ArtigosDestaquinhoMúsica

Dois discos que atualizam a “library music”

 

 

O que diabos é “música de biblioteca”, tradução livre para “library music”? Você poderá perguntar. E pode até se confundir, visto que, na maioria esmagadora das vezes, as bibliotecas geralmente exigem silêncio absoluto de seus frequentadores. Pois bem, quando falamos de estilo musical, esse termo ganha um significado sensacional: entende-se por “música de biblioteca” a produção de temas para cinema, TV e rádio feita entre os anos 1950 e 1970, com uma intenção bastante curiosa – não ser ouvida. Parece estranho, mas é isso. A necessidade fez surgir toda essa produção. A TV, o rádio e o cinema precisavam de trilha sonora o tempo todo e não podiam pagar pra gravar uma orquestra ou licenciar um hit pra cada noticiário, comercial de margarina ou documentário sobre abelhas.Na esteira dessa demanda mercadológica, consolidada a partir dos anos 1960, surgiram gravadoras como KPM, Bruton, De Wolfe, Chappell, Sonoton – que contratavam músicos talentosos, muitas vezes os melhores músicos de sessão de Londres, por exemplo, pra compor e gravar discos inteiros, todos muito bem produzidos, que nunca iriam para as lojas. Nos Estados Unidos, a produção se concentrou em catálogos de gravadoras como Capitol e Valentino.

 

Esses álbuns eram prensados em vinil com capa genérica, etiquetados por “clima”: “Tense Drama”, “Light Comedy”, “Groovy Action”, “Pastoral Landscape”, “Industrial Underscore” e mandados de graça para produtoras de TV. Se a produtora usasse, pagava a licença depois. Era uma biblioteca de músicas – daí o nome. Como dissemos, eram músicos muito habilidosos. Na Inglaterra, quem gravava library music era gente como Alan Hawkshaw, Keith Mansfield, Brian Bennett do grupo The Shadows, John Cameron. Gente que tocaria mais tarde com David Bowie, Beatles, entre outros. Estamos falando, portanto, de música instrumental com uma qualidade altíssima, sem qualquer compromisso mercadológico. Era livre. Como não precisava haver um ou mais hits, os músicos experimentavam muito. Dessa condição surgiram espécimes de funk espacial, esquisito; prog-jazz com mellotron; bossa com bateria fragmentada; aquele sintetizador estranho. Tudo que o rap usaria vinte anos depois via sampler. Quando o hip-hop e a música eletrônica começaram a garimpar vinil, descobriram que os discos de library music eram verdadeiras minas de ouro, porque ninguém conhecia formalmente, mas havia um sentimento de familiaridade. Artistas como J Dilla, Madlib, Avalanches, Boards of Canada, entre outros, tiraram muita coisa dali.

 

Hoje a library music virou gênero. Há selos reeditando esses discos antigos e artistas novos, compondo no estilo “library” – aquele instrumental cinematográfico, elegante, que serve pra tudo e ao mesmo tempo não serve pra nada comercial. Dentro desse contexto, escolhermos dois discos sensacionais para apresentar o estilo nessa sua abordagem contemporânea que, é bom que se diga, joga longe essa coisa de “música que não é pra ser ouvida”. Suas obras são irresistíveis, pegam o ouvinte pelo colarinho e o obrigam a prestar muita atenção. Na verdade, não dá para dizer que “Acess All Areas”, dos australianos do Karate Boogaloo e “Glera”, do compositor ítalo-americano Marco Benevento, seriam dois álbuns “puros” de “library music”. O que eles fazem é pegar o conceito, o clima e o pendor das possibilidades da música pop instrumental e adaptar para seus respectivos contextos. Benevento tem o desejo mais próximo do espírito diverso da “library music”, fazendo um disco multifacetado. O quarteto de Melbourne, por sua vez, puxa a brasa para o lado do funk, colocando o ouvinte como se estivesse numa trilha sonora de filme policial feito para a televisão circa 1976/77. Para quem viveu a época – eu nasci em julho de 1970 – é uma verdadeira brincadeira de gato e rato, na base do “isso me é familiar” ou “tenho certeza que já ouvi essa levada em algum lugar”. Para o pessoal que começou a ouvir música depois, é um universo que se desvela.

