“Maxinquaye”, Tricky, 25 anos

 

 

 

Já sabemos que Tricky, como se fez conhecer o britânico Adrian Thaws, anunciou um novo álbum para 2020. Enquanto esperamos para conferir o momento atual de um artista com altos e baixos, revisitemos o seu início, que foi altíssimo. Maxinquaye, lançado em 1995, merece um monumento na cidade natal de Tricky, Bristol – quem sabe no lugar de onde a estátua do escravocrata Edward Colston foi arrancada para submergir em um canal? Arrisco aqui cinco motivos para não deixarmos passar a data em branco.

 

 

1.Uma estação obrigatória do trip hop

O termo já foi renegado pelo próprio Tricky, mas fazer o quê se Maxinquaye figura sempre nas listas de “melhores álbuns do trip hop”. Cunhado por volta de 1994 por um jornalista, a categoria pretende capturar algo que não é um movimento concertado, mas pontos para onde convergiram as experimentações de parte da música britânica desde a segunda metade dos anos 1980. Batidas desaceleradas e quebradas, bases eletrônicas combinadas a elementos orgânicos, vocais tendo como fundamento o rap… Essa descrição não explica muito, mas talvez capte traços recorrentes de um estilo que não seria incorreto designar como outro avatar da música negra.

 

Pode-se ainda afirmar que o trip hop foi a resposta britânica aos vários desdobramentos do hip hop nos Estados Unidos. Na terra dos Beatles, o cultivo do hip hop misturou-se com o caldeirão de ingredientes da cultura rave (variantes de música eletrônica, dub reggae, drogas e psicodelia), produzindo texturas e ambiências com lugar para o jazz, rock, soul, R&B e funk. Bristol e o selo Mo’ Wax exerceram papeis de protagonistas na cena que levou ao trip hop – e Tricky fez parte dessa história desde a segunda metade dos anos 80. Mesmo que seja difícil definir o gênero, ali certamente havia algo além do que cabia no assim aclamado “brit pop”.

 

Além de ser parte da história, Maxinquaye presta tributo a duas outras bandas às quais se deve o desenvolvimento do trip hop. Primeiro, Massive Attack, de que o próprio Tricky participou, colaborando no primeiro e segundo álbuns (Blue Lines, 1991; Protection, 1994). A primeira faixa de Maxinquaye, “Overcome”, é uma versão de “Karmacoma”, clássico do segundo álbum do Massive Attack. Já “Hell is Round the Corner” é irmã gêmea de “Glory Box”, do álbum Dummy (1994) do Portishead. Ambas as músicas usam como base um sample de “Ike’s Rap II” (1971), gravada por Isaac Hayes. Perdura ainda a disputa de quem teve primeiro a ideia, mas como o lançamento do Portishead foi anterior, vamos combinar que Tricky é quem prestou a tributo.

 

O que importa mesmo é reconhecer a qualidade dessas bandas e desses álbuns. E também invejar a efervescência da cena de Bristol naquela época, que ainda deu ao mundo o enigmático grafiteiro Banksy.

 

 

2.Tricky Hop

Em uma entrevista, Tricky retrucou que se fosse o caso de associá-lo ao trip hop, mesmo de lhe creditar um protagonismo, então o correto seria dizer “Tricky Hop”. A resposta diz algo sobre a personalidade do rapper. De todo modo, é um comentário certeiro sobre a diversidade que caracteriza o estilo. Massive Attack, Portishead e, para acrescentar outra referência consensual, o californiano DJ Shadow são bastante distintos entre si e inclusive no conjunto de suas respectivas criações.

 

No caso de Tricky, seu trabalho solo tem a ver exatamente com os limites de sua participação no Massive Attack. O primeiro single, “Aftermath”, lançado em 1993 e depois incorporado a Maxinquaye, tem seu título seguido da rotulação “Hip Hop Blues”. O barato de Tricky era juntar coisas, embora seja significativo que essas duas coisas sejam, como ele, negras. Ao passo que o Massive Attack constrói composições mais arquiteturais e orgânicas, Tricky investe em um caminho que valoriza os retalhos e as citações.

 

Em Maxinquaye, o resultado são 12 faixas que mesclam sedução e provocação, groove e desassossego. Às vezes podemos achar que são músicas para “curtir” ou “relaxar”, mas um pouco de atenção revela a tensão e a densidade em que se equilibram. A composição volta a ocorrer na capa do álbum, um vermelho quente atravessado por marcas de corrosão que mancham toda a superfície. Dos vocais mansos e aveludados despontam letras paranoicas e alucinatórias.

 

As faixas mais executadas de Maxinquaye são marcadas por uma sonoridade densa e tensa. Em “Overcome”, densidade e tensão são construídas no contraponto entre percussão tribal e teclado-com-flauta. Em “Ponderosa”, já divulgada em 1994 como single, estão apoiadas em uma percussão indiana. Em “Pumpkin”, graças à base retirada de uma música do Smashing Pumpkins e seu diálogo com teclado e voz em variações que são incomuns no álbum.

 

Mas há também faixas, menos destacadas, nas quais predominam o groove e uma ambiência mais relaxada – se nos desprendemos das letras. Em “Abbaon Fat Tracks”, “Suffocated Love” e “Feed me”, há mesmo uma malemolência temperada com riffs que costuram R&B e psicodelia. “You Don’t”, com toques de reggae, nos leva, como em muitas músicas do Portishead, a uma sensação de filme dos anos 60s.

 

 

3.A criatividade da cópia

A composição das músicas de Maxinquaye depende fortemente do uso de samples, algo que a galera do hip hop se esmerou em fazer. No álbum de Tricky, é impressionante a variedade das fontes, como as menções anteriores a Isaac Hayes e Smashing Pumpkins já permitem vislumbrar. Outros exemplos confirmam misturas inusitadas, conseguindo reunir no mesmo álbum músicas indianas, Michael Jackson e diálogos de filmes.

 

“Aftermath” parece ser uma das campeãs no número de referências. A base é montada com a junção de uma batida do rapper LL Cool ao riff de uma música R&B de Marvin Gaye, ao passo que a letra incorpora trechos de canções de The Young Rascals (1967) e Japan (1981) e de um diálogo do filme Blade Runner (1982).

 

“Black Steel” é cover de uma música do Public Enemy, que contribui com samples em outras faixas. Um cover bem subversivo, pois a versão de Tricky, mantendo a letra de forte teor racial que conta uma fuga da prisão, combina duas partes: uma na qual a base é uma percussão tragada da música de um filme indiano e outra na qual a pancadaria corre solta em forma de techno punk.

 

“Struggling”, faixa de sonoridade sufocante, construída basicamente com percussão, ruídos e vocais, mostra um procedimento que se espalha por todo o álbum: fragmentos trabalhados para comporem canções, cujas amarrações ficam expostas – ora como citações, ora como dissonâncias.

 

Mark Sanders produziu a maior parte das faixas de Maxinquaye juntamente com Tricky. O convite veio por conta da admiração do rapper pelo trabalho do sujeito com o The Cure, em Mixed Up (1990, produção) e Wish (1992, mixagem). Sanders produziu também Raw Like Sushi (1989), de Neneh Cherry, outra rapper a se destacar no cenário britânico. Ele relata como Tricky trazia para o estúdio dezenas de vinis e a composição passava muitas vezes pela escuta de vários deles. Após o insight de que uma determinada junção funcionaria, Sanders suava para conciliar os ingredientes, com resultados que frequentemente dificultam o reconhecimento dos originais.

 

 

4.A voz de Martina

Como aconteceria em outros álbuns seus, Tricky, embora seja o compositor das letras das faixas inéditas, está acompanhado nos vocais. Isso ocorre em todas as faixas de Maxinquaye, com a participação de outras quatro pessoas. O destaque fica para Martina Topley-Bird, que canta em 10 das 12 faixas.

 

Martina foi “descoberta” por Tricky, que teve com ela uma relação amorosa e profissional. Eles se separam em 1998, quando Martina dá início a uma interessante carreira solo, que rendeu até hoje quatro álbuns e uma dezena de singles. Ela tem colaborações com vários artistas e bandas, incluindo Massive Attack em Heligoland (2010) e na sua turnê.

 

A voz de Martina em Maxinquaye é essencial e dominante. Tricky depende dela para contrapontos ora simultâneos, ora intercalados. O contraste entre as vozes é parte das qualidades do álbum. Durante as gravações, Martina não havia completado 20 anos de idade. Seu talento é mais impressionante quando soubemos que houve poucos ensaios e poucos takes para os registros.

 

Parte da subversão no cover de “Black Steel” tem a ver com a participação de Martina, uma mulher negra cantando rap, algo então incomum. Essa subversão tem continuidade nas imagens que acompanham a divulgação de Maxinquaye, nas quais Tricky e Martina invertem os papeis de gênero, ele aparecendo vestido de drag ou com roupas femininas.

 

 

5.Conexões tupiniquins

Não vou falar das conexões que fazem a sintonia entre Tricky e os Racionais MC, por conta do empréstimo que ambos fizeram da levada da música de Isaac Hayes (ou teria sido do Portishead?). Graças ao site whosampled.com, desconfiamos que Chico Science & Nação Zumbi serviram-se de parte das bases de “Overcome” para compor “O Encontro de Isaac Asimov com Santos Dumont no Céu”, faixa de Afrociberdelia (1996). Não fizeram senão continuar a corrente de apropriações, já que “Overcome” retira sua linha de teclado de “Moonchild” (1992), música da dupla Shakespears Sister, além de trechos de “Karmacoma”, de que ela é uma versão.

 

Como parte do barato do trip hop é nos fazer viajar, encerro nessa vibe. Escuto semelhanças entre “Brand New You’re Retro” e “Qual é?”, faixa de A Procura da Batida Perfeita (2003), talvez pela dívida de ambos com Michael “Bad” Jackson. Aliás, “Overcome” e “Abbaon Fat Tracks” podem ter sua percussão associada com o samba, a quem tiver ouvidos que reconheçam isso. E – agora a viagem vai longe – as semelhanças físicas entre Tricky e o sambista carioca Sinhô (1888-1930) são a melhor prova da possibilidade da reencarnação. Prova, ao menos, de que tudo se recria.

 

2+

Emerson G

Emerson G curte ler e escrever sobre música, especialmente rock. Sua formação é em antropologia embalada por “bons sons”, para citar o reverendo Fábio Massari. Outra citação que assina embaixo: “sem música, a vida seria um erro” (F. Nietzsche).

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