Tambores da América: conexões latinas em meio à pandemia

 

 

Conheci Agustin Rios quando dividimos o palco nas apresentações do Bloco Brasil, nos idos de 2016, em uma rotina frenética de ensaios e shows. De lá pra cá, a convivência nos blocos do Rio de Janeiro sempre foi divertida e muito musical.

 

Argentino naturalizado brasileiro, o músico tem se dedicado ao Projeto Tambores da América que, no dia 15 de setembro, em parceria com a Secretaria Estadual de Cultura e Economia Criativa, por meio do Edital Cultura Presente nas Redes, estreia no Instagram (@tamboresdeamerica) o primeiro vídeo da série Viagem Percussiva pela América Latina, que vai apresentar a história, os ritmos e os toques dos tambores típicos de alguns países latino americanos. Abaixo, o papo sobre a iniciativa!

 

CC: Como surgiu a ideia para o Tambores da América?

Agustin Rios: A ideia surgiu logo que cheguei ao Rio, em 2011, conversando com meu sogro, também músico, o baixista Joe Lima, e com a minha atual companheira, Luanda Morena, produtora cultural, que à época ainda era minha namorada. Num primeiro momento pensamos em formar uma orquestra de tambores, que se tornou algo distante por uma questão de logística, já que não encontramos facilmente os instrumentos por aqui. A partir disso, pensamos em adaptar os ritmos e toques para os instrumentos das escolas de sambas e fundar um bloco de carnaval. Chegamos a realizar algumas oficinas, com pequenas turmas, mas a ideia do bloco dando lugar a um projeto social, de arte-educação, a partir de propostas que fomos recebendo, editais nos quais fomos contemplados, até chegar ao que é hoje. Resolvemos encarar essa missão como objetivo principal.

 

CC: O objetivo então é disseminar a cultura musical de quais países da América Latina? E qual foi o critério de seleção dos países?

AR: Para o edital Cultura Presente nas Redes escolhemos apresentar alguns dos tambores do Uruguai, Argentina, Peru, Cuba e República Dominicana. A seleção seguiu uma identificação e um carinho particulares que tenho por esses instrumentos e pela cultura musical de cada um desses países, mas também por serem ritmos bem tradicionais, a grande maioria com origem na África e nas suas diásporas. Como o foco principal do projeto é aproximar e criar uma identificação do Brasil enquanto país latino, pertencente a essa grande pátria que é América Latina, com outros países, tentamos trazer a ancestralidade dos nossos povos originários para os trabalhos. 

 

CC: E quais os próximos passos?

AR: Desde 2017 o Tambores de América vem tomando forma como um projeto artístico-educativo, então vejo como próximo passo, pós pandemia, realizarmos alguma ocupação criativa em escolas públicas aqui do subúrbio, no bairro de Pilares, onde moramos. Já existe também uma conversa bacana com a Secretaria Municipal de Educação sobre isso, então acredito que, em breve, entraremos em fase de captação de recursos e de parcerias para realizarmos essas atividades.

 

CC: Fora o Tambores, como está sua produção artística nesse período de pandemia? Já se adaptou à exposição dos seus trabalhos e cursos pela internet? Como foi o processo?

AR: Com a pandemia precisei encarar algo que vinha protelando, que é a exposição do meu trabalho individual, solo, nas redes sociais. A exposição dos trabalhos coletivos já era algo que fazia com alguma frequência, mas essas aparições individuais costumavam ser bem raras. Estou, dentro das possibilidades, mantendo contato com meus alunos, trocando conteúdo, propondo exercícios…Também durante a pandemia surgiu a ideia de criar o perfil no Instagram para o Tambores da América e alimentá-lo com conteúdo em português sobre a cultura latina, recebendo amigos, falando sobre seus trabalhos, suas pesquisas… A coisa tomou uma proporção que não imaginávamos! Quem gosta da cultura dos tambores e de tudo que rodeia esse universo não pode deixar de passar o olho lá, o perfil é @tamboresdeamerica.

 

CC: E a família, como se adaptou ao período de isolamento?

AR: Foi fácil no começo, mas com o passar do tempo, nosso filho, Adrián, de seis anos, ficou mais impaciente e com menos vontade de cumprir as tarefas da escola e a rotina que a gente criou a partir da pandemia. De uma maneira geral, estamos agradecidos pela relação familiar que temos e pelas dinâmicas de convivência que criamos ao longo dos anos, porque a verdade é que essa conexão está ajudando muito nessa nova rotina (risos).

 

CC: Imagino! Fale um pouco de sua trajetória musical…

AR: Comecei desde adolescente a ter contato com alguns instrumentos musicais onde cresci, em El Ceibo, na Argentina. Sempre tinha um amigo com algum violão ou algum vizinho que gostava de tocar, mas foi só aos 17 anos que conheci meu mestre, Eduardo Avena, e comecei a estudar e a levar a música como algo além de um hobby. Depois de um tempo comecei a participar de alguns projetos autorais e bandas de covers, tocando na maioria dos casos percussão latino-americana.

