Onze Baladões do Oasis

 

 

Teve muita gente ixperta comparando a derrota do Manchester City para o Chelsea à reedição da celeuma Oasis x Blur dos anos 1990. Lembram? A velha disputa entre os sujeitos toscos, vindos de fora de Londres, criados na adversidade e na dureza contra os rapazes inteligentes e esclarecidos, oriundos das escolas de arte. O fato é que, sim, o City – que acabou derrotado pelo Chelsea – é totalmente identificado com o Oasis, a tal ponto de haver um contingente razoável de torcedores brasileiros do clube mancuniano por conta disso. Você deve conhecer o perfil: quarentão, descolado, citando conquistas do time azul celeste sem muito conhecimento de causa, mas com paixão sincera. Sim, tem.

 

O fato é que o Oasis e o Blur são as bandas que ficaram na mente das pessoas quando o assunto é britpop (aguarde para logo um textinho sobre a data de validade do termo e das bandas). Ambas encerraram atividades e talvez tenham deixado saudades, que são vinculadas muito mais à época que as conteve do que pela capacidade das canções e dos discos terem, vejamos, envelhecido bem. De fato, seja pelas carreiras solo de Noel e Liam Gallagher ou pela existência do Gorillaz e dos diversos projetos de Damon Albarn, tanto Blur quanto Oasis seriam limites auto-impostos a esses caras, mas Liam Gallagher é um entusiasta da ideia, constantemente pedindo isso nas redes sociais. Damon já reativou o Blur nos últimos anos, especialmente para atender à nostalgia que gira em torno da banda, tendo, inclusive, gravado um bom álbum de inéditas em 2015, “The Magic Whip”.

 

Por enquanto deixaremos o Blur de lado e mergulharemos numa habilidade muito evidente na lavra de canções dos irmãos Gallagher: as baladas. Sempre achei que a boa fluência na feitura de melodias e arranjos lentos era um sinal inequívoco de talento e, justiça seja feita, o Oasis tem isso de sobra. Se a banda era uma espécie de tributo ambulante a vários ícones britânicos do passado, certamente levava em conta essa beleza que é oferecer uma boa canção mais lenta, mais detalhada, menos propícia à pulação indistinta. Levando em conta o cânon dos Gallagher, não há uma incidência de “babinhas”, mas destas canções mais lentas, mais cinematográficas, desde o início de sua trajetória. Sendo assim, como uma espécie de tapinha nas costas dos torcedores do City – aqui e lá –  escalo aqui onze momentos em que essa capacidade de Liam e Noel atingiu a majestade.

 

 

 

11 – Half The World Away (1994) – um dos maravilhosos lados-B do Oasis em início de carreira. Eu era figurinha fácil na gloriosa Spider, lojinha em Ipanema, que dispunha de vários dos singles que a banda lançava, contendo gravações ao vivo e pequenas belezuras como esta. Uma canção com muita verve pop e uma reverência enorme ao clássico rock britânico setentista. Apareceu primeiro na coletânea “The Masterplan”, que compilou alguns desses lados-B.

 

10 – Whatever (1994) – esta é uma “canção de estimação” dos fãs do Oasis. Gravada nas mesmas sessões de “Definitely Maybe”, o primeiro álbum do grupo, “Whatever” só saiu em single e adquiriu status de mito em pouco tempo. Tem cordas, tem aquela impressão de que sua melodia é de alguma canção dos Beatles mas é só o Oasis desabrochando. Destaque na Macacos de 1996, se bem me lembro.

 

9 – Cast No Shadow (1995) – canção escondida no segundo álbum da banda, “(What’s The Story) Morning Glory”, que foi alçado ao estrelato por “Wonderwall” e “Don’t Look Back In Anger”. Esta é uma beleza com a marca principal do grupo em seus primórdios: bateria lenta, harmonia e melodia a cargo de Noel e a tal habilidade pop presente.

 

8 – All Around The World (1997) – single do ótimo terceiro álbum, “Be Here Now”, meu preferido pessoal. É um disco enorme, pretensioso e megalômano e só um trabalho assim poderia conter uma faixa com quase dez minutos de duração. “All Around…” é uma balada mas também é apoteótica e altamente devedora de inflexões beatle. Lindeza.

 

7 – Little By Little (2002) – esta canção é uma pequena pérola incrustada no ótimo quinto disco do Oasis, “Heathen Chemistry”. Noel canta a melodia tristíssima e o arranjo sugere que ele está cantando sob nevoeiro, sob a água ou sob alguma barreira natural que coloca sua voz soterrada. A impressão é desfeita no refrão, que explode calmamente. Uma beleza esquecida.

 

 

6 – Let There Be Love (2005) – última faixa do sexto álbum, “Don’t Believe The Truth”, que muita gente nem ouviu, mas que é muito, muito bonito. É mais uma canção com vocais de Noel e melodia que mistura um pouco a ambiência beatle presente em discos como “Abbey Road” ou “Let It Be”, com uma melancolia quase palpável. Outra beleza esquecida/escondida.

 

 

5 – I’m Outta Time (2008) – pouca gente prestou atenção devida ao último disco do Oasis, “Dig Out Your Soul” e, por conta disso, perdeu outro bom trabalho dos Gallagher, ainda que inferior aos dois álbuns anteriores. A impressão que se tem ao ouvir esta canção é de que Liam Gallagher – autor e cantor – chegou ao máximo que poderia de emular John Lennon. A tal ponto que tudo aqui é sincero e bem parecido com o que o ex-beatle fez em alguns momentos de sua carreira solo. Ela foi o segundo single deste que seria o último trabalho do Oasis.

 

 

4 – Champagne Supernova (1995) – um dos momentos mais psicodélicos da carreira da banda, fecho do seu segundo disco e uma das canções mais belas da década de 1990. Ousada, contemplativa e, mérito maior, diferente do que a banda havia feito até então. A dimensão de balada que o Oasis arranha aqui é bem distinta e peculiar, talvez jamais repetida em qualquer gravação posterior.

 

 

3 – Who Feels Love? (2000) – uma das ótimas gravações do controverso “Standing On The Shoulder Of Giants”, o quarto disco do grupo, que marcou a entrada de Andy Bell e Gem Archer e que levou o Oasis para um outro lugar. Esta é uma faixa extremamente psicodélica, bem aos moldes do que a imprensa achava que era o Oasis copiando algum timbre perdido de “Sgt. Peppers”. O fato é que os vocais de Liam estão no ponto e o arranjo é cheio de barulhinhos, tablas e esquisitices sensacionais.

 

 

2 – Stop Crying Your Heart Out (2002) – single arrasador de “Heathen Chemistry”, uma das canções mais belas da banda e outro momento em que Noel se mostra um baita compositor e melodista. O arranjo dá a impressão de que a gravação foi feita em algum ambiente árido, tamanho o clima de desolação que ela passa. Uma beleza superlativa dentro do cânon da banda.

 

 

1 – Stand By Me (1997) – não só o momento máximo do Oasis como baladeiro mas como banda. Tudo é perfeito aqui: os vocais de Liam, a melodia de Noel, o arranjo que vai inserindo cordas e detalhes aqui e ali, tudo a favor do mito e do maior uso possível de recursos de estúdio e a semeadura de easter eggs aqui e ali. É canção pra se entoar depois que chegar ao topo do mundo.

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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