Os 30 anos de “Goo”

 

 

É engraçado notar que “Goo”, o sétimo disco do Sonic Youth, completa trinta inacreditáveis anos. Digo isso porque, de alguma forma, o álbum ainda é extremamente moderno em minha mente, mesmo que o rock que ele preconizou, já não exista formalmente. Não há um movimento, uma tendência, uma banda ou algo que tenha inspiração direta no que o quarteto novaiorquino fez aqui. Na verdade, a influência que o Sonic Youth teve no som alternativo noventista começou a ser construída bem antes do lançamento de “Goo”. Talvez neste disco, o Sonic tenha percebido que podia participar da corrida sonora dos anos 1990 com certo protagonismo nas próprias paradas de sucesso, indo muito além da sua posição de “banda que os músicos ouvem”. A sonoridade quase inacessível de outrora já vinha passando por um processo de lenta e calma desconstrução, abrindo espaço para traços e vestígios de estruturas convencionais de rock e pop, entre aspas. Em “Goo” o Sonic Youth saiu do pedestal de conceitos e estéticas e mergulhou a cara na poeira das ruas. E se deu bem.

 

Claro que Kim Gordon, Thurston Moore, Lee Ranaldo e Steve Shelley não desejavam ser cultuados como inspiradores ou algo assim. Eles eram uma banda de rock, das melhores de seu tempo, influenciada pelo punk, por Neil Young, por modernismo, por vanguarda, por um monte de coisas que iam além da música. Quando soltaram seu quinto disco, “Sister”, em 1987, foi possível notar que havia habilidade de composição e ourivesaria pop sob as toneladas de distorções e microfonias. O sucessor, “Daydream Nation”, de 1988, confirmou a tendência e já trazia um épico para as novas gerações, “Teenage Riot”, que sintetizava quase tudo que havia sido feito na década de 1980, soando terrivelmente noventista desde já. Sabemos que os marcos temporais não são nada se comparados com os eventos, sendo assim, tanto o Pixies com “Surfer Rosa” e “Doolittle” (de 1987 e 1988 respectivamente), como o Sonic Youth com “Daydream…” já estavam na nova década. Sendo assim, “Goo” foi a confirmação deste fato, a lapidação desta capacidade de soar barulhento e trazer oculta, de vez em quando, uma joia pop sob as camadas de ruídos.

 

Claro, o Sonic Youth chegava numa realidade em que já havia Nirvana, Alice In Chains, Soundgarden, entre outros, se posicionando para lançar a síntese perfeita de melodia e esporro, algo que coube ao trio de Kurt Cobain fazer com “Nevermind”, em 1991. Ali estava um monte de DNA do Sonic Youth deste fim de anos 1980, junto com outras coisas. Era o que se esperava, o entrelace de esporro e melodia, de barulho e silêncio, tudo isso sob a égide de uma noção alternativa, no sentido literal de ‘não-mercadológico’, de ‘complicado’, de ‘para poucos’. Só que isso não era mais possível, o público adolescente e jovem estava ávido por uma trilha sonora que mostrasse seu destino diferente do que seus pais faziam, que houvesse uma chance de viver uma vida alternativa ou uma alternativa de vida que não passasse pelo que viam naquele final de década de 1980, na qual os Estados Unidos se tornaram um dos polos globais de difusão do neoliberalismo.

 

“Goo” faz isso com maestria, oferecendo espécimes mutantes e delicadamente estranhos. A base espontânea vinha de duas canções de “Daydream Nation”, a saber, a já citada “Teenage Riot” e a ótima “The Sprawl”. Essas duas traziam o Sonic Youth em verdadeiras corridas de guitarras, em melodias rápidas e pontuadas pelo diálogo de Moore e Ranaldo, enquanto alguém recita ou canta toscamente as palavras. O efeito é sensacional e pra lá de adequado, sendo aperfeiçoado em favor da objetividade em “Dirty Boots”, faixa que abre “Goo” com uma declaração de intenções estampada na testa, a de ser assumidamente alternativa e fácil ao mesmo tempo. O conceito é ampliado com a belíssima “Tunic (Song For Karen)”, dedicada a Karen Carpenter, banda de cuja canção “Superstar”, o Sonic Youth se apropriaria num tributo vindouro.

 

Depois chega a maravilha que é “Kool Thing”, com direito a participação de Chuck D, do Public Enemy, dialogando com Kim ao longo da letra. E vem muito mais, seja em peças curtas e rápidas – “Mildred Pierce”, “My Friend Goo” – seja e momentos longos e formatados, “Disappear” (que poderia estar numa trilha sonora alternativa de “Arquivo X”), “Cinderella’s Big Score” ou mesmo na faixa mais conectada com o passado distante do Sonic Youth, “Tuff Boyz”.

 

“Goo” abriu caminho para este Sonic pop, que daria as caras ainda mais doce em “Dirty”, trabalho seguinte, de 1992, para depois voltar a um formato mais experimental e hermético, nos ´albuns seguintes. Mesmo assim, esta fase acessível do grupo também foi seu ápice como agente/paciente de uma sonoridade enguitarrada e cheia de referências impressionantes, que serviu de norte para muita coisa boa que se fez naquele tempo. E já se vão trinta anos disso tudo.

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

Um comentário em “Os 30 anos de “Goo”

  • 1 de julho de 2020 em 00:22
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    Embora não seja o disco com as músicas que eu mais goste, pra mim é o melhor porque começa bem e termina ainda mais forte, na pessoa da desgraceira com nome em francês “Titanium Exposè”. Que disco – e que capa!

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