Melbourne, 05:30 PM

O grande clichê referente a Melbourne é aquele que aponta a cidade como um caldeirão sociocultural. É verdade. A cidade transpira e se alimenta dessa diversidade de culturas, todas elas representadas pela infinidade de manifestações culturais, sejam elas por meio da comida, da música, das artes e das pessoas. Estas conferem ao centro de Melbourne, chamado de “city” por alguns, ou CBD (Central Business District) um ar nova-iorquino, porém sem a quantidade absurda de brasileiros e sem aquele estilo blasé, quase mal-educado. Aqui as pessoas são muito, muito amáveis, e aparentemente não vivem para o trabalho: ele é uma parte fundamental da cidade e do país, mas a impressão é que as pessoas CURTEM a vida.

Vou tentar durante esse tempo em que vamos caminhar juntos pela vida de Melbourne, passar a visão de um brasileiro sem o complexo típico do vira-lata tupiniquim, porém entendendo e aproveitando essa experiência australiana como um local, sem me envolver com comunidades de brasileiros – não estou afirmando que NÃO terei amigos brasileiros – e sem querer trazer o Brasil para dentro deste ambiente. A palavra aqui é adaptação.

Em torno de 05:30PM pousei em Melbourne. Era uma terça-feira e algumas horas atrás eu tinha deixado momentaneamente minha vida inteira no Brasil. Literalmente. TODA minha vida, incluindo a venda de toda a minha casa; móveis, aparelhos domésticos, aparelhos de jantar, TUDO. Cabe mencionar que a minha coleção inteira de CDS, em torno de 3000, também virou dinheiro. Mais de 25 anos de coleção foram embora. Na verdade, guardei comigo dois CDs e uma Box-Set. Dois discos muito raros, um das “Desert Sessions”, comprado em Berlim, e um do David Ruffin que está fora de catálogo. Ainda não tenho ideia do que fazer com eles. E uma box-set do Bruce Springsteen chamada “Tracks”, que ninguém quis comprar.

Seriam dois meses sozinho aqui, esperando minha família se juntar a mim. Eu teria pouquíssimo tempo para alugar um apartamento e deixá-lo minimamente organizado. Porém, onde eu ficaria durante esses dois meses era um mistério até pouco tempo antes de embarcar. Melbourne, assim como outras metrópoles, tem essa característica de possuir uma imensa oferta de aluguel de quartos, os tais “shared rooms”. Foi para elas que eu apontei primeiramente, porém pelo fato de querer alugar por um tempo reduzido, ninguém topava.

“Por que você não tenta uma casa de família?” – perguntou um cara que eu acabei conhecendo no dia de fazer o exame de saúde para a aprovação do visto.

“Hum…” – pensei em idosos. Pensei em casais maníacos por limpeza. Pensei em viúvas ninfomaníacas. Pensei em famílias me adotando como o filho que já não morava mais na casa, apesar de eu ser quase cinquentão. Resolvi arriscar e encontrei um site que oferecia esse tipo de acomodação. Para a minha surpresa, a dificuldade de receber respostas dos tais “shared rooms” não aconteceu, pelo contrário: fui literalmente DISPUTADO. Como eram famílias mais maduras, normalmente as casas eram localizadas em bairros um pouco mais afastados  da minha universidade.

Um casal indiano acabou me conquistando, e ao fechar com eles a surpresa: “olha, nós somos um casal católico muito tradicional, você não vai ter problemas. Vamos lhe dar o melhor!”. Pronto era a senha para a certeza de que eu seria obrigado a ir na missa com eles e participar de reuniões com casais amigos. Mas, pelo menos, tinha a comida indiana, que é uma coisa espetacular de gostosa, e eu imaginava que seria a comida tradicional da casa. Mas eu tinha a certeza de que não poderia levar uma cervejinha para beber. Ou um vinho australiano, já que eles são muito conservadores, eu imaginava.

Eu já tinha uma certa noção dos subúrbios de Melbourne, via Google Maps, dicas de blogs e o site da universidade, que recebe o aluno internacional com muito carinho e dá totais condições de pesquisa. Não dava para saber com amigos que já tinham vindo para cá, porque via de regra todos ficavam no centro, a parte mais turística, e vamos combinar, MUITO mais cara para alguém que vai levar uma vida de estudante durante os próximos quatro anos. Eles moram em Epping, um subúrbio bem longe do centro, cerca de 1 hora de metrô de superfície. Aliás, preciso contar depois sobre as experiências no metrô. Depois de viajar horas no trecho Brasília-Buenos Aires-Santiago-Melbourne, finalmente estava em Melbourne, morto de cansaço mais ainda sem saber o que me esperava na casa dos indianos.

05:30PM e uma nova aventura acabara de começar.

A universidade disponibilizou um carro para me levar, e logo cheguei ao subúrbio, muito semelhante àqueles seriados americanos, com casas iguais, sem cercas, sem ninguém na rua. Longe de tudo, pensei. Uma sensação de déjà-vu me invadiu, já que eu tinha pesquisado obsessivamente as ruas, o bairro e a casa em que eu passaria esses meses. Santo Google Maps. Glenn, o indiano, me recebeu, e foi logo me apresentando a todos: sua esposa, Jennifer e os outros estudantes que moravam nos outros quartos, uma japonesa e um colombiano, todos muito simpáticos. Aí você imagina: “algumas horas atrás estava dormindo com minha esposa, na minha cama, e agora estou do outro lado do mundo, em uma casa estranha, com pessoas estranhas, em um país estranho e em um quarto estranho”. Era dia de pizza, e eu fiquei sabendo que todas as terças-feiras eles pediam pizza para mudar um pouco. Acabei me enturmando rapidamente.

O dia seguinte eu precisava começar a desbravar Melbourne, já que meu curso começaria em 3 dias. Conhecer o sistema de transporte público. Entender os horários, os novos costumes. Preciso me exercitar, será que tem alguma academia por perto?

Foram muito amáveis, me deram todas as dicas e no outro dia eu já estava dentro do metrô em direção à city. Um misto de empolgação e saudade. E preocupação. A primeira coisa que notei no metrô é que todas, absolutamente TODAS as pessoas ficam vidradas nos seus celulares, com fones de ouvido de todos os tamanhos e cores. O 4G funciona que é uma beleza, e descobri depois que há pacotes para todos os gostos, até com dados ilimitados. Cheguei no final do período letivo, que aqui é diferente. São 4 “termos” durante o ano, e o terceiro termo estava no seu final. Portanto vi muitos estudantes nas ruas, todos vestidos de terno e gravata, loiríssimos. As meninas de saia. Eu parecia que tinha acabado de chegar em um episódio de uma série da BBC (claro, se formos pensar na conexão entre os dois países).

Flinders Street, minha estação final. Fui engolido por uma multidão de indianos, europeus, africanos e uma INFINIDADE de asiáticos. Não é brincadeira, os orientais são a imensa maioria por aqui. No centro da cidade, o estilo cartesiano das ruas é fácil de entender. Existem  bondes que transitam no centro da cidade, gratuitos dentro dessa região, os trams. É só subir com seu cartão recarregável e passear. E tome restaurantes vietnamitas, tailandeses, chineses, japoneses, mexicanos, mais chineses, mais vietnamitas, americanos, franceses e australianos. As ruas do centro são apinhadas de opções de comidas diferentes, além dos indefectíveis Starbucks (sempre cheio), Subway e Mc Donald’s.

Ao caminhar verifiquei que as ruas são cheias de grafites. Não aquela coisa desorganizada, mas trabalhos incríveis. Muitos cartazes de shows: Death Cab for Cutie, Maroon 5, Phil Collins, Aloe Blacc, Leon Bridges, Cat Power, Orbital, Underworld, Jesus & Mary Chain, Lauryn Hill & Nas. Eu estava no paraíso. Todos os shows, eu quero ir em todos os shows.

Será que eu finalmente vou conseguir assistir a um show do Queens of the Stone Age? Certamente, mas por enquanto vá se acostumando com The Oh-Sees, Idles, Liz Phair, Meltdown, Teenage Fanclub, Calexico, Dee Snider, Peter Murphy, Sisters of Mercy, The The. O quê? THE THE? Fazia anos que eu tinha escutado a banda, de ótimas recordações dos anos 80, mas não me lembrava. Eu preciso ir no show.

Comprei meu chip de celular, com 45 GB de dados, uma infinidade. Impossível acabar. Primeira providência: escutar novamente os discos do The The. “This is the Day” foi um soco no estômago. “Uncertain Smile” quase me faz chorar. E o dia do show chega. Como será que os australianos se comportam? O show foi em um teatro, coisa linda, The Arts Centre no centro da cidade. Vários bares, nenhuma confusão, TODOS bebendo. E eles levam TAÇAS de vinho para suas cadeiras. Adorei.

