Os 30 anos de SLA Radical Dance Disco Club

 

 

 

No fim dos anos 1980, não havia nada mais moderno que a dança. Mexer o corpo sempre foi sinal de modernidade, mas, naquele tempo, significava olhar para o mundo como uma bolota azul e branca que era capaz de ouvir as influências musicais popular de uma forma mais, digamos, viável do que antes. Ecos antecipados da tal globalização vinham de todas as partes, as comunidades periféricas dos dois hemisférios clamavam por atenção, uma vez que já produziam seus sons há tempos. E eles mudaram, de adaptaram, se misturaram e geraram novas/novíssimas formas de expressão. Neste contexto, o rock já não era capaz de dar conta da necessidade de inclusão de tanta gente diferente. O adolescente da Nigéria não era igual ao adolescente de Londres, pode ter certeza. Mas ambos pertenciam a um contexto maior, que se insinuava em abertura inédita. E Fernanda Abreu conseguiu captar isso tudo e colocou em seu álbum de estreia, “SLA Radical Dance Disco Club”, que fez 30 anos em março.

 

Se olharmos para a produção musical brasileira na época, “SLA” é uma das poucas provas de que olhávamos para fora das fronteiras com alguma capacidade de absorção de influências musicais. Esta sempre foi uma questão espinhosa para a cultura nacional que imagina se bastar. Ao longo do século 20, vários levantes tentaram conscientizar as elites de que estamos no mundo, não o contrário. Com isso, a Semana de Arte Moderna e a Tropicália foram momentos em que houve gente disposta a quebrar com essa burrice nacionalista limitadora. Até porque o Brasil é uma nação da diáspora negra, influenciada por negros de várias origens dentro do mundo pós-colonial. Sendo assim, o samba, o xaxado, o maxixe e demais ritmos nacionais já eram híbridos e “internacionais” muito antes de tudo. E, assim como eles, a black music, que informou e deu combustível para os bailes dos anos 1970 e se transformou na década seguinte. Sendo assim, disco music, house music, funk e “batidão” eram partes da mesma equação onde estavam o hip-hop, rap, música eletrônica.

 

As paradas de sucesso brasileiras eram a negação disso. Exceto por um único grupo – Paralamas do Sucesso – os artistas nacionais estavam inseridos no rock. Quem não estava, das duas, uma: era lambadeiro ou se tornaria sertanejo collorido em muito breve. Fora das paradas, nas periferias, uma cena de rap paulistano se estruturava, captando o que vinha de fora e adaptando à sua realidade. E, no Rio, o pessoal dos bailes e equipes de som, herdeiros do Black Rio, lidavam com a evolução da própria música negra americana, procurando acompanhar. Ou seja, o Brasil não tinha uma manifestação musical para um “grande público informado” que desse conta desse ambiente em mutação. Alguém que soubesse que Neneh Cherry, Madonna e James Brown faziam parte da mesma ala. Que Soul II Soul e Gerson King Combo coexistiam. Que Michael Jackson e Fausto Fawcett podiam conversar sem problema. Fernanda era essa pessoa.

 

Egressa da Blitz, rostinho/corpinho bonito na mídia, ela rejeito ofertas para ser intérprete porque tinha o que dizer e sabia como fazer. Cercada de gente que também sabia, Fernanda queria fazer um disco para dançar, de música pop devidamente conectada com o que era feito no mundo naquele tempo, mas com a noção de que havia uma linha temporal, uma evolução. Para a produção, ela chamou Herbert Vianna, um cara que já provara ser antenado para além do rock, especialmente em “Selvagem?” e “Bora Bora”, discos dos Paralamas que são marcos da modernidade da música nacional constante, justo pela capacidade de se comunicarem além dos limites pré-existentes. Com ele veio também Fábio Fonseca, que havia tocado com o Brylho e assaltado as paradas oitentistas com “Não Me Iluda”, single de sua banda Cinema À Dois. Pouco depois disso, ele participou de outro disco dançante e conectado com a linha evolutiva da música – “Ed Motta e Conexão Japeri” – do qual ele compôs o maior hit: “Manuel”. Além deles, Fausto Fawcett, que havia lançado um disco com uma musicalidade muito próxima do rap, dois anos antes. Esse quarteto foi responsável pela revolução que veio em seguida.

