Rosalía mudou o meu dia (e todo o pop planetário)

 

 

Rosalía – MOTOMAMI

Gênero: Eletrônico, Pop

Duração: 42:25 min
Faixas: 16
Produção: Rosalía, Dylan Wiggins, El Guincho, Frank Dukes, Michael Uzowuru, Noah Goldstein, The Neptunes, Sir Dylan, Sky Rompiendo, Tainy, The Weeknd
Gravadora: Sony

5 out of 5 stars (5 / 5)

 

 

Vou contar pra vocês. Eu me organizei para fazer uma resenha simpática ao novo disco da inglesa Charli XCX, “Crash”, lançado na sexta-feira. Ouvi o álbum, anotei vários acertos, alguns poucos deslizes e já ia começar a escrever o texto quando pensei: “ora, enquanto eu vou rabiscando aqui, deixo rodando o “MOTOMAMI”, da Rosalía, para começar a pensar na resenha seguinte”. Pois bem. Ao final de “SAOKO”, primeira canção do álbum, eu já estava meio desnorteado e sem entender exatamente o que estava acontecendo. Já na segunda faixa, “CANDY”, tive a certeza de que algo muito especial havia acontecido. Parei de escrever sobre a Charli para me dedicar à audição do “MOTOMAMI” e não me dei conta quando ele acabou. Retornei, ouvi, reouvi, triouvi e confirmei: é um disco que muda totalmente o jogo do pop mundial. E, quando esse tipo de obra surge, todas as outras ficam imediatamente datadas e obsoletas. O que Rosalía fez mudou o meu dia e o pop planetário.

 

O mais encantador em “MOTOMAMI”, segundo álbum da catalã Rosalía como artista pop – ela tem um background com a música flamenca – é que ele não é um trabalho pop. Pelo contrário. Ele é um disco muito mais experimental do que parece e, no entanto, o resultado obtido é inegavelmente popular e se vale de elementos igualmente populares – funk, hip hop, eletrônica, música tradicional, jazz e um monte de outras coisas. Mas a abordagem, a disposição em misturar gêneros e amarrar tudo numa narrativa que explora a dualidade das interpretações femininas, tudo ao mesmo tempo agora, é, sim, coisa de gênio. Sendo assim, Rosalía conseguiu jogar Rihanna, Lady Gaga, Dua Lipa, Madonna, Beyonce, todas essas cantoras rappers tipo Cardi B, até as Anittas da vida, num balaio datado que, com muito boa vontade, envergaria uma etiqueta onde se lê 2011. Ou 2010. Ela jogou o pop planetário – que já era eletrônico e arrojado – numa dobra temporal reversa e o datou inegavelmente. Tudo bem que este formato pop hegemônico já carecia de ideias e novidades, mas Rosalía não teve qualquer piedade com ele.

 

E o que “MOTOMAMI” tem de tão especial? Em primeiro lugar, as misturas. Tem de tudo no disco. De ótimos samples a excelentes beats. Tem a aura latina, que é uma ótima pedida atual, mas que nunca havia soado tão moderna e independente do modelo americano, certamente pela origem catalã de Rosalía. O reggaeton que surge aqui e ali ao longo das faixas, soa diferente do que se ouve de artistas latino-americanos e isso, de alguma forma, faz uma diferença enorme. O uso da eletrônica é revolucionário e chega a evocar alguns caminhos insinuados por Bjork há alguns anos, mas que foram abandonados. Ou seja, é um pop esclarecido, experimental e quase antipop, mas que encanta e fascina a ponto de fazer esquecer o que existe à volta. A amplitude das misturas é tão grande que faz soar pequenos os modelos anglo-americanos de pop ou mesmo os eletro hip-hop vigentes. Tudo ficou desnecessário, irritante, presunçoso demais. Rosalía fez um downsizing estético nesses arroubos ególatras e escondeu-se atrás de uma máscara – na capa – e no estúdio, criando e processando um mundo novo, novíssimo.

 

De um total de 16 faixas, com 42 minutos de duração, “MOTOMAMI” se apresenta como um disco que deve ser ouvido integralmente, quase soando como uma espécie de suíte de intenções e possibilidades musicais. Mas, como se trata de um trabalho pop, é composto por faixas que se destacam. A já mencionada “SAOKO”, que abre os trabalhos, é uma porrada na cara do ouvinte que espera algo banal e inofensivo. Tem uma usina de batidas, alternâncias, timbres e o primeiro uso do termo “Mariposa”, que vai surgir em outras canções, como um modelo clássico de mulher que está em transformação. Daí para frente, o ouvinte faz suas próprias escolhas, mas dá pra destacar a colaboração com The Weeknd em “LA FAMA”, que soa como uma eletrocúmbia gravada embaixo d’água. “CHICKEN TERIYAKI” e “HENTAI” são outros exemplos de canções pop estruturais, mas que comportam turbilhões rítmicos e oscilações vertiginosas de estilos, enfiando hip hop, reggaeton, batidas e samples tudo numa centrífuga implacável. “DELIRIO DE GRANDEZA” recorda as origens hispânicas mais caribenhas, ao samplear – tal qual Moby fez com os blues em “Play”, de 1999 – trechos de um hit homônimo, gravado pelo crooner cubano Justo Betancourt, em 1968. E ainda tem as minhas duas preridas pessoais do álbum: “BIZCOCHITO”, que mistura uma batida em alta velocidade, coros femininos que mais parecem recitar uma canção infantil e uma dinâmica que parece árida e econômica e “CUUUUUuuuuuute”, que começa com vozerio indistinto e deságua num oceano de samples de batidas e tamborins. Tudo isso com vocais sexys e mais alusões dramáticas ao termo “Mariposa”.

 

“MOTOMAMI” não é um disco comum, pelo contrário. Poucas vezes ouvi algo que oferece tantas possibilidades em tão pouco tempo, de forma tão assumida e inevitável. Rosalía convida o ouvinte a abrir mão do que fez até agora e embarcar numa jornada segura a uma nova leva de padrões e definições. Vai ser difícil surgir algo tão audacioso, novo e encantador em 2022.

 

Ouça primeiro: todo o disco.

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *