“Três Jacksons” em Porto Alegre

Nosso colaborador em Porto Alegre, Zeca Azevedo, compareceu ao show dos Jacksons na cidade e conta, com sua visão de fã do Motown Sound, a importância e relevância do grupo para a história da música pop.

 

Local: Auditório Araújo Vianna, 21h.

 

No dia 19 de março de 2019, Porto Alegre hospedou alguns membros da mais famosa família musical dos EUA. A visita, é claro, foi profissional: três integrantes de dois grupos primários, The Jackson 5 e The Jacksons, fizeram show na cidade. Jackie, Tito e Marlon são os mais discretos (ou menos eminentes, como quiserem)  membros do clã Jackson. Tanto Michael como Jermaine destacaram-se da alcateia como cantores, compositores e produtores de discos, sobretudo em carreiras solo. Sabemos que o êxito de Michael Jackson superou de longe o de Jermaine e o de qualquer combinação coletiva do clã, mas os Jacksons têm um legado marcado por muitas gravações que fizeram história, sobretudo na década de 1970. O repertório do grupo é mesmo campeão e, nos shows recentes dos irmãos, que ainda se apresentam como The Jacksons — embora não contem mais com a presença de Randy —, recebe a poderosa adesão de três hits do Michael Jackson solista: “Rock With You”, “Can’t Let Her Get Away” e “Wanna Be Startin’ Somethin'”.

 

Ainda que seja uma apresentação focada no acervo dos dois grupos formados pelos filhos de Joseph e Katherine Jackson (que marcam presença no show por meio de depoimentos em vídeo sobre os primórdios da carreira dos seus rebentos), percebe-se com clareza que o resultado final dela é uma afirmação do patrimônio musical de Michael Jackson, que sobrevive a despeito das seriíssimas acusações póstumas contra o cantor registradas no documentário Leaving Neverland, exibido pela HBO no Brasil no mesmo período em que o país foi visitado por Jackie, Tito e Marlon, episódio de irônica sincronicidade.

 

Jermaine não veio ao Brasil por conta de problemas de saúde. O desfalque foi grande, pois ele sempre foi o segundo cantor mais destacado dos J5. Quando os irmãos Jackson ficaram insatisfeitos com o modo como a Motown administrava sua carreira fonográfica em meados dos anos 1970, decidiram sair da empresa que os lançou para o estrelato, mas não foram acompanhados por Jermaine, que era casado com a filha de Berry Gordy, fundador e poderoso chefão da mais famosa gravadora de Detroit. Entre a cruz e a espada, Jermaine preferiu professar lealdade ao sogro e, assim, criou a primeira de muitas fissuras públicas no grupo de irmãos. Jermaine só voltaria a cantar com seus familiares oficialmente, como integrante do conjunto The Jacksons, em 1984, no álbum Victory e na turnê subsequente. Nessa época, Michael já era o astro mais fulgurante do mundo pop e queria desligar-se profissionalmente dos irmãos, mas cedeu às cobranças da família, participando pontualmente do disco e integralmente da avassaladora turnê que o seguiu. Ao final da Victory Tour, Michael cortou o cordão umbilical que o prendia aos irmãos. O grupo The Jacksons lançou seu último álbum em 1989, ou seja, não produz músicas novas há trinta anos.

 

Quem foi ao show dos “Três Jacksons” sabia o que esperar em termos de repertório. A única surpresa foi a inclusão de uma canção simpática, porém esquecível, do primeiro álbum solo de Tito (convenientemente batizado como Tito Time). O trio Jackson e seus competentes músicos abriram o show com “Can You Feel It”, do disco Triumph, de 1980, com direito a exibição no telão do messiânico vídeo que teve efeitos especiais produzidos pelos criadores do visual de Guerra nas Estrelas (detalhe revelado pelo programa Fantástico quando lançou o clipe com exclusividade no país). Em seguida vieram a irresistível “Blame It On the Boogie”, do LP Destiny, de 1978, e “Rock With You”, apropriada pelos “Três Jacksons” de forma mais que satisfatória. O primeiro LP do grupo, chamado simplesmente The Jacksons, lançado em 1976 pelo selo Epic e produzido por Kenny Gamble e Leon Huff, os gigantes do som da Philadelphia, apareceu no show com duas faixas, “Enjoy Yourself” e a maravilhosa “Show You the Way to Go”, um dos pontos altos de toda a apresentação. Pela reação do público presente, eminentemente de meia-idade e com notável parcela de fãs negros (que só não estavam lá em maior número por conta do preço abusivo dos ingressos, quero crer), deu para perceber que “Show You the Way to Go” é uma canção menos lembrada hoje, mas mesmo assim foi muito bem recebida por conta da eletrizante performance dos irmãos, sobretudo de Marlon, a verdadeira estrela da noite. Embora tenha sido composta por Gamble e Huff, “Show You the Way to Go” tem alguns contornos melódicos herdados do jazz que reaparecem em composições de Michael Jackson, estudante aplicadíssimo das práticas dos artistas mais velhos com quem trabalhou na infância e na adolescência.

