Sondre Lerche – Patience

 

Gênero: Rock, pop

Duração: 47
Faixas: 12
Produção: Kato Ådland, Matias Tellez
Gravadora: PLZ

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

Alguns números da carreira do cantor e compositor norueguês Sondre Lerche: 38 anos de idade, 12 discos lançados, entre eles, duas trilhas sonoras e uma trajetória que começou em 2002, quando foi anunciado como uma das maiores revelações da música pop do milênio. Talvez você o conheça pelas canções que compôs para o filme “Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada”, estrelado por Steve Carrell e Juliette Binoche. Talvez você nunca tenha ouvido falar no sujeito, mas eu te asseguro: Lerche é um dos mais interessantes nomes da música mundial, seja por sua capacidade de atuar em vários estilos, seja pelo talento inegável que possui, seja como arranjador, seja como cantor/compositor. Este “Patience” vem mostrar para quem ainda poderia duvidar disso. E vem fazer você se dar conta do tanto que perdeu por não conhecer o rapaz. Até agora.

 

Sondre vem em uma constante criativa desde 2017, quando lançou um álbum em que revisitava ostensivamente o tecnopop dos anos 1980, algo que ele fazia pela primeira vez. “Pleasure”, o tal disco, era pródigo em ótimas canções e acabou gerando uma versão alternativa, “Pleasure Solo”, na qual Lerche rearranjou tudo para o formato voz/violão, possibilitando ao ouvinte ver e ouvir novas nuances nas velhas/novas versões. Com “Patience” ele, não só dá uma guinada de 180 graus em relação ao último trabalho, como reafirma o que seus primeiros álbuns insinuavam sobre ele: um artista múltiplo, capaz de ir de Prefab Sprout a Elvis Costello sem perder o rumo e misturando suas próprias características às inspirações. Só que este novo trabalho mostra que Sondre viveu um amadurecimento imenso como artista, possibilitando a ele fazer um disco com inúmeros detalhes de estúdio, seja na produção, seja nos arranjo, convidando o ouvinte para se deliciar com o banquete oferecido.

 

“Patience” tem vários momentos sensacionais. A diversão pode estar na beleza das próprias faixas ou nas ótimas sacadas de Lerche no estúdio. Por exemplo, “You Are Not Who I Thought I Was” tem uma levada pop oitentista, meio reggae, meio soul, com ótimas intervenções de bateria e guitarra, resultando numa lindeza ensolarada. “Are We Alone Now” é uma semi-balada, com teclados e órgão, abrindo espaço para Sondre fornecer uma de suas interpretações que tangenciam o Great American Songbook, mas com uma força rejuvenescida inegável. “That’s All There Is” é outra quase balada, lembrando algo que poderia ser de gente como Joe Jackson e outros ouvires do pop bem pensado e tocado.

 

“I Can’t See Myself Without You” é uma canção que orbita uma estrela próxima do soft rock setentista, com melodia bela e ótima performance vocal em meio a pianos, violões e tudo mais. “Don’t Waste Your Time” é uma dessas canções perfeitas, com teclados oitentistas emoldurando uma levada em midtempo, em que influências como Blue Nile, Prefab Sprout e outras bandas de sophistipop são mescladas. “Why Did I Write The Book Of Love” é uma bossa novíssima, com direito a bateria de aro, teclados, pianos, flautas e o máximo possível de malemolência que ocasião exige. Além de tudo, há uma citação discretíssima a “Samba do Avião”, que pode passar despercebida da maioria dos ouvintes.

 

“Patience” é um deleite para os ouvidos, um disco raro de se ver hoje em dia, pensado e construído para que as pessoas se percam dentro de suas faixas. Cada momento é uma surpresa, uma admiração diferente. Uma pequena mina de ouro.

 

Ouça primeiro: “Why Did I Write The Book Of Love”

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

2 comentários em “Sondre Lerche – Patience

  • 9 de junho de 2020 em 12:40
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    Maravilha, eu não tinha notado. Obrigado pelo toque. Este disco é para fãs do Prefab. 🙂

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  • 9 de junho de 2020 em 12:00
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    Belo review para um belissimo album. Sobre Don’t Waste Your Time e a conexão com Prefab Sprout, note que na metade da música, a letra menciona expressamente “horsin’ around”, uma das canções mais bacanas de Steve McQueen

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