Tame Impala – The Slow Rush

 

 

 

Gênero: Rock alternativo, psicodelia
Duração: 58 minutos
Faixas: 12
Produção: Kevin Parker
Gravadora: Island/Modular

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

Um dos discos mais aguardados dos últimos anos finalmente está entre nós. “The Slow Rush”, novo álbum do Tame Impala, é como já poderíamos imaginar: um passo adiante na odisseia de Kevin Parker rumo a uma versão das sonoridades oitentistas, com aceno/carinho a alguns aspectos setentistas, mas tudo dentro do espectro do pop eletrônico, no máximo, do que se costumava chamar de pop rock. Se ele começou sua carreira como Tame Impala completamente imerso na psicodelia contemporânea, no sentido Flaming Lips do termo, desde 2016 – quando lançou o anterior, “Currents” – já dá pra cravar que Parker persegue uma versão ideal de sonoridade bem distinta, ainda que sua própria estética psicodélica, coloridona e flutuante, forjada por Wayne Coyne nos anos 1990, seja ponto importante dentro do caldeirão sonoro.

 

Quatro singles de “The Slow Rush” surgiram entre 2019 e os primeiros momentos de 2020, cada um com uma pista sobre o movimento de Kevin. Se a gente podia pensar que a fascinação pelos timbres AOR e de pop oitentista – no sentido Pet Shop Boys/Supertramp do termo – era passageira, este novo disco chega para confirmar que este encantamento faz parte oficial da estética Tame Impala. Não dá mais pra achar que a banda é só psicodélica, ela cola em si o selo de revisionismo da década de 1980 e o faz com orgulho. Dentre os singles antecipados, talvez “Borderline” seja um dos mais bandeirosos deste movimento. Parece alguma gravação alternativa dos Pet Shop Boys, só que despida da eletrônica dançante, voltada para uma visão tristonha de algo, talvez uma praia cinzenta, vá saber. O clima é de tristeza e contemplação.

 

“Lost Yesterday” também vai pelo mesmo caminho, usando uma programação de bateria que deriva graciosamente de sucessos como “True Blue” (Madonna) ou “When The Going Gets Tough (The Tough Gets Going)” (Billy Ocean), apontando as baterias de Kevin para o popão radiofônico de antanho. E o aceno ao Yacht Rock/AOR que surge com “It Might Be Time”, que tem piano Fender Rhodes com sonoridade que ressuscita o Supertramp de 1980, é a confirmação de que a novidade estava, na verdade, quatro décadas no passado. Com quase metade do disco antecipada, ficamos curiosos para confirmar a tendência que os singles apontavam e ela é oficial.

 

A abertura, com “One More Year” é eletrônica, com vocais pairando alegremente sobre uma bateria eletrônica datada e bonitinha. Kevin dá o tom da saudade: “Do you remember we were standing here one year ago?” e prossegue com “Instant Destiny”, que evoca algum baladão oitentista, mas também parece uma obra de samplers como “One More Time”, do Daft Punk, outro artista com apreço pelo passado, visando transformá-lo em presente/futuro. “Breath Deeper” é outra lindeza pseudo-funk, que lembra algo da programação ritmica de alguma faixa dos primeiros dois discos da Madonna, talvez “Lucky Star” ou algo assim, com Kevin se divertindo sobre a maçaroca sônica. “Tomorrow’s Dust” já traz mais do fim dos anos 1980, com um clima que poderia ser equiparado a algo de PM Dawn, mas sem o groove e a malandragem dos caras.

 

“Glimmer”, a menor faixa, com pouco mais de dois minutos, entrega o ouro sobre a fascinação de Kevin Parker sobre a música pop eletrônica oitentista, novamente soando como Pet Shop Boys, dessa vez como se fosse um rascunho de alguma canção da dupla britânica. Da produção mais antiga do Tame Impala, talvez “On Track” seja a que mais se aproxima, com a solenidade habitual dos anos iniciais da banda sendo colocados em meio ao andamento pop dourado. O encerramento com “One More Hour” também é belo e próximo do Tame Impala inicial, mas, sendo bastante sincero: a nova identidade da banda, incorporando suas influências oitentistas, me parece bem mais interessante e bem resolvida. Além do mais, Kevin Parker me parece mais feliz e à vontade por aqui. Um belo disco, moderno, colorido, com cara de verão mas com friozinho na sombra.

 

Ouça primeiro: “Borderline”

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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