Miles Davis – Rubberband

Gênero: Jazz, R&B
Duração: 61 minutos
Faixas: 11
Produção: Randy Hall, Attala Zane Giles
Gravadora: Warner

3.5 out of 5 stars (3,5 / 5)

 

É preciso um esforço enorme para fazer algo que tenha a participação de Miles Davis ser “ruim”. No caso de “Rubberband”, talvez “decepção” seja a palavra mais apropriada. Vendido como um “álbum perdido” de Miles, com sessões de gravação situadas entre 1985/86, este disco tem resultado sonoro similar – em estilo – às incursões de artistas de hip-hop nos acervos de gravadoras icônicas do jazz como Blue Note e Prestige, que resultaram em bons discos de gente como Guru e Us3. Só que, no caso de “Rubberband”, não há hip-hop, mas uma sucessão de tentativas desenfreadas de encaixar o trompete do homem em meio a arcabouços funk, R&B e eletrônicos que oscilam entre os anos 1980, emulações e desejos de “atualização”. O resultado é um pega pra capar estético que não nos leva a lugar nenhum.

 

É sempre bom lembrar: Miles viveu sua carreira na Columbia. Ali gravou seus clássicos – mais de dez, pelo menos – e cravou seu nome na música do século 20. Quando foi para a Warner, no início dos anos 1980, a indústria do show business já havia mudado para sempre e o jazz não vivia uma boa fase mercadológica. O próprio Miles já parecia esgotado criativamente, lhe restando a curiosidade de trabalhar com música pop. Daí a disposição em fazer um disco como, por exemplo, seu último na Columbia, “You’re Under Arrest”, que trazia de cover de Cyndi Lauper a participação de Sting, mostrando que o homem queria brincar um pouco. “Tutu”, logo em seguida, estreando pela Warner, talvez seja seu disco mais funk, brincando com timbres eletrônicos, com a ajuda do baixista Marcus Miller.

 

“Rubberband” parece ir na mesma direção, talvez uma mistura de ambos os trabalhos. Foi pensado e desenhado para ser um disco com participações vocais e foi arquivado pelos chefões da Warner, provavelmente emputecidos por terem contratado um gigante que queria mais arejar sua cuca musical do que criar novas obras primas. Deu no que deu. Recriado hoje, 2019, “Rubberband” dificilmente escapa do terreno das curiosidades e não deve conquistar o sujeito de vinte anos que pira com as gravações de um Thundercat, nem o fã mais ferrenho da obra de Miles. Tampouco deve fazer alguma carreira em paradas de sucesso ou algo assim.

 

Carregar a etiqueta de ser um disco de Miles Davis é uma carga pesada para qualquer obra. E veja: não faltam faixas curtíveis por aqui. A abertura com o duo Ledisi, “Rubberband Of Life”, é bem legal. “This Is It” parece uma recriação de alguma banda de funk branquela dos anos 1980, algo entre um Duran Duran e um Scritti Politti. “Paradise”, com Medina Johnson, é uma ótima viagem ritmica meio latina, meio Miami Sound Machine, divertida que só. “So Emotional”, com os vocais abençoados de Lalah Hathaway, é uma bela balada no estilo Motown 80’s. “Give It Up” é um groovão que lembra muito o que outro mestre – James Brown – fazia na época, especialmente em discos como o excelente “Goliath”.

 

Se o ouvinte conseguir “esquecer” que estamos diante de um disco lançado como sendo o primeiro álbum “de inéditas” de Miles Davis a surgir desde sua morte, “Rubberband” é simpático. Do contrário, os termos de comparação serão muito pesados para ele.

 

Ouça primeiro: “So Emotional”

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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