Em 2011 cheguei ao Brasil, onde comecei a estudar música brasileira com amigos, e participei de projetos como o Bloco Brasil, Turbilhão Carioca, Desliga da Justiça, Banda Garapa, Circo Macaco Prego, Bloco Estratégia… Também comecei projetos próprios como Ahí Namá, Quinteto Zona Norte, Orquestra La Original. Hoje sou professor do Bloco Estratégia e de algumas unidades do Sesc, dando aulas de pandeiro ,repique, caixa etc.

 

CC: Por falar nisso, você mantém a banda Orquestra La Original. Qual é o conceito e o propósito da banda? Fale um pouco do repertório e dos arranjos…

AR: A Orquestra La Original nasceu de uma vontade de tocar a música que me apaixona, ao mesmo tempo nasce da necessidade de tocar e criar arranjos próprios sem depender ou participar de projetos dos outros. O propósito é tocar música latina, na sua maioria salsa e timba, com arranjos e composições próprias misturadas com clássicos da música brasileira como Flor de Lis, do Djavan, Gostava Tanto de Você, do Tim Maia etc., tendo como ponto principal executar a música em função dos dançarinos ou bailadores, como chamamos.

 

CC: Como foi sua chegada ao Brasil e como você, um músico argentino, sentiu a cultura brasileira, sobretudo quanto à música?

AR: Minha chegada ao Brasil foi muito mais natural do que esperava. Sempre me senti acolhido e bem-vindo, primeiramente pela minha família brasileira, que é a família da Luanda, e depois pela grande maioria dos colegas músicos e artistas em geral. Sempre fui apaixonado pela cultura brasileira, então sentir isso no dia a dia sempre me faz ser uma pessoa agradecida e afortunada. O Brasil, e sobretudo o Rio de Janeiro, apesar do que a maioria pensa, ocupam 50% do meu coração! Já da música brasileira, o que posso dizer além do que todos sabem? É uma dádiva que o Brasil oferece ao mundo, algo único e formoso que apaixona a qualquer um, com suas melodias incríveis e seus compositores deslumbrantes.

 

CC: Pode soar meio óbvia a pergunta, mas você enxerga conexões entre a música produzida no Brasil e do que e produzido pelos outros países da América Latina?

AR: Muitas, mas muitas conexões mesmo! A principal razão é que somos uma pátria grande, temos quase a mesma história e sofremos com quase as mesmas injustiças, além de termos a incrível mistura das três raças, como Clara Nunes cantou… No aspecto musical, acho que a grande influência são as raízes africanas na maioria dos ritmos que, misturadas ou não com instrumentos e ritmos europeus e originários de América, fazem com que células rítmicas se repitam em culturas e países diferentes. Por exemplo, o candomblé. É um ritmo conhecido pelos uruguaios que desenvolveram e cultivaram como próprio desde a época da colônia, mas que além de ser um ritmo, é um conceito utilizado em várias culturas de matriz africana em lugares como Argentina, Paraguai, e claro, no próprio Uruguai.

 

CC: Você é um músico que também fabrica instrumentos. Como começou essa atividade, e como está hoje?

AR: Eu sou músico graças à vida e as pessoas que sempre me ajudaram, mas já trabalhei e fiz tantas coisas que precisaríamos de uma entrevista só para isso (risos)… Quando novo, cheguei a entalhar alguns djembés, que são tambores africanos, e fabricar kalimbas, dunduns, e vários tipos de instrumentos de percussão. Hoje em dia estou mais focado em fabricação de cajons e no conserto de instrumentos de percussão em geral. Como sou marceneiro, também fabrico e conserto móveis, além de instrumentos.

 

CC: Além de tudo, também é um artista concorrido no Carnaval. Qual é a sua opinião sobre a realização da folia em 2021?

AR: Assim como para as escolas de samba, para os blocos de pequeno e médio porte já é praticamente impossível que aconteça de forma ideal, até pelo tempo hábil para produzir, captar recursos… A organização do Carnaval começa logo após a Quarta-Feira de Cinzas. Particularmente acho que sem vacina não tem nem cabimento ter Carnaval de rua, e caso a vacina venha, acho justo que tenha Carnaval, do jeito que der e puder, para liberarmos um pouco da energia que estamos armazenando durante a quarentena (risos).

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Celso Chagas

Celso Chagas é jornalista, compositor, fundador e vocalista do bloco carioca Desliga da Justiça, onde encarna, ha dez anos, o Coringa. Cria de Madureira, subúrbio carioca, influenciado pelo rock e pela black music, foi desaguar na folia de rua. Fã de poesia concreta e literatura marginal, é autor do EP Coração Vermelho, disponível nas plataformas digitais.

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