The Rentals – Q36

 

 

Gênero: Rock alternativo

Duração: 68 min.
Faixas: 16
Produção: Dave Friedman
Gravadora: The Rentals

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

Os fãs de longa/longuíssima data do Weezer hão de lembrar de Matt Sharp. O sujeito que fundou a banda junto com Rivers Cuomo, responsável por uma ponta saudável de ousadia e “arte” que o grupo tinha no seu início, lá entre o “Blue Album” e o Pinkerton”, seus dois primeiros trabalhos. Também o sujeito que saiu da banda logo após este segundo álbum para montar seu projeto pessoal, The Rentals. Pois bem, desde meados dos anos 1990, Sharp só lançou quatro discos, contando com este acachapante “Q36”, ou seja, o cara tem uma regularidade pra lá de peculiar e talvez tenha demorado demais para engatar numa carreira, mas, a julgar pelo fato de ter soltado o trabalho anterior há “apenas” seis anos, talvez a banda esteja se formatando de um jeito mais comum. O fato é que, especulações à parte, Sharp conseguiu fazer um disco impressionante, conceitual, longo, cheio de nuances, algo que o Weezer daquele tempo e, muito menos o atual, teria condições de elaborar. Senão vejamos.

 

Este “Q36” tem um conceito: é um álbum sobre ficção científica, viagens espaciais e coisas do gênero. Legal que Sharp tenha voltado suas atenções para o tema, que ficou meio esquecido diante do futuro utópico que nunca chegou a acontecer, nos deixando chafurdados num lamaçal distópico. Sendo assim, é pra lá de saudável que The Rentals entre neste terreno, usando como referência sonora uma mistura de insinuações que mais parecem saídas dos melhores momentos espaciais de Bowie com as criações que o próprio Sharp esboçou no curto tempo de Weezer. Ao contrário do que fez o Arctic Monkeys em seu último disco – Tranquility Base and Casino – no qual também flertou com o espaço sideral vintage, Matt Sharp arremete para um novo futuro, com certo otimismo e muito bem informado. A coisa aqui está mais para “Interestellar” do que para um episódio da série clássica de “Star Trek”.

 

A grandiosidade do disco impressiona. É um álbum duplo, com dezesseis canções que não abrem mão da formatação pop, ou seja, não há momentos inacessíveis e nem instrumental que impeça o ouvinte de curtir e acompanhar letra e melodia. Sharp se mostrou como um ourives pop tardio e isso está presente por todos os cantos de “Q36”. E são muitos os momentos surpreendentes. A abertura, com “Shake Your Diamonds”, tem efeitos vocais e bateria grandiosa, cheia de timbres, sons e adições, criando uma atmosfera de expectativa e certeza de que entraremos num mundo de surpresas e emoções. “Nowhere Girl”, logo em seguida, pega estrutura popíssima para forjar uma canção inesquecível e totalmente grudenta, com teclados e efeitos épicos, uma espécie de “Bowie de bolso” mas com algo que lembra o que o Weezer poderia ter sido mas nunca foi. “9th Configuration” já pisa no freio e surge como uma balada épica e arrepiante, com quase seis minutos de duração, cheia de crescendos e belezas impossíveis.

 

Esta trinca inicial coloca o ouvinte na posição ideal para apreciar o banquete que The Rentals está por oferecer. “Teen Beat Cosmonaut” tem psicodelia pop e nuances diversas, “Above This Broken World” tem melancolia de estação espacial e ruídos subespaciais captados na antena parabólica da Discovery de 2001. “Forgotten Astronaut” tem timbres glam e bateria tecnopop clássica, entrecortando com momentos de silêncio e diminuição. “Conspiracy” é fofa, “Breaking And Breaking And Breaking” é mais um espécime de spacepop inesperado, com hibridismo de rock eletrônico oitentista, enquanto “Another World” tem melodia weezeriana mas se mantem num tom baixo e delicado, contido. O épico de encerramento tem o sensacional título de “Elon Musk Is Making Me Sad” e é outra canção a ter traços nítidos de semelhança com algo que poderia ser criado pelo Weezer se este fosse uma banda que optasse pelo experimentalismo e pelo abraço aos aspectos mais grandiosos do pop noventista.

 

O maior elogio que este “Q36” poderia receber é de que ele jamais poderia ser feito pelo Weezer depois de 1996. E, mais ainda: ele nem se parece tanto quanto a velha banda de Matt Sharp que prova ser um artista livre de sombras eventuais de um passado que nunca aconteceu. Bravo.

 

Ouça primeiro: “Nowhere Girl”

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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