Novo álbum consolida Letrux no primeiro time

 

 

 

 

 

Letrux – Letrux Como Mulher Girafa
42′, 16 faixas
(Altafone)

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

 

 

 

 

Letícia Novaes é um mulherão da porra. Inteligentíssima, articulada, simpática, gente boa e extremamente talentosa, ela é uma espécie de porta-voz de uma intelectualidade carioquíssima e boêmia, que anda meio sumida da mídia. Atriz, astróloga e escritora, ela tem uma história como metade da Letuce, dupla que formou com seu então companheiro, Lucas Vasconcelos, sendo responsável por três álbuns, lançados entre 2009 e 2015. Como Letrux, ela e sua banda já realizaram outras três obras que ganharam vulto e dimensão artísticas amplas e justas: “Letrux em Noite de Climão” (2017), “Letrux Aos Prantos” (2020), e um adorável álbum de remixes no meio, “Letrux em Noite de Pistinha” (2019). Agora, em pleno pós-pandemia, Letrux retorna com um trabalho que marca uma nova fase em sua trajetória – “Letrux Como Mulher Girafa”. Ouvindo as dezesseis faixas do álbum, entre canções, vinhetas e brincadeiras, a gente tem a certeza de que há muito mais sendo dito do que supõe a vã filosofia.

 

 

Antes de mais nada, é preciso dizer que o disco é sensacional. A produção de João Brasil, com quem Letícia já teve uma banda num passado remoto, é precisa e diversificada. Além disso, oferece um som mais simples, mas nunca simplório, que emoldura com perfeição das considerações sobre o conceito que permeia o álbum: somos inegavelmente animalescos em muitos momentos da vida e isso é bom, visto que ser humano não foi algo totalmente bem sucedido. E mais, abrir-se aos impulsos animais nunca significa ser “irracional”, mas entrar em contato com sensibilidades e impressões que ficam suprimidas por conta do cotidiano opressor. Letrux contou que começou a compor as canções durante a pandemia, a partir de uma retirada estratégica que a levou a morar em São Pedro da Aldeia, na Região dos Lados fluminense. Uma vez lá, entrou em contato com a natureza de um jeito que ainda não havia feito e aproximou-se dessas noções e sentimentos. O álbum é o resultado dessas vivências, que se somam ao “jeito Letrux” de ser, algo que já é bem conhecido dos fãs, que são muito intensos e em grande número.

 

 

Impressiona bastante o resultado obtido ao longo das faixas do disco. Mesmo as vinhetas soam necessárias e fornecem, uma vez ouvidas na ordem estabelecida pela artista, um fio condutor muito bacana, que faz a diferença no final. Mas – e este é o grande barato – não é necessário obedecer esta ordem, uma vez que o álbum é pródigo em singles em potencial, uma vez que Letrux não abre mão – e até realça aqui – o seu elemento pop inatacável, soando sempre legal e inteligente. E os arranjos que a banda construiu vão do glam ao pop brasileiro dos anos 1980, passando pelos tiques e taques eletrônicos e por uma aura disco que é bem bacana. É o habitat de Letrux, a pista de dança existencial, onde ela chora, ri, sua e reflete sobre o significado da nossa existência, tudo de uma vez. Nada menos que sete canções presentes aqui são muito, muito boas. Vamos a elas. “Louva-Deusa” tem trechinhos em inglês e um arranjo com percussões pronunciadas, que surgem no meio de uma levada em midtempo, com destaque pros vocais afetados e ótimos.

 

 

“Formiga” é outra maravilha. Tem andamento lento, meio fúnebre, que evolui numa meio balada glam pianística, novamente com trechos da letra em inglês, recurso que funciona muito bem. Em “Zebra” a pegada já é dançante e cheia de pequenos detalhes eletrônicos que compõem bem o cenário. A participação de Lulu Santos declamando parte da letra é um contraponto sensacional. Lembra um pouco a fase eletrônica do próprio Lulu, direto do meio dos anos 1990 para cá. “Crocodilo” também vai por esse caminho, mas evoca alguns timbres do pop eletrônico oitentista. Já “Aranha” é um pequeno épico, com letra canto-falada que lembra um pouco do que Fausto Fawcett faria se estivesse no lugar de Letrux. O andamento sonoro tem até um pouco de balada clássica beatle. “Leões” é uma das canções mais arejadas e felizes que Letrux já compôs e gravou – o arranjo é puro pop nacional oitentista estilizado, com um resultado ótimo. O prêmio de melhor canção do álbum fica para “Teste Psicológico Animal”, que parece uma gravação das Frenéticas em seu bons momentos, mas devidamente convertida para a lógica Letruxiana com muito êxito.

 

 

“Letrux Como Mulher Girafa” é um disco digno da trajetória de Letícia Novaes e serve para sedimentar seu nome entre os grandes artistas brasileiros em atividade. Pop pensante, adorável, divertido, verdadeiro. O que mais podemos querer?

 

 

Ouça primeiro: “Leões”, “Teste Psicológico Animal”, “Crocodilo”, “Formiga”

 

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *