Pretejô: Missa Criola celebra cultura preta com ineditismo e coletividade

 

Um show de comunhão, irmandade, alegria e inclusão. Assim pode ser definido o espetáculo Missa Criola, que estreia uma temporada virtual dia 02 de abril, às 20h, no YouTube. Devido à pandemia, a apresentação será gratuita e permanecerá disponível por tempo indeterminado.

 

Concebido pelo músico João Biano, Missa Criola tem seu nome inspirado na obra argentina Misa Criolla, de Ariel Ramirez, e vai homenagear, por meio de um repertório autoral, figuras importantes na afirmação do povo negro e na exaltação de sua beleza, talento e criatividade, como Elisa Lucinda, Mãe Menininha do Gantois, Johnny Alf e Lélia Gonzales.

 

Tudo foi ensaiado e gravado ao vivo e sem público no Teatro Firjan/Sesi, no Centro do  Rio de Janeiro, nos dias 25 e 26 de fevereiro, com todas as medidas de segurança. Em um repertorio que privilegia novos compositores além das canções do próprio Biano, encontram-se pérolas como Negro Mar, cantada em pretuguês, que enaltece a inserção afro brasileira na língua portuguesa.

 

Pretuguês é a forma como a ativista e escritora pioneira do feminismo negro Lélia Gonzalez definiu a forma de falar dos pretes, como diz Biano. Lélia foi uma das principais vozes brasileiras a denunciar o racismo e o sexismo no país, antecipando o que hoje chamamos de interseccionalidade. A análise da linguagem feita por Gonzalez fez com que ela cunhasse o termo pretuguês, que diz respeito às influências africanas na linguagem brasileira.

 

Construção coletiva como diferencial

“O projeto nasceu pra ter presença predominante de pretes. Partindo dessa ideia, comecei a pensar em quem seriam estas pessoas. Então busquei musicistas de linguagens distintas da minha, pois queria uma sonoridade diferente pra esse show. Como são músicas inéditas, quis criar um ineditismo também na interpretação e no mote principal. Deu muito mais que certo”, comemora Biano. “Estávamos há um ano sem pisar em um palco. Sem receber um afeto real. Imagina a hora que a pretaiada se reuniu? Pretejô!”, brinca.

 

Perguntado por este colunista como construiu a narrativa do show, Biano explica que os sons do povo negro fazem parte das raízes culturais do Brasil, profundas e que contam histórias de muitos. E ele está certo. “Muitos que construíram e constroem realidades baseadas no sonho de uma comunidade integrada, justa, igualitária e livre. E esta base só é possível por meio de ações de cunho educativo e da arte. Meu primeiro pensamento foi: preciso criar algo meu e parar de esperar por mais reconhecimento em trabalhos dos quais participo. O segundo pensamento foi: quero fazer um show sobre pretes. Música, figurino, cenografia etc. Quero falar exclusivamente sobre isso. Com essa estética e sabor. Aí, desenhando o projeto, percebi que jamais conseguiria fazer isso como João Biano, e sim com um coletivo. De pretes”, aponta.

 

Partindo daí, o show foi se desenvolvendo. As músicas nasceram a cada semana, às vezes até em menos tempo. “Assim nasceu Missa Criola, para celebrar a presença de todos os envolvidos. É como se fosse a nossa religião, mas o show não tem ideologia religiosa. É um espetáculo inclusivo e democrático, no qual todas as opiniões e ideias tiveram o mesmo peso e consideração. Não há chefe – melhor, todos somos chefes”.

 

União em prol do coletivo e da reafirmação

A peça que abre o show é um áudio em off de um capitão do Quilombo do Mato do Tição, também chamado de Matição, situado a cerca de 4 km da sede do município de Jaboticatubas, na região Metropolitana Belo Horizonte (MG). Além disso, conta com um samba funk chamado Xangô é São João Batista, do Adílio Nascimento, entre outras contribuições. Vale ouvir com os ouvidos atentos. “Assim, pudemos, com cada artista ali presente, criar, compartilhar e expandir o universo musical dos prestes, que vem se desenvolvendo com força na cena contemporânea musical. In black we trust!”, diz o autor.

 

Dirigido pelos multi-instrumentistas, Rach Araújo e Tiago Machado, Missa Criola é composto por 14 canções que farão paralelos entre o passado e o presente da comunidade preta, com a participação de dez musicistas, entre cantores e instrumentistas. “Acredito que a história aqui no Brasil precisa ser contada pelas pretas e pretos que a construíram com sangue, suor, inteligência, paciência, música, cultura, sabedoria e ancestralidade. Portanto, contaremos essa história com músicas inéditas e arranjos pensados especialmente para o espetáculo”, afirma Tiago Machado.

 

Os músicos do Missa Criola são Anselmo Salles (teclado/voz/vocais), Cida Santana (voz/vocais), Georgia Camara (bateria/percussão), João Biano (voz/ vocais/percussão), Joe Lima (baixo/percussão), Pedro Amparo (percussão geral), Rach Araujo (guitarra/percussão), Taís Feijão (voz/vocais/percussão/violão), Tiago Machado (violão/cavaquinho/percussão) e Will Freitas (voz/vocais).  O espetáculo é patrocinado pelo Governo Federal, Governo do Estado do Rio de Janeiro e Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Rio de Janeiro, por meio da Lei Aldir Blanc no edital Retomada Cultural RJ -2021. A foto que ilustra essa matéria é de Gabriella Maria.

 

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Celso Chagas

Celso Chagas é jornalista, compositor, fundador e vocalista do bloco carioca Desliga da Justiça, onde encarna, ha dez anos, o Coringa. Cria de Madureira, subúrbio carioca, influenciado pelo rock e pela black music, foi desaguar na folia de rua. Fã de poesia concreta e literatura marginal, é autor do EP Coração Vermelho, disponível nas plataformas digitais.

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