Erasmo Carlos: 13 músicas, duas versões e 80 anos

 

 

Assim como o “seu amigo” Roberto Carlos, Erasmo Esteves chega ao seu 80º aniversário. É uma carreira tão importante quanto a de seu parceiro, ainda que esteja muito atrás em termos de badalação, exposição e visibilidade. Mesmo que Erasmo tenha o reconhecimento merecido – que só chegou há pouco tempo – ele sempre será o parceiro de Roberto. Sua trajetória é equivalente à de RC, seja em número de álbuns belos, seja de influência do tempo transcorrido sobre suas obras – discos e canções. É possível cravar que a década de 1970 foi o ápice criativo de ambos, e que os trabalhos de Erasmo neste período ficaram tempo demais fora do radar dos formadores de opinião. Foram esquecidos e precisaram de relembranças e ressignificações de todos os tipos, criando hypes e distorções como, por exemplo, em torno de seu disco de 1971, “Carlos,Erasmo”, que está longe de ser seu melhor momento solo.

 

 

Nos anos 1980/90, assim como Roberto, Erasmo vagou pelo limbo da predominância do rock ou pela popularização simplória da música. Precisou de colaborações de Renato Russo e Marisa Monte em diferentes discos para ser meio redescoberto por um novo público – o mesmo do hype. Mas, ao contrário de Roberto, o Tremendão nunca parou de produzir trabalhos inéditos. Continuou compondo, se apresentando, se arriscando. Foram registros ao vivo, colaborações, versões, enfim, uma carreira em movimento.

 

 

Nada mais justo que celebrar estes 80 anos com uma das nossas gloriosas listas de 13 canções perfeitas, com alguma explicação sentimental/embasada para que vocês possam conhecer e se aventurar no cânon erasmiano. A satisfação é garantida, pois, é bom que se diga, Erasmo é um dos melhores letristas do pop nacional em todos os tempos. Algumas das escolhas abaixo refletem isso. Vamos ver?

 

 

 

13 – Pega Na Mentira (1981) – a sucessão de absurdos contidos na letra desta canção é uma prova inequívoca de genialidade. Eles vão do futebol “Zico tá no Vasco com Pelé”, passando pela política “acabou-se a inflação” e beira a crítica social “vi Papai Noel numa favela”. Erasmo adentrava a década de 1981 com um grande, enorme hit radiofônico. Do disco “Mulher”.

 

12 – Sou Uma Criança Não Entendo Nada (1974) – Erasmo tem algumas canções em que retrata a dificuldade em lidar com a vida adulta, as responsabilidades e a consequente perplexidade que nos assalta quando viramos a marca dos 30 anos. Esta é uma delas, irônica e na medida certa, com um arranjo de rockão clássico setentista. Do disco “Projeto Salvaterra – 1990”.

 

11 – Turma da Tijuca (1984) – Belezinha oitentista e revisionista, na qual Erasmo enfileira eventos e pessoas que habitam o seu passado/inconsciente numa Tijuca que segue com bondes nas ruas, letreiros de cinema adulterados e grupos de jovens descobrindo o mundo. Do disco “Buraco Negro”, de 1984.

 

10 – Mulher (1981) – faixa-título do álbum de 1981, declaração de amor explícita à esposa Narinha e uma das letras mais inspiradas de toda a carreira de Erasmo. Até hoje é um dos maiores clássicos de seu repertório. Merecidamente.

 

 

9 – Sentado à Beira do Caminho (1980) – o original é lindíssimo, certamente um dos maiores sucessos da carreira de Erasmo, mas minha preferência vai para este emocionante dueto com Roberto Carlos, registrado em “Erasmo Carlos Convida”, de 1980. Lembro do clipe passando no Fantástico e até hoje eu uso o trecho “um pobre resto de esperança à beira de uma estrada” quando quero me definir como miserável emocionalmente. Música é isso, gente.

