Para o Carlos Eduardo, com um abraço do Chico Buarque

 

Há alguns dias o cantor e compositor Chico Buarque foi agraciado com o Prêmio Camões, por conta do conjunto de sua obra como escritor. Tal fato deu início a várias manifestações de apoio e ataque, uma vez que Chico é uma das figuras mais identificadas com a esquerda brasileira. Sua obra é indissociável deste fato. Chico Buarque não pode ser compreendido como um artista desvinculado desta visão de mundo, na qual a defesa das liberdades de pensamento e expressão dão a tônica para outras posturas, dentre as quais, o alinhamento com as políticas de combate à desigualdade social, especialmente as implementadas pelos governos petistas de Lula e Dilma. Portanto, quando Chico é premiado internacionalmente, o efeito é similar ao reconhecimento que o próprio Lula recebe de políticos e intelectuais de outros países. O resultado é: confronto de opiniões e polarização.

 

Num país como o nosso, num tempo como o atual, é impossível não polarizar. Mesmo que a obra de Chico tenha influências de autores como Bertold Brecht ou Shakespeare – e isto seja absolutamente normal em qualquer artistas – torna-se motivo de demérito por parte dos opositores e conservadores e razão de defesa e relativização por parte dos progressistas e assim a coisa vai. O que não se discute é a importância de um autor como Chico Buarque hoje. Ontem. Provavelmente sempre. Suas letras – mais do que seus livros – são, via de regra, as mais rebuscadas e impactantes disponíveis na música brasileira dos últimos 100 anos. Sua capacidade de opinar sobre o cotidiano convertendo sua óbvia erudição em pensamentos palpáveis é admirável e quase única. Só consigo lembrar de gente como Aldir Blanc no mesmo nível, mas com uma produção em menor escala.

 

Quase conheci Chico Buarque pessoalmente. Meu tio-avô Paulo Sérgio, o mais jovem entre seus irmãos – e o único civil e comunista – era amigo do Chico. Amigo das bebedeiras em Ipanema, nos tempos idos dos anos 1970. Funcionário da Caixa Econômica, meu tio-avô – que a gente chamava de Tio Paulinho – era alcoólatra e lutava para vencer o vício da bebida. Vivia numa luta constante contra os irmãos mais velhos, todos generais, compactuados com a repressão militar dos anos de chumbo. Meu avô, que era um coronel da Aeronáutica, mais ou menos moderado, era um dos poucos contatos mantidos na família. De vez em quando, Tio Paulinho ia lá em casa e sempre falava do Chico. Um dia, chegou lá com um LP de presente para mim: o disco vermelho de 1984, que tem “Vai Passar” e “Pelas Tabelas”. Ele vinha com um envelope de papel, daqueles que as lojas antigas usavam para embalar os discos pra presente, vermelho como a capa, com os escritos: “Para o Carlos Eduardo, com um abraço do Chico Buarque”.

 

Na época fiquei radiante, mas não dei o devido valor que daria, digamos, hoje, agora. um autógrafo do Chico! Imagina só. Pois o tempo se encarregou de levar aquele LP e o envelope de papel de presente embora. Nunca mais o vi, apesar de achar que aquele álbum do Chico, de 1984, seja um dos melhores de sua carreira. Aliás, o Chico Buarque sempre esteve presente na minha vida. Em 1990 eu o vi no Canecão, tocando as músicas que estavam em seu álbum ao vivo “Le Zenith”, excursão que fazia na época pela Europa. Antes disso, mais ou menos no mesmo tempo do disco de capa vermelha, vi “Ópera do Malandro”. de Ruy Guerra, no Cine Leblon ser aplaudido de pé, eu incluído. No dia seguinte eu comprei a trilha do filme, que tinha duas músicas que ouvi demais nesta vida: “A Volta do Malandro” e a soberba “Sentimental”, na voz de Zizi Possi, cujos versos “desmantelem no cais, os navios de guerra, eu não fui feliz/paralisem no céu, todos os aviões, é urgente, eu não fui feliz”…

 

Anos depois, já na Uerj, ouvi “Futuros Amantes”, do disco “Paratodos” e escrevi um conto de ficção científica, no qual humanos remanescentes de uma Terra destruída, vivendo amontoados em Marte, voltavam em expedições para as ruínas do nosso planeta, com o intuito de estudar os hábitos dos antigos, sendo o Rio submerso uma espécie de sítio arqueológico de um casal de exploradores, que descobre a história de amor da música e se inspira para resolver uma crise conjugal pela qual passavam.

 

Minha mãe adorava o Chico. Minha avô, meu avô, todos. Minha mulher. Meu enteado. Como pode alguém duvidar da importância ou da relevância do Chico Buarque, meu Deus?

 

Num tempo de burrice como justificativa para o absurdo, num tempo em que o pior do Brasil, historicamente comprovado, está no poder e tentando desmantelar as poucas chances de termos novos Chicos, é necessário ouvir o homem e tê-lo, sim, como um exemplo de artista, de cidadão.

 

O que eu lamento mesmo é não ter mais este autógrafo…

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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