Mutantes – Zzyzx

 

Gênero: Rock
Faixas: 11
Duração: 39 minutos
Produção: Sergio Dias
Gravadora: Jardim Elétrico
0.5 out of 5 stars (0,5 / 5)

 

Rapaz, deveria haver alguma instância além da justiça dos homens que proibisse/regulasse o uso do nome de bandas por ex-integrantes. Veja o caso de Sergio Dias com “Os Mutantes”. É lamentável que ele siga usando este nome para lançar discos. Tudo bem que houve uma boa dose de compreensão quando ele conseguiu reunir o baterista Dinho e o irmão Arnaldo Baptista em 2006 e, com Zélia Duncan nos vocais, excursionou pelo país e alguns lugares do mundo, chegando a lançar um CD/DVD intitulado “Live At Barbican Theatre”, mesmo sem a participação – essencial – de Rita Lee. Tudo bem que a fase pós-Rita, que durou entre 1973 e 1976, na qual Dias e uma nova formação abraçaram o rock progressivo, ainda seja digna de usar o nome. Mas, sinceramente, a produção – atual – dos “Mutantes” vai além do lamentável. Digo isso porque, sem qualquer alarde, Dias – ajudado por uma galera – está lançando um novo álbum, com o título de “Zzyzx”. E ele é muito ruim.

 

Quando me refiro à “produção atual” dos Mutantes, menciono os discos lançados após a reunião de 2006: “Haih ou Amortecedor” (2009) e “Fool Metal Jack” (2013). São trabalhos sem brilho, diluídos e carentes de identidade. Como músico, Sergio Dias é um dos grandes guitarristas brasileiros ainda em atividade. Ele transita facilmente pelos terrenos do jazz e do progressivo e tem ótimo faro para boas canções. Tem uma carreira solo e um catálogo de participações e parcerias com vários artistas, mas, de 2006 pra cá, Sergio encasquetou que não há problema em usar o nome de uma banda que existiu a partir da colaboração entre, pelo menos, outros dois gênios: Arnaldo, a real alma da banda, e Rita, cujo relacionamento com Arnaldo era a mola-mestra da magia, com Sergio e Dinho numa posição menos protagonista. Mesmo sendo o maestro técnico da reunião de 2006, Sergio é, como dizem os analistas de futebol, a terceira força dos Mutantes em seu período mais clássico, com Rita. Se ele se dedicasse a emular a fase progressiva, talvez não houvesse tanto desconforto com o uso do nome.

 

Mas, e o tal disco novo? O tal de “Zzyzx”? Ele é chato, raso, mal gravado, com um som oco e composições/arranjos que, quando conseguem ultrapassar a linha da mesmice oportunista, emulam Beatles – caso de “Window Mirrors”, que tem algo da fase psicodélica dos Fab Four. Ou de “Por Que Não”, uma das raras canções com letra em português do novo disco, que tem pianos e bateria climática, pendendo para um jazz oitentista. Há versos válidos, mas mal construídos, como “eu, se tivesse uma bomba atômica, jogava em Brasília sem pensar” ou “por que não há liberdade? Por que não? Porque não”. O Sergio de 1968 talvez achasse ruim também.

 

Acompanhando Sergio nesta empreitada estão Camilo Macedo (guitarra e vocal), Claudio Tchernev (bateria), Esméria Bulgari (vocais e percussão), Henrique Peters (teclados) e Vinícius Junqueira (baixo), que não têm qualquer culpa no resultado, uma vez que cumprem o papel de receptores das instruções do “maestro”. Há momentos muito ruins por aqui, caso de “Tempo e Espaço”, com vocais preponderantes de Esméria, que usa uma certa inflexão jazzística/dramática, que não tem graça soa, no máximo, como piada ruim. “Beyond”, a faixa de abertura, é uma xerocópia deslavada do que os Byrds faziam quando estavam dormindo e a faixa título parece hit de banda fajuta de blues que frequenta encontro de motociclistas em Rio Bonito.

 

Ao fim da audição, uma certeza: “Zzyzx” é o pior disco a usar o nome “Mutantes” na capa e isso é culpa exclusivamente da falta de noção de Sergio Dias, que parece incapaz de voltar a ter uma existência como músico e produtor sem manchar o nome da banda. Sai pra lá. Talvez fosse melhor mudar o nome para “Zzzzzz…”

 

 

Ouça primeiro: os discos originais dos Mutantes.

 

1+

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *