O Van Morrison do grupo do Whatsapp

 

 

Van Morrison – Latest Record Project, vol.1

Gênero: Rock, blues, jazz

Duração: 128 min.
Faixas: 28
Produção: Van Morrison
Gravadora: Sony

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Devo ter mais de 30 discos de Van Morrison em minha coleção. Desde que li uma resenha de “Astral Weeks” numa Bizz do passado e, pouco depois, o adquiri, o cantor e compositor norte-irlandês se transformou num dos meus heróis musicais de todos os tempos. Sua mistura de rock, jazz e blues, com tinturas soul, poesia celta e uma série de outras referências, o tornaram um dos artistas mais interessantes ao longo dos tempos e sua longevidade – Van tem 75 anos e segue firme – só ajuda a manter o mito. Além disso, o homem é prolífico, lança novos e ótimos trabalhos com frequência, mantendo intacta sua voz característica depois de tanto tempo em atividade. Enfim, este disco duplo, “Latest Record Project, vol.1”, deveria ser uma ocasião a ser celebrada, certo? Deveria se Van não tivesse se erguido em 2020 como uma das vozes mais fortes contra as medidas de isolamento adotadas para conter o avanço da covid-19.

 

É uma pena. Digo isso porque o álbum mantém as características que Van tem exibido nestes últimos anos. Assessorado por uma banda incrível e com disposição de sobra, ele tristemente encarnou uma persona tipicamente reacionária, afetada por teorias da conspiração que o colocam na mesma posição daquele seu tio-avô do grupo de Whatsapp. Em 2020, Van destilou falas contra o distanciamento, o uso de máscara e o lockdown, dizendo que este – adotado seriamente no Reino Unido no fim do ano passado – era desastroso para os músicos porque inviabilizava os shows ao vivo. Van não fez qualquer questão de ser discreto, pelo contrário. Usou a visibilidade na mídia – entre outras coisas, ele é Sir – para manifestar seu ponto de vista que, tristemente, foi comungado por caras como Eric Clapton e Ian Brown, líder dos Stone Roses, todos anti-lockdown e certos de que o governo britânico e a mídia, além das redes sociais, estão unidas numa conspiração para controlar o pensamento das pessoas sobre a covid-19.

 

Lamento dizer, mas, tal postura afeta, sim, a perspectiva artística da obra de um artista, especialmente de um gigante como Van Morrison. Não deixa de ser chocante que alguém com tanta rodagem tenha mantido esta visão de mundo oculta de seu público ou, melhor dizendo, que a tenha camuflado tão bem. Quero – e preciso – acreditar que tais perspectivas só tenham se desenvolvido na terceira idade, ou algo assim. De qualquer maneira, por mais que a postura do homem seja terrível, não dá pra invalidar completamente este novo álbum. Ele tem várias canções belas e dá pra salvar algumas do desastre, caso seja possível adotar uma postura muito condescendente com Van, algo que, talvez por tantos serviços prestados à música, ele mereça.

 

Sendo assim, mesmo que “Western Man” seja quase um libelo anti-imigração, “Where Have All The Rebels Gone” seja um equivocado chamado a “músicos de verdade” para limpar a música feita nos últimos anos; que “Deadbeat Saturday Night” seja um libelo anti-lockdown; que “The Own The Media” pareça roubada de uma conversa no grupo da família no Whatsapp; a faixa-título seja mambembe de tão frouxa ou que “Why Are You On The Facebook?” seja mais teoria da conspiração, aliada à automática desqualificação de quem está nas redes sociais, canções como “A Few Bars Early”, “Thank God For The Blues”, “Double Agent”, “Love Should Come With A Warning” e algumas outras, são boas o bastante para dar uma estrelinha vermelha a mais para o disco.

 

Apenas os fãs mais maníacos serão capazes de curtir este disco sem a preocupação das temáticas conspiratórias que Van aborda aqui. Mas, talvez por outro lado, a imperfeição e as fraquezas de um artistas – humano, afinal de contas – lhe dê traços fascinantes para quem estiver disposto a encarar. No meu caso, a decepção foi maior, mas não o bastante para negar toda a importância que a música de Van Morrison tem para mim. Mas que é triste, isso é.

 

Ouça primeiro “Love Should Come With A Warning”

+1

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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