Mas infelizmente a vida não se resume a diversão, e durante o período de adaptação na universidade eu precisava encontrar um local para alugar. Coloquei uma meta: tenho que levar em torno de 30 minutos de metrô, no máximo para a universidade. Tem que ser perto de supermercados e ter alguma diversão. No bairro em que eu estava morando com os indianos, tudo era longe. “Minha esposa vai morrer de tédio se ficarmos em um local assim” – pensei. Coloquei meus fones de ouvido e resolvi escutar novamente discos que eu não tocava há anos. “Putz, como esse disco do Ultravox é bom, e eu nem lembrava! E esse do Bauhaus? “She’s in Parties”, musicão. “Kick in the Eye” para relembrar as festas dark de Brasília.

Cada bairro aqui tem uma característica cultural. Tem o bairro dos indianos, tem o dos africanos; tem um com muitos brasileiros (esse não). Orientais estão espalhados por todos os lados. Já mencionei que aqui tem MUITO oriental?

Preston. Fica a 25 minutos da universidade. High Street, tem bares com aquele esquema hipster (tem um aqui com máquinas de costura nas mesas, juro). Muitos cafés. Já contei 3 cafés em apenas uma esquina. E tem o Preston Market, uma daquelas feiras que vendem de tudo. Desde produtos orgânicos direto dos produtores até todo o tipo imaginável de cortes de carne. Apaixonei, quero morar em Preston! Foi lá que comi um dos melhores Burritos da minha vida, em um food truck. Melbourne tem uma cultura de Food Trucks muito maior do que Miami, por exemplo. Eles estão espalhados por toda a cidade.

O sistema de aluguel aqui é diferente. Você tem 15 minutos para chegar, olhar a casa e ver se é interessante. Passaram-se os 15 minutos, acabou. Para um brasileiro recém-chegado nem é preciso dizer que perdi algumas vistorias. E é todo mundo junto, às vezes uns 10 casais dentro do apartamento. De todas as nacionalidades, uma loucura.

Por fim, consegui alugar onde eu queria, com a vantagem de que a estação está a 5 minutos caminhando, o TRAM (aqui nos subúrbios é pago) é literalmente na minha porta, tenho o Preston Market a 10 minutos e dois supermercados. Sem contar que a escola do meu filho fica a 5 minutos caminhando. Tudo perfeito. E descobri que é um subúrbio com muitos gregos. Restaurantes, cafés e docerias, tudo da Grécia. Ainda não experimentei.

Como assim vai ter show do Ash? E eu não tinha visto! E a Flavinha (minha esposa) está quase chegando? Diferentemente do show do The The, este já foi em um esquema mais relaxado, mas com bares servindo cerveja à vontade. Fica aqui uma dica: o pint da cerveja, em torno de 500 ml, custa uns 10, 11 dólares. Procure saber se eles servem a jug (Jarra). Sempre vale mais a pena.

Eu tinha todos os discos do Ash, e ao escutar “Shining Light” quase fui às lágrimas. Eu adoro essa música. No bar que fica ao lado de fora do palco do show, vários cartazes de bandas que passaram por lá. Teve Black Rebel Motorcycle Club!

Agora, com a família reunida (ainda faltando os gêmeos, que virão ao final deste ano), nossa vida está apontada para um rumo ainda a ser descoberto. Comecei a verificar que a quantidade absurda de bicicletas na rua era um reflexo de uma cidade que amigavelmente respeitava os ciclistas. Comprei uma bicicleta e todos os dias vou pedalando para a universidade. No momento estou finalizando os 50 melhores discos do ano de 2018 da revista Uncut. Ontem escutei Jack White, mas já passaram pelos meus fones Phosphorecent, Calexico, The Lemon Twigs, Low. Ontem escutei o incrível “From Memphis to New Orleans”, do Alex Chilton. Estou conhecendo bandas novas de Power-Pop e muito funk. Já ouviram The Dips?

Espero que nossa jornada seja interessante, vou me esforçar para mostrar um lado menos conhecido de Melbourne, sempre ao lado de muita música e muito papo furado. Já falei para vocês que vai ter mês que vem aqui Gang of Four e Tower of Power? E que o Fleetwood Mac vai tocar? E que Elton John ACABOU de anunciar sua última turnê aqui na Austrália?

Cheers. Tudo começou às 05:30PM, horário de Melbourne.

2+

Osório Coelho

Osório Coelho é servidor público federal licenciado, doutorando em ciências sociais, vascaíno, DJ amador, fã de black music e acredita em uma revolução socialista.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *