Lobão no Roda Viva – Quem se importa?

 

 

Lá nos anos 1990, eu, recém-entrado na Rock Press, ansioso por experiência como jornalista musical, vi algo que me incomodava bastante: a admiração que as pessoas tinham pelo Lobão. Nem todas, é verdade, mas muita gente achava que ele era o tal. No início dos anos 2000, à frente da revista Outra Coisa, Lobão encampou uma luta de artistas independentes ao batalhar por clareza nas vendas dos CDs e, ao mesmo tempo, dar alguma oportunidade para que estes lançassem seus discos com ajuda da publicação. Novamente não me convenceu. Mais tarde, 2007, se não me engano, Lobão lançou um … Acústico MTV, pela Sony Music. Eu sempre argumentava com os colegas: tudo o que este sujeito deseja é ser um artista pop, exatamente do mesmo jeito que foi no fim dos anos 1980. Dito e feito. Ontem, por força de um, vá lá, compromisso com a verdade, vi o Roda Vida com o Lobão e só fiz comprovar minha tese inicial: Lobão sempre quis ser uma pessoa pop. E ele conseguiu.

 

A maior prova é este texto aqui. Se fôssemos nos basear pelo interesse em seus discos ou livros, duvido que tais obras justificassem o investimento de tempo para a escrita sobre elas. Sobre o elástico discurso lobônico quando o assunto é “arte” e política, no entanto, a empreitada (talvez) se justifica. Todos sabem, o cantor e compositor carioca, outrora vinculado à esquerda brasileira, tornou-se um atuante militante conservador. Encampou discursos anti-democráticos e voltou às rodas de conversa em algum ponto da década de 2010. Sua opinião anti-PT tornou-se notória, evoluindo para aproximações com o “guru” olavo de carvalho e a defesa/campanha pelo impeachment sem provas de Dilma Rousseff, o enaltecimento do governo de michel temer, a campanha, endosso e adesão ao atual governo federal. Depois do endurecimento ideológico, da corrupção, das escabrosas decisões tomadas pelo atual presidente, Lobão decidiu deixar o barco. Acho que ninguém lamentou sua saída.

 

Por essas e outras, a presença dele no Roda Viva talvez despertasse interesse em curiosos de longa data – eu – e, quem sabe, em algumas viúvas lobônicas dos tempos idos. Sabemos que sua melhor fase musical foi como associado de compositores como Cazuza e Júlio Barroso. Que seus discos nunca venderam muito, que suas músicas sempre tocaram menos do que as de Lulu Santos, Paralamas do Sucesso e Legião Urbana, isso para não mencionar os paulistas e gaúchos. Sabemos que sua prisão por posse de drogas serviu para que ele forjasse uma imagem de outsider/outlaw mais rasa que uma bandeja, tendo ele sempre sido um sujeito nascido na classe média-alta carioca. Sua década de 1990 foi lamentável em termos criativos. Sua carreira como dono de revista era pautada por ataques às gravadoras e ao governo, sendo a Outra Coisa coalhada de anúncios da Caixa Econômica Federal.

 

Como participante do Roda Viva de ontem, novamente Lobão encarnou o bom selvagem. Se disse sexy, legal, de bom gosto. Atribuiu à esquerda brasileira o rótulo batido de coitadista, disse que seus intelectuais são punheteiros de pau mole. Até aí, ninguém se importa. O que irrita é a demonstração de duas características importantes no ideário lobônico: a primeira é uma falsa premissa de que ele é um intelectual com livre trânsito na classe artística brasileira, se referindo a pessoas como Aldir Blanc, Nelson Rodrigues e Neville D’Almeida como se, de fato, fosse íntimo dessas pessoas em algum ponto de sua vida. A outra é o seu vocabulário “rebuscado” que reveste sua fala de uma falsa erudição, certamente fator de atração em gente despreparada.

 

Recentemente Lobão retomou contato com Gil, Caetano e Chico, desafetos históricos, com os quais “rompeu” na década de 1990. Segundo ele, tais artistas seriam membros de um “coronelato” na música nacional, “brega” e “sem a energia e visceralidade do rock” – frase esta que mais parece proferida pelo professor picareta de Jack Black em “Escola de Rock”. Segundo seu raciocínio, o rock ainda é o porta-voz desta “raiva” que endossaria o discurso realmente revolucionário, certamente uma visão que não sobrevive a cinco minutos de argumentação séria.

 

Lobão no Roda Viva = menos duas horas na vida do espectador.

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

5 thoughts on “Lobão no Roda Viva – Quem se importa?

  • 31 de julho de 2020 em 18:52
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    Genial, absolutamente genial ! Não somente pela definição mais precisa que eu já li sobre o artista, mas principalmente pela brilhante sutileza do “olavo de carvalho, michel temer e Dilma Rousseff”. Um dia a história mostrará quais dos personagens contemporâneos merecem a letra maiúscula da honra. Parabéns!!!!!

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    • 31 de julho de 2020 em 19:14
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      Obrigado por perceber as sutilezas, meu caro.

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  • 2 de junho de 2020 em 11:15
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    Rapaz, obrigado pelo comentário. Eu gosto do “A Vida é Doce”, talvez seja seu melhor trabalho. Os discos noventistas, no entanto, não me descem de jeito nenhum. Grande abraço.

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    • 2 de junho de 2020 em 11:55
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      O último disco do lobão é bom no som … emulando uns Yes, do progressivo que ele e outros já renegaram.
      A biografia e o Manual também são…
      Foi bom para uma segunda- feira nefasta.
      Estava cansado das bandeirinhas antifa, pois a internet anda vulgarizando qualquer luta… Além de estármos chegando lá, no topo do mundo, com 30.000 mortos e subindo!
      Lobão de quem nunca fui fã (sou Barão e Legião) é a cara dessa republiqueta litorânea!

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  • 2 de junho de 2020 em 11:02
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    Eu concordo com seu ponto de vista (inclusive desisti antes de acabar o último bloco). Será que alguém se deixa impressionar pela verborragia dele ainda?
    No entanto, considero a melhor fase de sua carreira
    Nostalgia da modernidade (8,0)
    A vida é doce (10,0)
    Canções dentro da noite escuro (9,0)

    Todo o resto sofre pra chegar num 7. O Acústico é bom (lindos os violões ali), mas àquela altura, quem se importava?

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