O Dia Mundial do Rock é uma Bobagem

 

 

Está chegando o “dia mundial do rock”. É 13 de julho, uma data que, apesar de levar o “mundial” no nome, só é considerada – e comemorada – aqui, no Brasil. E qual o motivo? Há 34 anos, acontecia, neste mesmo dia, o Live Aid, concerto promovido por Bob Geldof para captar recursos – e chamar atenção – para a fome em vários países da África. Era uma coroação dos esforços iniciados no fim de 1984, materializados no single “Do they Know It’s Christmas”, do Band-Aid e no disco “We Are The World”, do USA For Africa. O Live Aid movimento várias bandas em dois shows simultâneos, em Londres e na Filadélfia. Phil Collins teria dito, nos bastidores, que este era o dia mundial do rock. Por algum motivo estranho, pegou. Aqui. E ainda hoje é motivo para uma celebração de mesmice e burrice que não combinam com o rock. Ou não deveriam combinar.

 

É uma espécie de consenso que o rock envelheceu mal. Talvez fosse melhor dizer que o fãs de rock envelheceram pior e que não foram capazes de entender o significado do estilo que tanto dizem amar. O rock é sobre mudança, igualdade, ataque ao sistema que oprime a maioria, derrubar os ricos do poder, contestar, cutucar, incomodar. Não é preciso uma inteligência lapidar para perceber que o rock não faz isso há, pelo menos, uns 30 anos, certo? Talvez o último espasmo dessa capacidade de gerar incômodo tenha vindo através de algo relacionado ao Nirvana e seu sucesso mundial, via “Nevermind”, seu segundo disco. Não por acaso, Kurt Cobain, seu guitarrista, cantor e cérebro, se matou, talvez por não suportar as cobranças e os caminhos impostos pelo sucesso e pela grana, ambos sinais inequívocos da assimilação empreendida pelo tal do sistema. Compromissos, entrevistas, prazos, concessões, nada disso combinava com Cobain, um cara que desejava tudo, menos se tornar um milionário americano médio. Deu no que deu. A cada ano, quando vejo o 13 de julho se aproximando, sinto urticária e lamento a tradução feita desta data pelo senso comum.

 

O tal dia mundial do rock tem mais a ver com rádios rock. Apesar do nome, que conjura o meio de comunicação eficiente por excelência e o estilo contestador, significa, em linhas gerais…atraso. É a celebração daquelas pessoas que entendem o rock como um looping, como algo que foi capaz de gerar os sucessos mais manjados. É uma celebração de “Smoke On The Water” (Deep Purple), “Tom Sawyer” (Rush) e, sei lá, “Que País é Esse”, cantada não pela Legião Urbana, mas pelo Capital Inicial. É o santo altar onde uma horda de acéfalos vai rezar para que “Give It Away”, “Jeremy” e “Wonderwall” se mantenham impávidas e capazes de lançar seu manto rock sobre os pobres seres humanos. É a celebração da mais tacanha e absoluta mesmice. O rock enquanto repetição, o rock enquanto algo que não comporta a novidade, como algo que, em pleno 2019, vive se glórias – questionáveis – alcançadas há décadas. Gente, isso é tudo, menos rock. Radio rock é tudo, menos rock.

 

Em primeiro lugar, é preciso dizer que o rock sempre esteve em movimento. Ele não parou com os discos noventistas do Red Hot Chili Peppers ou Faith No More. Ele vive nos acordes das composições de bandas como Fontaines D.C, por exemplo. Cê conhece? É uma formação de Dublin, Irlanda, que faz os Strokes (outros ignorados pela lógica do rock) parecerem portadores de Alzheimer. O rock existe hoje. Há uma variedade imensa. Tem bandas, artistas solo, um monte de mulheres sensacionais fazendo milagres como três acordes, gente talentosa vindo da Austrália, da Holanda, da Dinamarca, isso sem falar na maravilha das novas levas de Estados Unidos e, especialmente, Inglaterra. Sua rádio rock nunca vai tocar esse tipo de música, o que vai te fazer pensar que o rock, sim, parou lá no meio dos anos 1990. E você vai se tornar um ignorante conservador, adotando a mesma postura que o seu pai tinha quando você começou a ouvir … rock. É curioso, né?

 

A novidade é essencial para o rock. Ela não está na cronologia, apesar de ser essencial saber o que acontece hoje no mundo. Ouvir as bandas dos anos 1990 – e só ela – é como ler o noticiário daquele tempo e achar que está atualizado. Você pode gostar mais de uma época na música, o que é perfeitamente normal, porém, precisa conhecer mais para poder ter certeza disso. O essencial é não deixar um bando de gente burra te dizer o que ouvir e sentenciar o seu gosto – algo importantíssimo para a sua vida, seu caráter – a uma planilha vinculada a jabás de gravadoras e outros expedientes lamentáveis. O rock de 2019 tem a ver com psicodelia, eletrônica, do it yourself, gravadoras independentes, letras angustiadas sobre o momento que o mundo atravessa, a dureza da desigualdade no mundo, se você for olhar, vai ver um monte de coisas que nem imagina.

 

E mais: a atual produção nacional de rock no mainstream é ruim. Você precisa cavar para encontrar suas bandas e artistas preferidos. Até acho que você deveria, caso queira algo realmente que bata de frente contra o sistema, mergulhar no hip hop. Mas, se você precisa de guitarras e referências roqueiras, vá ouvir bandas como Terno Rei, My Magical Glowing Lens, Boogarins, Garotas Suecas, Facção Caipira, Carne Doce, entre várias outras das quais você nunca ouviu falar. Há veteranos mandando bem também, caso de Dead Fish e Pato Fu, mas vá conhecer coisas novas. Nem que seja para ter certeza que você quer ouvir as velhas. Só de fazer esse exercício, você vai perceber o quanto de diversidade tem por aí.

 

Com sorte, você vai perceber que este dia mundial do rock, tal e qual existe hoje, num país conservador e injusto como o nosso, só serve para alimentar a máquina que produz espertalhões em série e engana otários úteis. Não seja um deles.

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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