Paul Simon arrepiante em novo álbum ao vivo

Paul Simon – The Quiet Celebration Concert
113′, 17 faixas
(Sony)
(5 / 5)
Paul Simon é um gênio. Isso é ponto pacífico, não se discute. Dito isso, vamos fazer uma pequena retrospectiva de seus tempos recentes. Em 2018, Simon anunciou a aposentadoria dos palcos. Lançou um bom disco de autoreleituras, chamado “In The Blue Light” e encerrou sua turnê de despedida, “Homeward Bound Tour” com uma triunfante apresentação em sua vizinhança, o Queens, em Nova York. Daí veio a covid-19, o confinamento, problemas de audição e, à medida que o tempo passava, Simon compôs um disco sobre a mortalidade, “Seven Psalms”. Lançado em 2023, mostrava um homem meditando sobre a morte iminente e o que sobrara da vida àquela altura, aos 81 anos. Três anos depois, cá estamos, felizmente, falando de um novo álbum dele, e o melhor, de um álbum duplo ao vivo. Simon decidiu retornar aos palcos para apresentações pequenas, mas com sua banda novamente arregimentada e com uma missão dupla a cumprir: dar a “Seven Psalms” uma leitura ao vivo e tocar alguns de seus sucessos, outras faixas esquecidas e preferidas, para públicos pequenos. Daí nasceu este “The Quiet Celebration Concert”, realizado em Seattle, no qual Paul se apresenta com evidentes limitações vocais – agora ele tem 84 anos. Se esse detalhe tirou um pouco do viço de seu registro belíssimo, lhe conferiu um timbre que combina mais com boa parte de suas criações. É um disco comovente para dizer o mínimo.
Sobre “Seven Psalms” a gente publicou uma extensa crítica neste link aqui. Basicamente é um disco que aborda o transcorrer do tempo, não com a perspectiva usual, de fluxo, mas de algo que está próximo do fim. É um trabalho sombrio sob o ponto de vista, digamos, comercial ou do “entretenimento”, visto que fala de várias situações não tão alegres, mas é algo vital na obra de Paul Simon e acho que ele só será compreendido completamente quando Paul não estiver mais entre nós em sua forma física. É um testamento, algo que ele fez ambicionando transcender o próprio tempo, como se o desafiasse. Como quem diz: “Ok, vou morrer, mas essas canções, esse disco, irão ficar aqui muito depois de mim”. É a ambição de todo artista que se preze, ou deveria ser. A versão ao vivo apresentada aqui respeita o formato do álbum, ou seja, é uma peça única, de trinta e três minutos, que demanda total atenção do ouvinte. É interessante, importante, seu registro é válido, mas, para nós, ouvintes – uma perspectiva totalmente diferente da do artista – é, digamos, menos interessante que a fileira de quinze faixas que ele traz na segunda parte do disco. Elas funcionam como um “greatest hits” que só existe na cabeça do autor, uma impressão pessoal – talvez tão pessoal quanto “Seven Psalms” – de sua carreira e do que vale a pena dizer a esta altura.
É uma apresentação adorável, que foi totalmente preservada no registro ao vivo. Simon conta pequenas histórias antes das canções, explica algo sobre elas, resgata verdadeiros tesouros da canção pop americana do século 20 e as traz para o nosso momento, confrontando sua delicadeza e/ou beleza com a frieza e a violências mundanas atuais. A força das composições de quarenta, cinquenta, sessenta anos de idade mostra como elas … desafiam o tempo e se provam adequadas mesmo depois de tanto transcorrer. Simon começa esse percurso com a adorável “Graceland”, faixa-título de seu álbum de 1986, no qual ofereceu ao ouvinte uma preciosa fotografia da cultura sulafricana. Foi acusado de várias coisas, apropriação cultural, furar um boicote ao país, mas, assim como tudo relacionado com ele, o álbum prevalesceu e persiste. E deste registro sensacional vem outra faixa, essa menos lembrada – “Under African Skies”, composta, segundo a pequena história que precede sua execução, para o líder e fundador do grupo vocal Ladysmith Black Mambazo – que participou de “Graceland” – Joseph Shabalala. A versão ao vivo presente aqui tem a participação da esposa de Paul, a talentosíssima Edie Brickell.