 

 

 

 

 

Marco Benevento – Glera
39′, 14 faixas
(Big Crown)

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

 

 

 

Em “Glera”, seu novo álbum, Benevento, que é tecladista de mão cheia – sem trocadilhos – amarra um fiapo de conceito para conduzir as ações. Batiza o disco com o nome da uva que é usada na fabricação do Prosecco para emular uma espécie de “greatests hits” de canções saídas de trilhas sonoras de filmes italianos obscuros. Filmes que nunca existiram, é bom que se diga. Para isso, ele convocou duas cantoras da Velha Bota – Marianne Mirage e Chiara Civello – mais alguns músicos de muito talento, entre elas, Molly Lewis, especialista em … assovios e fez um álbum que, caso fosse encontrado num bacião de sebo de discos com uma etiqueta de “library music” estampada na casa, ninguém notaria que se trata de um trabalho lançado em 2026. A ambiência é perfeita, a oscilação de estilos, mesmo dentro desse limite cinematográfico italiano, é imensa e é possível perceber o quão talentoso Benevento é nos arranjos. Dentro dessa premissa de variedade, ele vai longe nas apropriações.

 

“Frizzante”, que abre o álbum, é uma dessas canções que a gente jura que já ouviu, mas não. Com Marianne Mirage ele vai no drama operístico de “Turandot”, com um instrumental solene, perfeitamente reconhecível, com letra em italiano intenso, mas que lembra um Stereolab do mundo invertido, triste e dramático. Com Chiara ele, já no fim do álbum, mergulha num tom meio bossanovístico de outro mundo, com vocais quase sussurrados e flocos de guitarra com pedais caindo aqui e ali. Parece uma mistura de Portishead e Air, despidos da eletrônica, com integrantes italianos. E ainda tem lindezas como “I Can’t Control The Bliss”, com Dream Crease, projeto da americana Marina Aguirre, com tons que misturam pop setentista com efeitos de videogame. Molly Lewis dá seu fantasmagórico assovio em “Zio Tony”, que poderia ser de uma trilha de western spaghetti, mas não é. E “Catoni”, com o 13th Ward Social Club, projeto do americano Justin Catoni, é mais uma dessas gravações que misturam jazz e pop, em andamentos que vêm e vão. Coisa linda e tem menos de dois minutos de duração. Quem lança é a sensacional gravadora Big Crown.

 

 

 

 

 

 

 

Karate Boogaloo – Acess All Areas
42′, 11 faixas
(Colemine Records)

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

 

 

 

Já os australianos do Karate Boogaloo têm essa vontade de colocar o ouvinte numa trilha sonora de filme policial feito para a TV, daqueles bem clichês, mas que sempre tinham alguma música sensacional, que ficava na mente depois que o longa acabava. Formado em Melbourne por Henry Jenkins, Hudson Whitlock, Callum Riley e Darvid Thor, o KB tem essa pegada de banda instrumental de jazz-funk calcada em órgão. Ao longo das onze faixas desse “Access All Areas”, seu terceiro álbum de inéditas numa carreira que também tem outros três volumes de versões e apropriações de material alheio, o grupo mostra um talento impressionante. O forte está nos arranjos, todos emulando com perfeição as várias variáveis do funk instrumental da virada dos anos 1960/70. Tem muito de Meters e de Booker T And The MGs, mas com um inegável apelo contemporâneo, urbano e bem informado. Dá pra fizer que o órgão Hammond de Riley conduz as faixas e lidera as abordagens sonoras, o que não significa, por exemplo, sobrepujar a lindeza das guitarras e o diálogo constante de baixo e bateria.

 

Em faixas como a de abertura, “Butterfly”, por exemplo, ao mesmo tempo em que há riffs de guitarra cheios de soul e essa cozinha funk pulsante, o órgão surge etéreo, quase de ficção científica. E quando adentramos o terreno do jazz funk, a festa começa logo na segunda faixa, “Hooks, Lines And Sinker”, propulsionada por um riff percussivo de órgão, que conduz tudo e todos. Em “Tremendous Fantastic”, logo após, o clima já vai para o soul funk de FM, com ambiências que nos colocam naquele lugar do “isso me é familiar”, com uma ótima sensação. Já em “wet Day Timetable”, enquanto o órgão vai percorrendo um caminho tristonho – nunca depressivo – a guitarra de Darvid Thor vai ladeando e adornando sua passagem, num ótimo efeito de simbiosa. “Small Business” vai nesse mesmo tom, mas numa abordagem minimalista, com espaços e silêncios, em meio a uma levada bem lenta. Mas o tom reinante é de sol de verão. “Ballroom Blitz”, “Booger’s Bounce Of Joy”, “AAA”, “Down Home”, além das citadas acima, tudo é lindo, borbulhante e deliciosamente familiar. O álbum saiu pela Colemine Records de Ohio, hoje uma das maiores referências do soul moderno.

 

Tanto “Glera” quanto “Access All Areas” são discos que se sustentam por si, mas, estabelecer essa linha com a library music dá a eles mais significado. Repito – não são obras “puras” do estilo, mas trabalhos que desafiam o que ele tinha de fugidio e ressignifica para um mundo em que a atenção é disputada a ferro e fogo. Ouçam, conheçam, passem pra frente.

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *