Brand New Heavies – TBNH

Gênero: Funk, acid jazz
Duração: 55 minutos
Faixas: 14
Produção: Tristan Longworth
Gravadora: Acid Jazz Records

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

 

O Brand New Heavies é um sobrevivente dos anos 1990. Reduzido hoje ao guitarrista Simon Bartholomew e ao baixista Andrew Levy, o grupo já foi um bastião do que se chamava Acid Jazz, uma variação dançante e levemente eletrônica do funk setentista, especialmente da escola Phildelphia International, repensada e reinserida nas pistas, sobretudo na Inglaterra noventista. Era um som elegantíssimo, ainda que muto mais tradicionalista do que aventureiro. Suas linhas de baixo, levadas, utilização de cordas e guitarras apontavam mais diretamente para atualizações do estilo philly soul do que algo realmente novo, como, digamos, a sonoridade que Jazzy B e seu Soul II Soul forjaram na virada dos anos 1980/90. Ainda assim, mesmo datado, o Brand New Heavies é fonte certa de belezas e isso é facilmente percebido neste novíssimo disco, “TBNH”.

 

Aliás, a passagem do tempo, paradoxalmente, “desdatou” o som do grupo e o posicionou numa caixinha confortável de revivalistas cuca fresca, como se fosse um Jamiroquai mais sério e talentoso. Com a constante participação de cantoras fazendo a parte vocal, o BNH manteve esta tradição no álbum novo, chamando duas velhas conhecidas dos tempos de glória: Siedah Garrett e N’Dea Davenport, colaboradoras fiéis e capazes de desempenhar a função de “soul diva” como poucas em atividade. Além deles, novidades como a anglo- italiana Angela Ricci, que é adorável e dona de uma voz jovial, misturando novo e clássico; Angie Stone, Beverley Knight e dois barbados, Jack Knight e Laville, mostrando uma discreta abertura de espaço no cânon brandnewheaviano.

 

Além deles, uma saudável nova mania dos caras: covers. Se no disco passado eles conseguiram uma versão descomunal para “Sledgehammer”, de Peter Gabriel safra 1986, aqui eles se voltam mais para os tempos atuais e reprocessam “These Walls”, de Kendrick Lamarr, com N’Dea nos vocais e Mark Ronson na produção. O rapper americano deve ter ficado bem orgulhoso com o arranjo afrobeat que sua composição recebeu. Mantendo a elegância, talvez este “TBNH” seja tão bom quanto os melhores discos noventistas do grupo.

 

A quantidade de faixas próximas da perfeição estética é enorme, mostrando o quanto Bartholomew e Levy são fiéis em relação aos pilares mais sagrados do philly soul, mas também acusando novas inspirações no todo. Em “Stupid Love”, por exemplo, com Angela Ricci, a levada é turbinada por um clima disco inegável, cheia de balanço e guitarras fazendo chacundun em meio a um refrão que tem naipe de cordas em rodopio, uma lindeza total. “Getaway”, com N’Dea, cita metais de “Best Of My Love”, clássico das Emotions, com um arranjo classudo de fazer inveja nos mais tradicionalistas. Assim também é o caso de “Heat”, com vocais de Honey Larochelle. Os vocalistas masculinos também mandam bem em suas respectivas faixas: Jack Knight em “Little Dancer”, com uma levada mais tradicional, com a voz lembrando Terence Trent D’Arby e Laville, fazendo de “Dontcha Wanna” uma daquelas faixas em midtempo que brotavam aos borbotões nas FMs setentistas. Uma lindeza solar.

 

“TBNH” é um dos melhores discos de 2019 que poucas pessoas vão ouvir. Leia essas linhas e caia dentro deste universo de musicalidade, bom gosto e talento. Sempre que vir esta sigla, BNH, não sendo referente ao velho Banco Nacional da Habitação, dê fê.

Ouça primeiro: “Getaway”

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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