Também temos a fofura de “Slip Sliding Away”, faixa que Simon escreveu em 1977 como companhia para uma compilação de sucessos. O verso: “Meu amor por você é tão forte que tenho medo de desaparecer” segue firme e forte no meio da melodia. “Homeward Bound”, do alto de seus incríveis sessenta anos, surge majestosa em meio ao repertório, enfocando o desbunde pré-hippie e a dureza de ser pensante em meio a um tempo tão turbulento e, por isso, talvez ter que voltar para casa. Do injustamente subestimado álbum “Hearts And Bones”, de 1983, vêm duas pérolas: “The Late Johnny Ace”, feita em homenagem a um cantor de r&b que morreu enquanto brincava com uma pistola após um show e a suprema, soberba, impenetrável “Rene And Georgette Magrite And Their Dog After The War”, feita por ele após ver uma foto do famoso pintor belga e sua esposa, com um pequeno cachorro no colo. A versão aqui tem a releitura de 2018 como base, mas a interpretação de Simon, com a voz de hoje, dá à história, que homenageia sua maior paixão musical, os grupos de doo-wop, um contorno ainda mais arrepiante. Do meio esquecido álbum “There Goes Ryhmin’ Simon”, de 1973, vem a linda “St.Judy’s Comet”, num arranjo parecido com o original.
De tempos mais recentes, vêm “Rewrite”, do belo “So Beautiful Or So What”, de 2010 e a comovente “Father And Daughter”, que Paul escreveu em 2002 para a trilha do filme “The Wild Thornberries” e reapareceu quatro anos depois, em “Surprise”, numa versão diferente, beneficiada pela produção de Brian Eno. De “The Rhytm Of The Saints”, de 1990, vêm duas belas canções: “Spirit Voices” e a esquecida “The Cool Cool River”, num ritmo próximo da versão original, ambas mostrando o quanto este álbum ia muito além da colaboração dele com o Olodum. Quando Simon se prepara para o fim do concerto, ele revisita com emoção aquela que deve ser sua canção mais identitária: “Me And Julio Down By The Schoolyard”, de seu primeiro álbum solo, lançado em 1971, mostrando suas reminiscências de infância com uma ótica surrealista e que soa comovente hoje. O verso “Goodbye Rosie, The Queen Of Corona, See me and Julio down by the schoolyard” tem o poder de levar o ouvinte para o tempo e lugar em que Simon posta sua narrativa. E “50 Ways To Leave Your Lover”, do álbum “Still Crazy After All These Years”, na qual ele conta sobre como o sensacional baterista Steve Gadd foi parar na gravação da faixa, de 1975, se tornando famoso pela introdução feita especialmente para a faixa. E, como se fosse um portal do tempo, Steve Gadd, 81 anos hoje, está presente para reproduzir a mesma introdução e recriar a canção no mesmo arranjo do original. E fechando os trabalhos, “The Boxer”, faixa de “Bridge Over Troubled Water” – álbum final de Simon com Art Garfunkel – e “The Sound Of Silence”, faixa-título do álbum da dupla de 1966, com o célebre verso de abertura, “Hello, darkness, my old friend”.
Claro, sempre existirá uma ou outra canção de Simon que a gente gostaria de ouvir. Eu, por exemplo, adoraria ver uma versão de “Duncan”, faixa obscura, mas linda, presente em seu álbum de estreia, mas é um detalhe ínfimo diante dessa celebração quieta que ele oferece aqui, com este disco. É um documento de alguém que tem o privilégio de transcender o tempo mesmo quando não está pensando nisso. E, quando pensa, o resultado é, de fato, atemporal.
Ouça primeiro: tudo.

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
