A Impraticável Cozinha de Felipe Bronze

 

Quem gosta de programas de gastronomia na TV já conhece o chef carioca Felipe Bronze. O cara domina a grade do GNT, participando de três atrações: The Taste Brasil, Que Seja Doce e Perto do Fogo. Ao pesquisar alguns dados sobre ele, tomei ciência de que Bronze comandará um reality show de culinária na Record, com o nome de Top Chef. Ou seja, estará à frente de quatro atrações televisivas. Além delas, a culinária do sujeito pode ser conferida em seus restaurantes, Oro e Pipo, ambos situados no Rio de Janeiro. O segundo, inclusive, está abrindo uma filial em São Paulo. Nos cardápios, versões de comidas feitas na brasa, sendo que o Pipo paulistano terá um braseiro de vários metros, no qual a maioria dos pratos do cardápio será preparada. Além disso, ele lançou um livro de sucesso e recebeu, no mesmo ano, duas estrelas Michelin, uma para cada restaurante, conseguindo um feito inédito. O cara é premiado, listado, bem cotado, valorizado, totalmente sinistro. Começou lá atrás, no Fantástico, como o Mago da Cozinha, lembram? Uma unanimidade, certo? Errado.

 

Felipe Bronze não me enche os olhos. Digo isso com minha experiência de espectador da Cozinha Maravilhosa da Ofélia e da Etty Fraser, a mesma vivência que me fez perceber que o Masterchef não é um programa sobre comida. A culinária de Felipe Bronze também não é sobre comida, é sobre a impossibilidade de sua reprodução, sobre a intangibilidade de seus pratos, é, enfim, sobre ele, Bronze. Os programas em que ele está envolvido são, digamos, de altíssima gastronomia, algo que, percebi com o tempo, nada tem a ver com a fome ou o desejo de comer. Tem a ver com o desejo de “participar de uma experiência”, como esses chefs gostam de dizer. É como você comer, sei lá, ostras albinas do Mar Cáspio, porque têm um sabor único no terceiro dia de novembro em anos bissextos, ou algo assim. É uma odisseia de bolso, um desafio proposto por chefs a um público irreal que não anda na rua e que não sabemos quem é. É para gente da classe AAA.

 

Esse pessoal, claro, tem poder aquisitivo para pagar. E paga. E é para eles que gente como Bronze trabalha. Nada errado nisso, a sociedade divide-se em classes, cada uma com a sua demanda. Por experiência e vivência próprios, jamais preferirei uma ostra albina do Mar Cáspio ou, sei lá, uma codorna de duas cabeças de Java a uma macarronada dominical e sei que até Bronze dá valor a isso. Meu problema está com o uso da comida – algo sagrado para mim – como meio de aferição de poder aquisitivo e distinção social, e, pior, como algo a ser ostentado. Não reparem, eu sou ingênuo. Por mim, não haveria indústria farmacêutica ou companhias que vendem água, tudo seria gratuito para as pessoas em qualquer lugar do planeta. Portanto, dê um desconto para o idealista aqui.

 

As atrações que Bronze comanda no GNT, têm todas a ver com a cozinha que eu gosto de chamar de impraticável. Outro dia mesmo, em seu programa Perto do Fogo, ele estava fazendo um sanduíche de ostras com maionese de bacon defumado, num pão especial, acompanhado de uma salada de batatas douradas na brasa com azeite de trufas defumado, alecrim, sálvia e o escambau a quatro. Neste programa, TUDO é defumado, desde o leite, a maionese, o alho, não escapa nada. O mote é que tudo fica melhor e sensacional na brasa, assado. Pra isso, Bronze aparece num cenário em que fica à frente de uma churrasqueira gigantesca, numa mansão em algum lugar insuspeito. Tudo o que ele faz ali é impossível de ser reproduzido em casa e isso, a meu ver, não combina com programas de culinária. Não consigo acreditar em alguém que apareça na tela da TV que não deseje que o espectador reproduza o seu prato. Cozinhar é um ato de amor, acima de tudo. Como pode alguém aparecer com um amor impossível, impraticável, irreproduzível? Aí não é amor, é outra coisa. Provavelmente cilada.

 

Bronze faz isso em seus três programas. No Que Seja Doce, ele e um corpo de jurados – arrogantes chefs confeiteiros e patissieurs – estipulam tarefas impossíveis para candidatos. O prêmio? Um troféu de acrílico e uma batedeira que deve custar o preço do meu Fox 2005. No The Taste, a situação vai além, uma vez que é uma competição entre chefs, na qual o objetivo é, de fato, ser o melhor, custe o que custar. Para isso, uma chuva de ingredientes inacessíveis e impraticáveis para quem vive em condições normais numa metrópole brasileira em 2019, surgem como se fossem água.

 

Mas é o Perto do Fogo que desafia a paciência. Além de toda a pantomima do chef em sua descrição afetada das etapas e ingredientes, sempre dizendo que a receita está no aplicativo Nhac, do GNT, uma trilha sonora roqueira serve como acompanhamento. Gente como Jimi Hendrix, Lou Reed e grupos como Nirvana, Strokes, Bush, já tiveram suas canções sonorizando as façanhas de Bronze na brasa. Outro dia mesmo, ele estava preparando alguma refeição impossível ao som de “Vicious”, de Lou Reed. É uma canção que fala, claro, de heroína, morte e depressão, presente em seu disco “Transformer”, de 1972. Ontem ele fazia um sanduíche de pastrami curado por 10 dias, com picles de maxixe, ao som de “Machinehead”, sucesso noventista do Bush. A canção é sobre tudo, menos uma comilança gourmet-artesanal.

 

Certo que os significados da cultura e de seus produtos mudam com o tempo e a circunstâncias, mas, pelo amor, não. Parem.

 

Alguém pare o Felipe Bronze. Ou, como dirão os fãs do cara, alguém me pare. Ou não me leia. De qualquer forma, prefiro minha lasanha mequetrefe a qualquer comida dele. Porque cozinhar é, repito, um ato de amor.

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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