 

8 – Cachaça Mecânica (1974) – outra faixa do disco “Projeto Salvaterra – 1990”, que é chamada de “A Construção do Erasmo” porque tem a letra complexa, que segue fazendo uma análise do carnaval como válvula de escape do cidadão comum empobrecido. Uma amostra inegável do talento de letrista de Erasmo. Nota sentimental: havia um compacto desta canção lá em casa, não tenho ideia de como ele chegou lá, não imagino ninguém da minha família ouvindo esta música, mas eu, com cinco anos, amava.

 

 

 

7 – Minha Fama de Mau (1965) – clássico machistinha da Jovem Guarda, é a epítome da figura de Erasmo em início de carreira, o Tremendão, o machucador de corações, o durão que tem um coração. Admitamos: era eficiente e, via de regra, rendia ótimas canções. Não por acaso, ela deu o título ao livro do cantor/compositor e sua versão cinematográfica.

 

 

6 – Mesmo Que Seja Eu (1982) – faixa dilacerante do álbum “Amar Pra Viver ou Morrer de Amor”, talvez um dos momentos mais pop da carreira de Erasmo já dialogando com o idioma do nascente rock nacional daquela década, com boa produção e bom domínio de timbres eletrônicos de estúdio. Ganhou uma versão matadora de Marina Lima e segue como uma das mais belas canções de amor que Erasmo já compôs.

 

 

 

5 – Além do Horizonte (1980) – a versão que Erasmo e Tim Maia gravaram em “Erasmo Carlos Convida” é um dos registros mais importantes das carreiras de ambos. A participação da Banda Vitória Régia nos arranjos de metais e teclados, a letra sem os limites do original de Roberto Carlos e a substituição do clima de samba-light de Roberto pelo funkão de Tim tornam essa gravação perfeita.

 

 

 

4 – Panorama Ecológico (1978) – faixa linda e triste do álbum “Pelas Esquinas De Ipanema”, cuja capa traz Erasmo posando na esquina entre a praia e a antiga Rua Montenegro, que passaria a se chamar Vinícius de Moraes. A canção é um libelo pela preservação da vida de flores, pássaros e peixes, com uma mensagem muito eficiente sem abrir mão do polimento instrumental e do ótimo arranjo. Clássica.

 

 

 

3 – Meu Mar (1972) – o grande clássico hippie de Erasmo. Do alto de seus 31 anos, ele registra essa lindeza litorânea como uma declaração de objetivo de vida para um futuro melhor. É seu equivalente à “Casa no Campo” e outras canções lindas sobre a idade do ouro situada no futuro. Perfeita.

 

 

2 – Filho Único (1976) – faixa dilacerante do álbum “Banda Dos Contentes”, na qual Erasmo disserta e disseca a relação de um filho com sua mãe e se vê às voltas com o passo definitivo de assumir sua maturidade a custo de abdicar da segurança e carinho maternos. Só quem já passou por isso sabe o quão real a canção é e o quanto as mães são insubstituíveis. Ninguém disse que a vida era fácil. E não é.

 

 

1 – Largo da Segunda-Feira (1972) – esta pequena canção – menos de três minutos – é o ponto alto do lirismo e da poesia suburbanos de Erasmo. É uma ode ao passado reconhecendo-o como elemento constitutivo do presente e base para abraçar o futuro. É lírica, linda e triste, com um pingo de nostalgia, não só da vida privada, mas da vida pública. Coisa seríssima.

 

Bônus:

 

“Aquarela do Brasil” (1970) – Erasmo fez esta releitura sensacional do clássico de Ary Barroso, chegando a aparecer no filme “Roberto Carlos e o Diamante Cor- de-Rosa”. O arranjo é reverente, mas abraça o samba-rock moderníssimo da época da gravação. É uma versão subestimadíssima, que merece reconhecimento urgente. Do ótimo álbum “Erasmo Carlos e Os Tremendões”.

 

“Saudosismo” (1970) – outra versão arrepiante, contida no mesmo álbum, dessa vez para a lindíssima canção de Caetano Veloso. A letra que sente a falta da Bossa Nova – e de seu modelo de Brasil moderno – ganha um arranjo psicodélico e tropicalista de primeira linha, com um resultado belíssimo.

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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