Rupi Kaur, Rayane Leão e a grande ordem das poetas que saem das redes pra nos salvar

 

 

Quando terminei de ler “Outros Jeitos de Usar a Boca” pensei  em dá-lo para uma conhecida de 19 anos que estava passando por um poucos e bons perrengues. Rupi Kaur, a autora do livro, indiana radicada no Canadá, saltou do seu Instagram de textos e desenhos autorais para as páginas de uma obra dividida em 4 partes: a dor,o amor,a ruptura e a cura. Em poemas curtos, ela transmite mensagens poderosas com poucas e bem postas palavras, do jeito que eu queria conseguir falar com aquela menina já enfrentando problemas que deixavam a sua juventude doer.

 

Faz tempo que não nos vemos e eu ainda lembro  do sorriso dela recitando um dos poemas mais bonitos do livro.

 

No começo desse ano comprei “Tudo Nela Brilha e Queima”, da brasileira Rayane Leão e novamente me senti impactada (confesso que até um pouco mais que com a escrita da Rupi) pelos textos que pareceram falar direto comigo. Poeta, professora, criadora do lindo projeto “Onde jazz meu coração”, com mais de 150.000 seguidores nas redes sociais, Rayane diz que começou a escrever por não se sentir representada pela literatura que a cercava. Com seu trabalho abraçou mulheres infinitas (a quem ela dedicou seu livro) de todas as vivências e idades.

 

Em maio desse ano eu e uma colega organizamos em nossa escola um Slam sobre diferentes formas de amor. Usei minha edição de “Tudo Nela Brilha e Queima” durante as aulas de preparação com a minha turma, um primeiro ano do Ensino Médio.

 

A dupla vencedora foi a que leu o livro com mais interesse e dedicação. O poema das minhas duas alunas, sobre relacionamento abusivo foi intenso e real, como a escrita da Rayane.

 

Há alguns dias outra aluna da mesma sala me mostrou que havia comprado o livro porque se emocionou com a forma que Rayane fala do que as mulheres sentem ou sentirão em algum momento da vida. Por fora dei um sorriso bom exemplo e por dentro me senti parte de uma pequena revolução literária.

 

Minha adolescência foi numa época em que não falávamos sobre nocivos padrões de beleza, relacionamentos violentos, famílias desestruturadas ou sexismo e apesar de todo o contexto desesperador em que vivemos atualmente dá esperança ver a literatura ajudar meninas e mulheres  a viverem suas emoções e seu gênero de uma forma sem tabus e questionadora.

 

Dos poderes do livro o da transformação é um dos que mais nos dão forças pra continuar. E isso só acontece quando somos tocados por eles.

 

Na esteira de “Outros Jeitos de Usar a Boca” e “Tudo Nela Brilha e Queima”, outras editoras, como a Leya, lançaram os livros da inglesa Amanda Lovelace como “A Princesa Salva a Si Mesmo Nesse Livro”. Um novo nicho de mercado? Talvez (só a própria Rupi vendeu mais de um milhão de cópias de “Outros Jeitos…”).

 

Se esse nicho ajuda a abrir corações inseguros para novas formas de se relacionar com o mundo, quem sou eu pra julgar? Apenas uma leitora e professora usando a única arma que conhece e quer para transformar a própria existência e a dessas meninas para quem eu só desejo um futuro lindo e empoderador.

 

Por enquanto ainda fico com a fé em dias melhores e leituras inspiradoras.

Debora Consíglio

Beatlemaniaca, viciada em canetas Stabillo e post-it é professora pra viver e escreve pra não enlouquecer. Desde pequena movida a livros,filmes e música,devota fiel da palavras. Se antes tinha vergonha das próprias ideias hoje não se limita,se espalha, se expressa.

Um comentário em “Rupi Kaur, Rayane Leão e a grande ordem das poetas que saem das redes pra nos salvar

  • 8 de novembro de 2019 em 14:46
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    Esta luta diária de disseminar a leitura como importante ferramenta de crescimento e libertação é uma que vale a pena. Você é dessas lutadoras. Mais um texto que plantou em mim desejos de leitura.

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