“Narciso em Férias” é seríssimo e imperdível

 

 

“Narciso em Férias”, documentário produzido e dirigido por Renato Terra e Renato Calil, é obrigatório. Você não precisa ser admirador ferrenho da carreira de Caetano Veloso para perceber a importância que o baiano tem para a música brasileira do século 20 e atual. E não precisa ser fã de música para sacar a relevância de uma narrativa sobre um tempo na prisão, algo ocorrido em meio a um regime político de exceção, no caso, a ditadura civil-militar em sua versão AI-5. Caetano e Gilberto Gil foram presos no mesmo dia 26 de dezembro de 1968, treze dias após a decretação do Ato Institucional nº5 que, entre outras coisas, suprimia os direitos individuais, fato que possibilitava a prisão sem mandado, a manutenção no cárcere sem chance de habeas corpus. Assim foi.

 

Primeiro levado de São Paulo até o Rio e, na capital da então Guanabara, pulando de um quartel para o outro, Caetano experimentou o cárcere em cela solitária e com outras pessoas. Ao longo dos 83 minutos do filme, ele conta com riqueza de detalhes o desespero crescente e o temor absoluto da perda de controle sobre suas ações. Fala da incapacidade de se conectar com seu corpo, com seu pensamento, privado, inclusive de se olhar no espelho. A fala dele é calma, mas com um acento evidente de pasmo/indignação pelas coisas terem chegado a tal ponto. Ainda que o regime político daquele tempo não mais garantisse a liberdade de expressão, o fato da prisão, como aconteceu, parece ter sido surpreendente para o cantor e compositor e, mais ainda, a demora para saber o motivo pelo qual estava encarcerado. Tal motivo só seria revelado muitos dias depois.

 

A produção é enxutíssima, guardando espaço para apenas Caetano e suas declarações em meio a um cenário cinza, neutro, evidentemente mostrando que as palavras são o que mais importa, que as lembranças são o combustível da memória que, por sua vez, alimenta a História. De fato, o que Caetano fala, ajudado pela ótima pesquisa de Lucas Pedretti, é a revelação incontestável da arbitrariedade suscitada por uma conjuntura que não garante seu cidadão e expõe o paradoxo contido na Lei de Segurança Nacional, mola-mestra da repressão naqueles tempos, que é o de olhar para dentro do próprio território brasileiro e justificar suas ações repressivas aos próprios cidadãos, tratando-os como ameaças à segurança do Brasil. Não precisa pensar muito e ver que tais ameaças geralmente veem de fora do país. Para isso, bem, para isso existiriam os militares, certo? Pois é.

 

Há momentos sérios, duros e emocionantes em “Narciso”, talvez o maior dele seja uma lembrança da cadeia que faz Caetano embargar e precisar interromper sua fala. Ele, sempre altivo, tenaz e brilhante, mostra-se inapelavelmente atingido por tal brutalidade, por estas sucessivas violações das liberdades. Sua emoção é contida, reprimida, provavelmente sublimada ao longo do tempo após muita dificuldade. Mesmo assim, ali, diante dos fatos, ele não consegue resistir. Quem dá o mínimo de valor à liberdade, há de entender e, por conseguinte, se emocionar junto.

 

“Narciso em Férias” é um filme que serve para esclarecer. É uma prova de como as pesquisas da memória funcionam para que os fatos sejam esclarecidos e compreendidos, mesmo que demore. Ele é um antídoto para a horda de mortos-vivos que se arrasta pelas ruas bradando pela volta dos militares e relativizando prisões e torturas sob o “argumento” de que “quem foi preso, mereceu”. Inteligente, discreto e importante, assim é o documentário, que presta um serviço à sociedade brasileira e aos que têm a esperança de que voltaremos a viver tempos de normalidade. Bravo.

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

2 thoughts on ““Narciso em Férias” é seríssimo e imperdível

  • 16 de setembro de 2020 em 21:50
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    Só para variar, mais um texto magistral. Pouquíssimos escrevem com a sua lucidez; parabéns novamente, CEL. E vida longa ao cada vez mais escasso jornalismo pensante.

    1+
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    • 17 de setembro de 2020 em 12:48
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      Poxa, obrigado pelas palavras gentis, meu caro. Vida longa e próspera!

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