me reconheço mais como homem preto. E esse reconhecimento estará, cada vez mais, na minha obra.

 

 

CC: E de onde veio inspiração para essa canção?

JB: A inspiração é a mesma de sempre. Mas, nesses tempos de hoje, é necessário algo mais pontual, pois geralmente é uma data que muita gente usa pra dizer que “apoia o movimento negro” ou que “vidas negras importam” etc. Por isso, nós chamamos este dia de “dia da paciência negra”, pois muita gente aproveita só pra fazer um badalo nas redes sociais e, no dia seguinte, volta a sua linda branca vida. E a mensagem desta música chega às pessoas de muitas formas diferentes. Cada um compreende dentro do seu nível de racismo.

 

 

CC: Verdade. E como é seu processo de criação de modo geral?

JB: As inspirações vêm quando ou estou andando distraído na rua ou tomando banho. No banho e quando estou mais relaxado, né (risos)? Quando tenho na cabeça alguma ideia de frase de música que não se resolve de jeito nenhum, eu vou dar uma volta ou tomo um banho (risos). Aí, o santo desce no cavalo!

 

 

CC: Que barato! Então você, cantando no banheiro, já começa a desenvolver a melodia…

JB: Sim, às vezes, só tenho um fragmento dela, que exercito no banho. Repito enquanto o banho durar e saio dali direto pro computador e pro violão!

 

 

CC: Já sofreu algum tipo de preconceito no exercício de sua arte?

JB: Comigo sempre foi muito, muito velado. O preconceito sempre me atingiu de maneira silenciosa, e eu sempre entendia como: ‘ah, esse trampo não é meu, por isso não estão me dando o devido espaço’. Hoje, vejo que muitas puxadas de pano foram, na verdade, preconceito. Seja pela minha cor, seja pela minha voz, seja simplesmente pela minha presença.

 

 

CC: Você acredita que o artista deve ter o compromisso de retratar ou de abordar a realidade que o cerca? Você se insere nesse contexto? Como?

JB: Compromisso acho que não. A arte é livre. E esta liberdade deve ser respeitada, se não, não é arte. Cada um fala do calo que o aperta. Tem muita gente que enche o calo de algodão e segue a vida rindo e mancando. E tá tudo bem. Só que uma hora o algodão cai.

Minha maneira de compor vem mudando de uns dois anos pra cá. E no meio de toda a festa que gosto de fazer, com minha atuação no carnaval carioca, por exemplo, coloco estas canções-granada. Duvido de quem faz festa 24 horas por dia e não reclama de nada. Duvido, mas respeito (risos).

 

 

CC: E de que forma você enxerga o cenário para artistas independentes hoje?

JB: É um campo minado. Cheio de muitos desafios, dificuldades. O artista independente tem o poder de controle de toda sua carreira, porém ele é responsável por todas as etapas do seu trabalho, e isso é exaustivo. Pelo menos comigo é assim. Está muito mais fácil jogar sua arte no mundo, confesso. Mas, a meu ver, ficou mais complicado ter visibilidade e vender. Os desafios são gigantescos e a gente ainda tá entendendo como esse jogo é jogado.

 

 

CC: Como tem atravessado a pandemia?

JB: Comecei bem mal e agora estou no meio da linha. Bem, digamos assim… Faz um tempo que as emoções estão controladas, e isso tem servido pra nascerem canções lindas.

 

 

CC: Biano, e o carnaval? O que acha do cancelamento da folia?

JB: Poxa, que tristeza essa situação… Tantos amigos que dependem dessa alegria e desse dinheiro. É a época mais feliz dessa cidade tão maltratada. Mas entendo que um possível cancelamento ou adiamento é por um bem maior. Acho que o próximo carnaval vai ser foda, pois estamos dando o devido valor para a falta que as coisas fazem na nossa vida.

 

 

CC: Concordo. Outros projetos para o futuro?

JB: Estou preparando um projeto musical afro-centrado, chamado Missa Criola. Mas isso a gente fala mais pra frente, depois que você soltar o conteúdo exclusivo sobre o lançamento da bela, necessária e atual Despreconceituosamente (risos)!

 

 

Para seguir João Biano nas redes e plataformas:

 

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Celso Chagas

Celso Chagas é jornalista, compositor, fundador e vocalista do bloco carioca Desliga da Justiça, onde encarna, ha dez anos, o Coringa. Cria de Madureira, subúrbio carioca, influenciado pelo rock e pela black music, foi desaguar na folia de rua. Fã de poesia concreta e literatura marginal, é autor do EP Coração Vermelho, disponível nas plataformas digitais.

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