Criolo Virou Suco

 

 

O gerente desta lojinha lançou um desafio: elencar cinco músicas de uma banda ou artista e falar da representatividade das selecionadas no conjunto da obra. Ou seja, dar aquela “espremida” na discografia. Simples não é. Isso aí pra mim é tipo fazer suco, afinal de contas só faz suco com as frutas que mais nos agradam, acho eu. Então é isso, vou elencar 5 sons que tenham aquele sabor único e espremer aqui. É: virou suco.

 

E o primeiro a virar suco é Criolo.

 

Filho de nordestino e com sangue quente, Kleber Cavalcante Gomes, o Criolo, ou ainda Criolo Doido, não é pra quem usa calça cáqui e mocassim. Com postura sempre forte o rapper tem uma discografia com poesias de resistência, força e com grande dose de realidade. O que é sempre mais interessante. A mistura bem feita de sonoridades certamente é uma das características do artista, mas é na crueza da poética do morro e da rua que o paulistano firma sua base. Pretendo não me deter nos singles lançados com parcerias, como o recente projeto “Existe Amor” com Milton Nascimento, ou ao vivo com o Emicida, menos ainda o Viva Tim Maia com Ivete, mas fiquem à vontade para curtir. Vamos ao que interessa: o desafio das 5 faixas.

 

E com a atualidade dos versos de “Lion Man” que eu começo a elencar as 5 faixas que considero representativas. “Lion Man” faz parte do segundo álbum de estúdio “Nó na orelha”, que levou os prêmios de “Melhor Álbum”, “Música Do Ano” (“Não Existe Amor Em SP”) e Artista Revelação no VMB de 2011. “Nó na Orelha” carrega faixas que tornaram o Criolo super conhecido, mas escolhi a nona por não ser opção óbvia e também pela letra. Pra quem sofre de Brasil, essa estrofe dá a visão de 2020.

 

“Uma mente moderna, porém mal-acabada
É o ser humano, o egoísmo e uma adaga
Pátria amada, o que oferece aos teus filhos sofridos?
Dignidade ou jazigos?”

 

 

Com tom politizado, como é de se esperar de quem faz rap, Criolo tem na sua música rimas profundas e não usuais, o que me fez querer prestar cada vez mais atenção do que era dito. “Em Convoque Seu Buda” (2014), terceiro álbum, a realidade e revolta dos que vivem no morro e enxergam playboy esfregando tênis caro é retratada. Poderia escolher a radiofônica “Cartão de Visita”, sobre a distinção e a soberba de uma elite que detesta os meninos no sinal, entre outras com letras fortes e importantes. Mas escolhi “Fermento pra Massa” que, em um samba, retrata o que aconteceria se o proletariado fizesse uma grande greve. Pão murcho, cidade travada, greve de busão e o grandão de papo pro ar. E o café passado e o pão fresco? É sensacional a junção de um ritmo alegrezinho, no melhor estilo “sambar com os indicadores lá no alto” com uma pitada de acidez na letra. Olha aí, seu dotô!

 

“Tem fiscal que é partideiro
Motorista, bicheiro e dj cobrador
Tem quem desvie dinheiro e atrapalha o padeiro
Olha aí, seu doutor
Eu que odeio tumulto
Não acho um insulto manifestação
Pra chegar um pão quentinho
Com todo respeito a cada cidadão”

 

 

Em 2016, Criolo lança uma nova versão para o seu primeiro álbum “Ainda há tempo”, de 2006. E deste disco eu pincei um canto de esperança, que, se era válido em 2006 e 2016, hoje a gente pode questionar: “ainda há tempo”? O forte dessa letra é justamente a força, aquela que vem através da frase que ecoa lá no fundo “as pessoas não são más, elas só estão perdidas. Ainda há tempo”. Não sei vocês, mas prefiro acreditar que sim. Selecionei esse trechinho que acho super válido.

 

“Que o fardo não é maior do que eu possa carregar
Se a vida é o jogo, então, vamos ganhar
Não quero ver você triste assim, não
Que a minha música possa te levar amor.”

 

 

Não querendo cometer injustiça não poderia deixar de citar a poderosa “Boca de Lobo”, de 2018. Mas não a escolhi só pela letra pungente, cito essa música por ela ter um videoclipe que, se vocês não viram, eu deixo aqui alguns minutos para que corram atrás desse prejuízo aí, mas voltem pra cá.

 

 

Enfim, letra e imagem trazem inúmeras referências que passam pelo golpe da presidenta Dilma, Janaína Paschoal, Marcela e Michel Temer, helicoca do Aécio Neves, as malas e caixas cheias de dinheiro do Geddel, a morte de Marielle Franco e no verso “Um litro de Pinho Sol pra um preto rodar” traz para a superfície o caso Rafael Braga, que foi preso e condenado por portar uma garrafa do produto de limpeza. É Brasil, você foi todinho traduzido e editado em Boca de Lobo.

 

E que missão dolorosa essa de escolher 5 músicas, justo é Deus, o homem não. Enfim, injustiças serão feitas aqui, justo é Deus, o homem não, eu escolhi uma faixa do álbum Espiral de Ilusão, de 2017 de samba, pra dar aquele toque de chef neste suco de Criolo. Se Criolo faz um rap honesto e bem feito, no samba ele também acerta pra caramba. Diferentemente dos anteriores, o álbum não se detém às questões políticas, talvez o maior exemplar do tema seja “Menino Mimado”. E deste todo cheio de energia, eu selecionei a canção mais cheia de dor e que dá nome ao disco. Espiral de Ilusão é lamento, é a dor da traição. É o que sabemos, na mesma medida que o amor revoluciona, ele destrói.

Eu sei que eu deveria finalizar com a energia lá no alto, mas como eu dormiria sem compartilhar com vocês uma música sobre o desamor?

“É que amar é algo novo pros homens
Mulheres amam, homens não sei o quê
Pra proteger minha raiz de sensibilidade
Por favor não me liga
Não me procure mais tarde”

 

 

É a voz de uma mulher que tem dor, eu não sou chegada a dramas, mas convenhamos, é uma letra tristemente linda. Bom, tarefa executada e eu acho que vocês vão bebericar um pouco mais deste suco que aqui foi servido. Claro que aqui eu não citei “Bogotá”, “Sucrilhos”, “Mariô” e nem “Não existe Amor em SP”, essas vocês já conhecem. Deixei aqui apenas aqueles ingredientes que não são usuais, mas que farão um pouco de diferença na próxima vez que vocês pensarem no Criolo.

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Ariana de Oliveira

Ariana de Oliveira é canhota de esquerda, Cientista Social, estudante de Jornalismo e comunicadora da Rádio Univates FM. Sobre preferências: vai dos clássicos aos alternativos.

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