 

Com a bênção do diretor artístico da EMI, Jorge Davidson, Fernanda passou um mês no estúdio, no início de 1990, gravando as canções. São dez faixas, duas delas, covers: “Kung-Fu Fighting” (Carl Douglas) e “Got To Be Real”, de Cheryl Lynn, que tornou-se “Luxo Pesado”, em versão para o português da própria Fernanda e de Fausto Fawcett. Os originais são casos à parte. “A Noite”, single que anunciou o álbum, é uma cacetada cheia de barulhinhos, uma espécie de programa dançante da madrugada, no qual o programador vai emendando músicas como “Good Times”, “Palco”, “Into The Groove’, “Don’t Stop Til Get Enough” (não por acaso, todas estas fornecem samples para a abertura de “A Noite”). Ela funciona como uma câmera de descompressão para o ouvinte ter a certeza de que não vai entrar um disco de rock ou de nada que não seja música pop bem feita, de matriz negra, pronta para ser entendida, decodificada e dançada.

 

Logo em seguida em a faixa-título, que já exibe os samples de “Buffalo Stance”, de Neneh Cherry como fio condutor, enquanto pega emprestada linha de baixo disco e refrão pop infeccioso, cheio de gritos de James Brown e o “you can dance”, da Madonna. Faz sentido. Mas a dança mesmo tem suas nuances. Não dá pra dizer que “Kamikazes do Amor” e “Você Pra Mim”, duas faixas com letra e música de Fernanda, são hits para a pista. A segunda, uma balada com arranjo Soul II Soul e sample de Barry White em “Just The Way You Are”, é uma das suas gravações mais belas. Sua letra é perfeita, declarada, assumidamente romântica. Já “Space Sound To Dance” é uma cacetada de outra dimensão, com baixo impressionante, batida tecno, teclados que poderiam ser de Bernie Worrell, uma lindeza. “Speed Racer”, de Herbert Vianna, é arrepiante faixa cinematográfica que emula riff de “For The Love Of The Money”, dos O’Jays, enquanto o próprio Herbert turbina o corpo da canção com guitarra chorosa ao longe. É possível ver o Rio de Janeiro chuvoso nos versos. “Venus Cat People” é de autoria de Fausto Fawcett e, bem a seu estilo, traz um rap/rock/pop bem azeitado e fala sobre a descoberta de uma estátua feminina datada de 30 mil anos atrás, na qual a letra viaja nos detalhes do corpo da mulher primitiva que a inspirou. Dá pra ouvir a ótima guitarra de Laufer ao longo da canção e a citação de “Miss You”, faixa “disco” dos Rolling Stones.

 

“Disco Club 2 (Melô do Radical)” é importantíssima. Nela Fernanda faz o primeiro aceno de uma artista do mainstream nacional, conectada com uma certa “nobreza”, ao universo das melôs, das montagens e do underground funk/charme carioca. Com participação de DJ Marlboro na produção e composição, esta é uma pequena faixa histórica que mostra o quão informada e ciente do contexto estava Fernanda. Fechando o disco, as duas covers de sucessos disco mostraram que os bailes dos anos 1970 haviam se transformado nos bailes dos anos 1980 e que essa lógica tendia a ser constante. Ainda bem.

 

“SLA” vendeu, segundo a Wikipedia, cerca de 260 mil cópias, um número bom para um álbum de estreia, com uma proposta arrojada. Ele abriu o caminho para a carreira de Fernanda Abreu se consolidar e expandir, algo que seria notado longo no sucessor, “SLA 2 – Be Sample” (1992) e especialmente em “Da Lata” (1995), no qual Fernanda foi adicionando mais e mais ritmos nacionais na mistura. Ao longo dos anos 1990 ela ficou devendo, talvez, um disco de música eletrônica ainda mais radical, totalmente devedor da cena dançante inglesa, talvez. Em vez disso, aprofundou sua conexão com a funk music nacional e o pop. Até hoje, Fernanda é referência em música para dançar e uma olhada para sua estreia vai sempre dar a ela uma posição na história desse gênero na mirrada capacidade nacional de olhar para fora de seus limites, para dentro de suas verdades. Uma obra prima.

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

4 thoughts on “Os 30 anos de SLA Radical Dance Disco Club

  • 9 de abril de 2020 em 14:15
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    Carlos, este foi o primeiro disco brasileiro de música dançante que gostei. Tinha 30 anos na época e tocava direto em todas as reuniões festivas que eu ia (e eram muitas…). Obrigado pela lembrança!

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    • 9 de abril de 2020 em 17:22
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      É um discaço. Histórico.

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  • 8 de abril de 2020 em 10:28
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    Brilhante texto sobre o icônico e precursor primeiro disco da Garota Sangue Bom.

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    • 8 de abril de 2020 em 10:42
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      Obrigado, Jefferson! Este disco é sensacional e importantíssimo.

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