O pior disco do Queen (não é o “Hot Space”)

 

 

Juro que tive a ideia para este texto sem ter em mente que hoje, dia de sua postagem, 05 de setembro, seria a data de aniversário de Freddie Mercury. Ele faria 74 anos, certamente ainda com fôlego para causar e gravar com ou sem o Queen. Enquanto esteve vivo, Freddie foi um dos mais carismáticos e competentes showmen do mundo do rock, com capacidade para entreter e encantar plateias em todos os cantos do planeta. Sua banda teve uma carreira exemplar, gravou discos diversificados, mudou de pele, incorporou elementos e ofereceu canções que se tornaram integrantes das trilhas sonoras de milhões de pessoas. Mesmo dotado de um número enorme de fãs, o Queen sempre padeceu de um patrulhamento anti-pop por parte deles. A partir de 1980, o grupo, John Deacon, Roger Taylor, Brian May e Freddie, resolveu incorporar elementos que não eram exclusivos do rock. Ouvidos mais atentos já notariam isso desde 1975/76, quando o quarteto lançou “A Night At The Opera” e “A Day At The Races”, dois trabalhos que revelavam outras influências no som praticado pelo Queen. Mas foi quando riffs de funk e incursões pela música eletrônica dos anos 1980 surgiram que os fãs torceram o nariz. Uma bobagem, convenhamos.

 

O fato é que o senso comum definiu um álbum para levar o título de “pior trabalho do Queen”: “Hot Space”, de 1982. Lembro de ler sobre isso durante muito tempo e nunca ter concordado inteiramente com esta afirmação. A meu ver, a trilha sonora para o filme “Flash Gordon”, apesar de sua contagiante faixa-título, leva este título desde sempre, mas, parece que tal consenso a excluía da votação, justo por não ser um álbum típico de carreira. Sendo assim, fã que sou do Queen, resolvi atualizar esta discussão e, propondo alguns parâmetros, determinar, finalmente, qual seria o pior trabalho do grupo em estúdio. E adianto tais regrinhas:

 

– Não vale disco ao vivo.

– Não vale disco póstumo, o que excluiu “Made In Heaven” e qualquer lançamento
posterior, seja com Paul Rodgers ou Adam Lambert.

– Não vale, claro, coletânea

 

Desta forma, de posse desses limites, proponho que nomeemos outro pior trabalho: “The
Miracle”, lançado em 1989. Este álbum, está numa categoria de péssimos discos, junto com “Queen” (o primeiro, de 1973) e o próprio “Hot Space” (1982). O que leva “The Miracle” a ficar com o título é o nível das composições e a sonoridade, que não engata no pop e não mergulha no rock, mostrando um Queen menos corajoso e inspirado que nos três discos anteriores, nos quais o pop é incorporado com muito mais talento, a saber, “A Kind Of Magic” (1986), “The Works” (1984) e o próprio “Hot Space”, que, definitivamente se livra deste estigma.

 

“The Miracle” já é ruim pela capa. A montagem que mescla os rostos dos quatro integrantes sempre foi de péssimo gosto. Ainda que o álbum contenha um hit praticamente planetário, “I Want It All”, temos que admitir que esta não é lá uma das canções mais inspiradas do grupo. Certo, é grudenta como chiclete, mas sua estrutura é banal e ressoa a glórias do passado, como “Hammer To Fall” ou mesmo “We Will Rock You”. Mas foi com “Breakthru” que o disco foi apresentado, num clipe que trazia a banda a bordo de um vagão de trem em alta velocidade. É mais uma das canções contagiantes, com baixo eletrônico e bateria banalizante e melodia que lembra “The Boys Of Summer”, de Don Henley às vezes.

 

Em alguns momentos o Queen mergulha fundo nos timbres eletrônicos da época. Na faixa-título, por exemplo, em que Freddie passeia por um arranjo épico, que mistura teclados e orquestra, de forma bem banal. Ou em “Rain Must Fall”, que parece uma tentativa da banda em escrever a sua própria “Domino Dancing”, sucesso dos Pet Shop Boys na época. Mas é justamente esta a melhor gravação de “The Miracle”, na qual a banda investe sobre as sonoridades pop de forma desavergonhada, com batidas eletrônicas, sintetizadores e um dos melhores solos de Brian May nos anos 1980. É, claro, um pequeno tesouro escondido e ignorado por fãs mais renhidos. E é difícil imaginar esta gente achando as tentativas de músicas pesadonas – “Khashoggi’s Ship,” “Was It All Worth It” e a própria “I Want It All” – dignas de figurar no melhor do grupo. A produção de David Richards, que já havia trabalhado com Freddie em seu disco “Barcelona”, do ano anterior, e assinado a pilotagem de estúdio para “Never Let Me Down”, o inquestionável pior disco da carreira de David Bowie, só fornece um resultado sem qualquer peso, punch ou relevância.

 

“The Miracle” é um disco sem qualquer sombra de alma ou identidade. Ele não tem a pungência que seu sucessor, “Innuendo”, de 1991, carregou, justo por ser o derradeiro trabalho com Freddie, muito menos a ousadia popster de “Hot Space”, que meteu o grupo nas timbragens eletrônicas, no funk – com a ótima e rejeitada “Cool Cat” – e com faixas como “Body Heat”, que já anunciavam a saída do armário de Freddie para o público da banda. Sem falar no colosso que era “Under Pressure”, o dueto com David Bowie, que é um dos maiores hits da história do Queen.

 

É isso, gente. A Suderj informa: na disputa pelo título de pior disco do Queen, “sai ‘Hot Space’ e entra ‘The Miracle’. E tenho dito.

 

1+

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *