Moby faz resumo sinfônico da carreira

 

 

Moby – Reprise

Gênero: Alternativo

Faixas: 14
Duração: 70:41
Produção: Moby
Gravadora: Deutsche Gramphon

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

 

 

Já se vão 30 anos do surgimento de Moby no cenário internacional. Um dos poucos artistas americanos a fazer parte daquela novíssima onda de pensadores e executores da música eletrônica nos anos 1990, o sujeito logo mostrou-se digno de atenção, não só por seus primeiros trabalhos, mas especialmente por seu background peculiar: ex-músico de banda punk, vegano radical e parente de Herman Melville, escritor de “Moby Dick”, de onde o jovem Richard Hall Melville tirou seu nome artístico. Com essas credenciais, Moby iniciou seus passos logo com um hit: “Go”, faixa de seu primeiro álbum, homônimo. Não precisou muito tempo para perceber que ele não era apenas um produtor de faixas dançantes, mas um esteta do uso da eletrônica como meio facilitador para obter música. Ao longo dos álbuns seguintes, Moby apareceu em trilhas sonoras, gravou discos inovadores e consolidou seu nome como um cara muito talentoso, numa carreira que já soma 15 discos de estúdio, um ao vivo, várias compilações, remixes, relançamentos, enfim, um cara inquieto com sua arte. Agora, para marcar estes 30 anos de atividade, Moby solta “Reprise”, um disco em que revisita muitos de seus hits e faixas queridas. Em vez de se trancar no estúdio e recriar as canções, ele convocou uma orquestra sinfônica para acompanhá-lo, além de vários convidados para colocar vozes nas novas versões. E, como coroamento, a prestigiada gravadora Deutsche Gramophon afiançou tudo isso e colocou seu carimbo.

 

“Reprise” é diferente desses trabalhos revisionistas, ainda que seja, obviamente, um deles. O uso da orquestra sinfônica, banalizado pela música pop desde muito tempo, surge aqui como uma importante forma de dar vazão ao poderio das canções de Moby. Se ele compôs muitas delas apenas nos teclados, pensando em camadas de instrumentos em meio a arranjos que, sim, emulavam a perspectiva orquestral, é de se imaginar a satisfação de ver algumas dessas faixas vertidas para o mundo da música de câmara. O que se ouve em “Reprise” é que as criações de Moby são complexas o bastante para suportar os arranjos da orquestra sem forçar a barra. Nem de longe a sonoridade que vem das caixinhas de som lembra realizações do tipo “Acústico” ou algo assim. É o uso bem feito de um recurso artístico complexo, mais ou menos como o Metallica fez em seus dois álbuns sinfônicos. As novas versões mostram ambiências e detalhes que não eram visíveis em seus originais e, em muitos casos, os superam.

 

Um exemplo é “God Moving Over The Face Of The Waters”, originalmente lançada em “Everything Is Wrong” (1995), que tem a participação do pianista islandês Vikingur Olafsson e atinge quase oito minutos de duração. As texturas das cordas conseguem capturar com muito mais precisão o clima quase ecumênico que a canção oferece. Seu primeiro hit, “Go”, também ressurge aqui, com uma percussão absurdamente humana, que busca loucamente recuperar os beats sintéticos do original. A diversão está em ver como esses humanos teimosos vão fazer para conseguir igualar o que foi deixado no passado pelas máquinas do futuro. É um agradável looping que lembra como a house music foi utilizada naquele distante 1992 e como uma orquestra sinfônica faz para recriá-la. Sensacional.

 

O ponto máximo da carreira de Moby é lembrado por dois momentos emblemáticos. De “Play”, seu álbum de 1999, no qual ele revisita sons da América Negra, especialmente do blues, estão presentes a soberba “Porcelain” (com vocais de Jim James, do My Morning Jacket) e “Natural Blues”, com presença sensacional de Gregory Porter, no mínimo igualando o original. Também é digna de lembrança “The Lonely Night” (de “The Innocents”, de 2013), que repete a presença de Mark Lanegan mas traz um impressionante Kris Kristofferson), além da versão bela para “Heroes”, de David Bowie, que Moby registrou em 2001 e aqui tem a voz de Mindy Jones. Outras lindezas: “Lift Me Up”, “We’re All Made Of Stars” e “Why Does My Heart Feel So Bad?”, essa com Apollo Jane.

 

“Reprise” é um disco surpreendente e cheio de camadas. Ele oferece novas e inéditas visões sobre a carreira de Moby e é uma prova de coragem e confiança, uma vez que expande sua música para outros universos. Uma lindeza cósmica.

 

Ouça primeiro: “Porcelain”, “Natural Blues”, “God Moving Over The Face Of The Water”, “Lift Me Up”, “We’re All Made Of Stars”

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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