Sting contra Pinochet

 

Há exatos 46 anos, após o bombardeio e invasão do Palácio La Moneda, em Santiago, Chile, chegava ao fim o governo socialista de Salvador Allende. Ele foi um caso raro de político de esquerda que acreditava na via democrática (eleições) como meio de implantação da ideologia marxista no governo e no estado. Allende assumiu o poder em 1970 com o propósito de fazer a reforma agrária e nacionalizar bancos e indústrias, sobretudo as minas de cobre do país, maior riqueza chilena. Ele enfrentou grande oposição das multinacionais e de setores conservadores da sociedade do Chile, com estreita conexão com os Estados Unidos.

 

A ideia democrática de Allende estabelecia uma contradição, uma vez que permitia o pluripartidarismo e a oposição às suas ideias, tudo dentro do que previa a Constituição do país. Com o passar do tempo, os grupos de direita e os militares começaram a se organizar, principalmente em torno das empresas de mídia do país, totalmente sintonizadas com os Estados Unidos (qualquer semelhança não é mera coincidência, claro).

 

O governo de Richard Nixon, temeroso com a presença de Allende e o risco de uma “nova Cuba” no continente americano, designou agentes da CIA para infiltrarem-se no Chile e organizar as forças contrárias ao governo. O golpe veio em 11 de setembro de 1973, quando os militares, liderados pelo chefe das forças armadas, Augusto Pinochet, ordenaram o ataque ao palácio do governo, onde Allende resistia e tentava falar com a população pelo rádio em vão.

 

Há dúvidas se o presidente foi assassinado pelas tropas ou cometeu suicídio e Pinochet subiu ao poder inaugurando a mais sanguinária ditadura militar do continente americano até hoje, ordenando a morte e tortura de milhares de pessoas. Sob seu governo o Chile abraçou o nascente neoliberalismo e tornou-se um mero satélite de Washington, o que trouxe desigualdade e o aumento da pobreza no país, além de inúmeras privatizações. Pinochet deixou o governo em 1990 com 40% da população do país abaixo da linha da pobreza, mas continuou com cargo vitalício no senado chileno.

 

Sting gravou “They Dance Alone” em 1987, para seu disco “Nothing Like The Sun”. Sua inspiração veio de uma reportagem sobre as filhas, mães e esposas dos desaparecidos da ditadura chilena, que levavam retratos de seus pais, filhos e maridos para a porta do palácio de governo e dançavam com eles, como se as pessoas estivessem, de fato, ali. As informações sobre o ritmo característico dessa dança, a “cueca” chegaram até Sting, que acrescentou o “Cueca Solo” ao título da canção, que contém um trecho em espanhol. O álbum foi censurado no Chile e a música só foi ouvida lá no meio dos anos 90.

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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