Messiah – Veredito

 

 

“Messiah ” estreou na Netflix sem muito alarde, pelo menos por aqui. Lá fora, a série criada por Michael Petroni já vem causando polêmica, especialmente entre os muçulmanos sunitas. O argumento da trama passa pelo surgimento de um homem misterioso, que inicia uma caminhada de Damasco, capital da Síria, até a fronteira com Israel. Neste caminho, ele é seguido por uma multidão de pessoas, fato que chama a atenção do mundo e da CIA, que tem na agente Eva Geller, vivida por Michele Monaghan, uma espécie de encarregada dos assuntos do Oriente Médio. Ao longo de dez capítulos, o tal sujeito – Al-Masih (interpretado pelo ator belga Mehdi Dehbi – irá confundir a cabeça de muita gente.

 

Ao fim da primeira – e eu espero, única – temporada de Messiah, ficam vários questionamentos interessantes. O maior deles é: se um messias judaico-árabe-cristão surgisse em nosso mundo de hoje, como ele seria recebido? Como seria sua relação com as pessoas, com a mídia, com as nações e com as várias polarizações? Como ele lidaria com o capitalismo, com as injustiças e as imensas diferenças existentes? Como seria sua relação com a Internet? E com os Estados Unidos? Pois “Messiah” é razoavelmente bem sucedida em muitas dessas instâncias. Em outros momentos, no entanto, a série peca pela lentidão com que desenvolve alguns aspectos e pela narrativa arrastada. Dos dez episódios, suponho que três ou quatro são pura encheção de linguiça.

 

“Messiah” é uma espécie de “Homeland” às avessas. Esta, uma série de origem israelense, é uma sucessão de pés na porta, especialmente desferidos contra o mundo árabe, via atuação de outra agente da CIA, Carrie Mathison (vivida por Claire Danes). Em “Messiah” a coisa vai por outro lado: todos os esforços da inteligência americana em conter a crescente curiosidade em torno de Al-Masih vão sendo colocadas de lado a partir do carisma do sujeito. Suas falas, sua postura e o significado que vai adquirindo aos poucos, mostram para muitos que, inequivocamente, o novo messias está entre nós. Eva Geller e o agente israelente Avraam vão sendo sugados pelo turbilhão de informações que se instala.

 

Se há algo legal em “Messiah”, certamente é a opção da trama pelo mistério e pelo drama. Em certos momentos parece que a série vai descambar para um clichezão de espionagem pós-terrorista, com um malfeitor árabe sendo desmascarado pelos americanos bonzinhos. O resultado que vai se instalando aos poucos mostra o contrário: as dúvidas permanecem, as perguntas ficam sem resposta satisfatória e as pessoas que conviveram com Al-Masih passam por mudanças importantes em suas vidas, sempre deixando no ar a dúvida sobre o que as palavras do misterioso homem realmente queriam dizer. Em muitos momentos ele desconcerta completamente seus críticos e perseguidores, mas, em outros, ele contraria abertamente seus seguidores e admiradores. É interessante.

 

Claro que há, sim, clichês em “Messiah”: a agente americana amargurada e solitária; o agente israelense com problemas de disciplina e um mistério em seu passado; o pastor batista com uma família em frangalhos, tudo isso serve como pano de fundo para o mistério primordial: como seria se um Jesus Cristo reloaded chegasse ao nosso mundo? No fim das contas, “Messiah” prende, deixa cair a peteca lá no meio da trama, mas consegue segurar a atenção do público. Veja, é legal.

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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