 

Depois da vibrante “Lovely One”, outra canção extraída do LP Triumph, veio o momento mais esperado por muitos fãs presentes, a celebração do legado dos Jackson 5. Infelizmente, exemplares de pop-soul perfeito como “I Want You Back”, “ABC” e “The Love You Save” (a despeito da letra machista dessa última) foram subaproveitados porque apareceram no show espremidos em um medley. “I Want You Back”, pérola em forma de canção que completa 50 anos de lançamento em outubro de 2019, permanece em evidência nos dias de hoje, aparecendo até em filme da Marvel, e por isso merecia ser interpretada do começo ao fim. O medley dos J5 é um cacoete herdado das apresentações do grupo a partir da segunda metade dos anos 1970, quando já se chamava The Jacksons (Michael Jackson levou este cacoete para suas turnês mundiais a partir de 1987). Pelo menos, a inesquecível “I’ll Be There” apareceu inteirinha, com direito a mesma coreografia de mãos feita por artistas e público no show Motown 25, de 1983. Não podia ser de outro modo, já que a canção é o maior sucesso dos J5 e não foi superada em termos de impacto comercial por nenhum registro fonográfico feito pelos irmãos sob a alcunha de The Jacksons. Além de chegar ao primeiro lugar da parada pop nos EUA e permanecer muitas semanas por lá em 1970, o compacto simples de “I’ll Be There” vendeu mais de quatro milhões de cópias só naquele país. Um dos vocalistas de apoio do show, com voz semelhante à de Michael Jackson, fez com que “I’ll Be There” soasse cá e lá como a célebre gravação original. Enquanto os hits dos J5 eram cantados pelos “Três Jacksons”, o telão exibia imagens do desenho animado de 1971 protagonizado pelos integrantes do grupo, fato que certamente atiçou a memória afetiva de muitas pessoas na plateia.

 

O intervalo entre as canções do show era pequeno, sem muita falação dos artistas com a plateia. A eletrizante “Dancing Machine” veio na cola do medley dos J5 descrito no parágrafo acima. Pena que a dança do robô tenha sido substituída no show por uma exibição dispensável de luzes estroboscópicas, efeito usado mais para esconder do que para realçar o que acontecia (ou não acontecia) no palco. Na sequência, vieram “Never Can Say Goodbye” em interpretação tépida, “We Made It”, a já citada canção do álbum solo de Tito, a subestimada “This Place Hotel”, “Wanna Be Startin’ Somethin'” (Jackie desafinou em alguns momentos ao cantar essa) e “Shake Your Body (Down to the Ground)”, que fechou o show não só por ter um ritmo forte e por ter feito muito sucesso quando lançada em 1978, mas também porque foi a gravação que salvou os Jacksons.

 

Enquanto o primeiro LP dos Jackson pelo selo Epic vendeu meio milhão de cópias em 1976, o segundo, Going Places, também produzido por Gamble & Huff, foi um fracasso de vendas que deixou o grupo em situação delicada com a gravadora. A sobrevivência enquanto marca relevante no feroz mercado musical norte-americano dependia do êxito comercial do material que os Jacksons entregariam para a Epic. Os irmãos decidiram que era hora de assumir as rédeas do próprio destino, escrevendo e compondo todo o material do LP de 1978, que recebeu o nome sugestivo de Destiny. A sincopada “Shake Your Body (Down to the Ground)” foi escolhida como faixa de trabalho do álbum e arrebentou nas pistas das discotecas e nas paradas de sucessos, garantindo a Destiny o cobiçado disco de platina por mais de um milhão de cópias vendidas. O futuro dos Jacksons — e o de Michael Jackson em particular — no selo Epic estava garantido.

 

Os “Três Jacksons” que estiveram por aqui, Jackie, Tito e Marlon, têm mais de cinco décadas de show business. O domínio de palco que eles têm garantiu a diversão e a atenção do público. Marlon, como já foi dito aqui, foi a estrela da noite, pois ficou com a maior parte dos vocais solo e mostrou várias vezes sua destreza como dançarino. A energia de Marlon, que completou 62 anos agora em março, é realmente invejável. Se Jermaine estivesse presente, certamente a dinâmica da apresentação seria outra e Marlon não teria o protagonismo que teve. Talvez por isso ele estivesse tão energizado. Jackie, o mais velho dos irmãos, tem 67 anos de idade e apresentou-se bem, cantando bastante e participando ativamente de várias coreografias. Tito, que tem 65 anos, passou o show todo preso à guitarra, mas ainda assim arriscou passos de dança. Nenhum dos “Três Jacksons” tem ou teve extensão vocal comparável à de Michael Jackson ou mesmo à de Jermaine, então as canções foram apresentadas algumas oitavas abaixo das gravações com que estamos acostumados. Os eventuais lapsos vocais eram compensados pelo carisma dos “Três Jacksons”, que conquistaram a plateia com sua energia e seu talento. Ao final da apresentação, tanto Marlon quanto Jackie desceram do palco para cumprimentar os fãs e para posar para as inevitáveis selfies, gesto bastante simpático.

 

A grande quantidade de assentos vazios na plateia (por conta, acredito, do preço salgado dos ingressos), o palco pequeno do Auditório Araújo Vianna, muito menor do que as plataformas gigantes dos estádios em que os Jacksons se apresentaram na década de 1980, e a produção acanhada do show, despida de efeitos pirotécnicos e de outros truques bombásticos, passaram a impressão incontornável de que o legendário grupo vive seu momento de declínio, mas o talento musical e performático que fez com que os irmãos ganhassem o mundo no passado apareceu, ainda que de forma intermitente, no show. Foi uma lição para quem acha que os únicos Jacksons que merecem consideração hoje são Michael e Janet. A vocação genuína da família Jackson para o show business está no sangue, para o bem e para o mal. Quem acompanhou o show dos “Três Jacksons” em Porto Alegre viu e ouviu o lado bom dessa vocação.

Crédito pela foto: Emílio Pacheco.

 

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Zeca Azevedo

Zeca Azevedo é. Por enquanto.

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