The Flaming Lips – American Head

 

Gênero: Rock Psicodélico, rock alternativo

Duração: 50 min
Faixas: 13
Produção: The Flaming Lips, Dave Fridmann, Scott Booker
Gravadora: Warner/Bella Union

3.5 out of 5 stars (3,5 / 5)

 

Flaming Lips já fez disco quádruplo que só era possível ouvir se os quatro álbuns fossem tocados juntos, ao mesmo tempo. Flaming Lips já fez álbum cover de Pink Floyd, de Beatles, disco infantil, colaborou com Miley Cyrus, tocou para um estacionamento cheio de carros vazios, mas com os faróis acesos, simulou condições sonoras do espaço em disco conceitual como se fosse um concerto de rock tocado na Estação Espacial Internacional. Flaming Lips já plagiou Cat Stevens na cara dura, já teve momentos geniais, outros nem tanto. Agora, mais de trinta anos após começar suas atividades, Flaming Lips vem com um trabalho que traz duas características inéditas em sua irriquieta existência: “American Head” é um disco triste e que faz um inventário do que significa ser americano hoje. E, talvez, ontem. Esta é a proposta que Wayne Coyne e Steven Drodz, as mentes enlouquecidas e criativas por trás do grupo, fazem para seu público. A ideia…bem, a ideia é ouvir, certo?

 

Coyne andou falando que este era um disco sobre ter crescido nos anos 1970, sobre ter visto filmes, ouvido música, pensado, enfim, existido como criança/adolescente naquele recorte específico de tempo. Sendo assim, sendo ele, o que temos por aqui é um compêndio de canções contemplativas, lentas, cadenciadas, todas muito próximas do que se entende por rock progressivo, mas a visão do Flaming Lips para o estilo. Isso significa dizer que nem tudo é o que parece. Se as canções são tristes, lentas, do jeito que descrevemos, elas também são psicodélicas, doces, grudentas. Coyne, Drodz e sua turma têm a mão boa para misturar doideira, perspectiva e bons refrões, boas estruturas pop que servem como esqueleto do que surge em seus discos. Aqui não é diferente: por trás de quase toda faixa de “American Head”, há uma canção pop esperando por reconhecimento. Mesmo que isso seja legal, o clima do disco, o resultado que se ouve é muito mais tristonho do que de costume e isso pode afastar quem se acostumou a ver um Flaming Lips borbulhante.

 

Mesmo assim, há belos momentos por aqui. Os singles lançados pela banda logo a partir do início da quarentena talvez tenham preparado os fãs. O primeiro deles, “Flowers Of Neptune 6” tem nome de episódio de Star Trek, uma baladaça clássica, que poderia ser de 1975, totalmente na fronteira entre progressivo e soft rock, bonita e triste. A seguinte, “Dinosaurs On The Moutain” já tem violõs dedilhados, revestimento clássico de baladão e versos como “I’d wish the dinosaurs were still here now”, num contraste interessante entre formato melódico mais conservador e essas falas/desejos meio infantis, que só levamos a sério quando somos crianças ou quando somos velhos, fazendo disco sobre o tempo que passou. “At The Moovies On Quaaludes” já dá a pista do Coyne doidão emergindo já naquele tempo, doidão no cinema, tomando comprimidos talvez de sua mãe, sabe-se lá. Mesmo nesta onda, a parte instrumental da canção é mais uma daquelas tentativas – bem sucedidas – dos Lips parecerem um Pink Floyd meio alternativo. Aqui, nesta faixa, deu certo.

 

E, falando em Floyd, novamente há o aceno, dessa vez ao início da carreira do quarteto britânico, em “Mother I’ve Taken LSD”, com explosões instrumentais e arranjos que podem lembrar uma eventual demo tape daqueles tempos. Também há os momentos em que esse clima mais lento e contemplativo não funciona e a coisa resvala para a chatice: “Brother Eye”, por exemplo, tenta sustentar mais um arranjo lento e solene com uma programação eletrônica que joga totalmente contra. “Mother Please Don’t Be Sad” também resvala para o tédio e fica meio complicado não bocejar na transição para o instrumental “When We Die We’re High”, que tempera batidas mais pesadas de timbres programados eletronicamente com … latidos. “Assassins Of Youth” também é outro momento em que as coisas não funcionam, seja pela voz de Coyne, seja pelos ruídos que surgem no espectro sonoro. Ao quase fim do disco, uma surpresa interessante: “God Ant The Policeman”, com participação da cantora country Kacey Musgraves, que surge como uma canção totalmente pop, eletrônica, bem feita e legal.

 

“American Head” é disco que exige tempo para ser apreciado. Tempo e compreensão, pois traz uma banda famosa em sua inquietude, propondo um momento de reflexão, de paz e de calma. Lento, cinematográfico, porém, quase indicado apenas para fãs. Se você se habilita, vem nessa. Do contrário, prepare-se para um longo percurso.

 

Ouça primeiro: “Flowers Of Neptune 6”

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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