Solange – When I Get Home

Gênero: Experimental, Eletrônico, Funk
Duração: 39 min.
Faixas: 19
Produção: Chassol, Dev Hynes, John Carroll, Kirby, John Key, Steve Lacy, Metro Boomin, Panda Bear, Pharrell Williams, Daniel Julez, J Smith, I Standing on the Corner, Earl Sweatshirt, Tyler the Creator, Jamire Williams
Gravadora: Columbia

4 out of 5 stars (4 / 5)

Dezenove faixas curtas, quinze produtores. Esta é Solange lançando o seu quarto disco sem avisar ninguém. Conhecida no ramo como a “irmã da Beyoncé” por quem insiste em vê-la como uma artista de segunda linha, a moça manda um recado bastante consistente com este novo trabalho: em troca da fama e dos holofotes olímpicos da fama, prefere experimentar com gente curiosa e crocante. Gosta do estúdio, gosta de soltar a mente e tem admiração confessa pelos anos 1970. Sendo assim, como não gostar dela? Além da simpatia e das intenções, Solange é, de fato, um talento a ser descoberto por uma maioria que ainda segue complacente com a mesmice.

“When I Get Home” é quase uma única canção de 39 minutos. Ou melhor, é um “clima” de 39 minutos, uma vez que a moça te convida a entrar na onda dela e de seu escrete de produtores em favor de uma atmosfera sonora em que flutuam batidas e ecos do R&B dos anos 90, teclados e citações dos anos 1980 e audácia e referências douradas dos anos 1970. Não dá pra não pensar nos momentos mais criativos de um Stevie Wonder, por exemplo, quando a gente dá de cara com as possibilidades exploradas e apresentadas por Solange ao longo das 19 peças deste caleidoscópio sonoro.

Não bastasse o arrojo da proposta, a moça também se cerca de gente talentosa, especialmente Dev Heynes, Metro Boomin, Pharrell Williams e Panda Bear, que nem é do ramo da black music, mas que, seja solo ou a bordo do Animal Collective, bate um bolão nas aclimatações psicodélicas para os novos tempos. Não espanta, portanto, que as colaborações de Solange com esses sujeitos sejam as melhores ao longo do álbum. Salta aos ouvidos a beleza ensolarada de “Stay Flo”, que, de fato, parece uma gravação que Stevie Wonder poderia colocar em seu experimental e genial álbum “Journey Through Secret Life Of Plants”, de 1979. “Almeda” é outro exemplo de canção leve e cheia de graça, com a assinatura de Pharrell Williams, mas sem qualquer sombra de seu revisionismo recente. É coisa com cara de 2019 mas com genética generosa de anos 1990.

“Sound Of Rain”, outra com Pharrell, tem DNA reggae sutilíssimo, diluido numa centrífuga de vozes, batidas e levadas, todas começando e terminando numa Jamaica ideal. E a assinatura sonora de Panda Bear pode ser conferida na simpática “Binz”, que tem vocalises e teclados característicos em menos de dois minutos de duração.

Solange se assume como uma artista sintonizada com a vanguarda da música negra americana, totalmente consciente de seu papel dentro da coisa toda e com ambição/potencial para cravar seu nome – no devido tempo – ao lado das grandes cantoras deste início de século 21. Uma lindeza.

Ouça primeiro: “Stay Flo”

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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