Maudie: Sua Vida e Sua Arte

 

 

Quantas janelas vocês abrem e fecham em um dia? E quem de nós pausa para ver o mundo proposto pelo enquadramento das janelas? O que seríamos sem as cores, sem as formas, sem as letras, sem os acordes? A resposta pode ser simples “nada”, mas a explicação é mais complexa. Bem, vamos ao filme.

 

Maudie: Sua Vida e Sua Arte, disponível na Netflix, é um drama lançado em 2016 sobre a vida Maud Dowley, que se tornou uma artista popular na Nova Escócia, Canadá. Quem protagoniza a história com tamanha sensibilidade é a única Sally Hawkins, lembrada por sua performance em “A Forma da Água”, vencedor da categoria de melhor filme em 2017. A atriz traduz os gestos, força e a esperteza de Maudie com muito brilho.

 

Maudie é mulher, e isso já é carga pesada na sua vida frente a uma sociedade patriarcal, violenta e preconceituosa. Para além desta condição, Maudie é renegada pelo seu irmão, e vive com uma tia que a trata no mesmo nível. Baixa, magra, e com o andar diferente, ela convive com a artrite reumatoide e a memória de uma filha que não conheceu, pois foi enterrada sem o abraço da mãe. É uma história para além da história: é reflexão. Usurpada pelo irmão e hostilizada pela tia, ela tem na pintura uma forma de enfrentar essa paleta de tons escuros da vida. Todo esse cotidiano poderia se encaminhar para um grande drama de vítimas e algozes, de certa forma sim, mas sempre tem algumas cores no caminho. E é este o enquadramento opta.

 

Seguindo o cotidiano de afazeres e pintura ela se depara com um anúncio no mural do local onde compram mantimentos, um anúncio que poderia ser uma forma de Maudie sair das asas de sua tia. Com sapatos novos, ela vai até a casa na esperança de ser contratada como arrumadeira por Everett Lewis (Ethan Hawke). Lá encontra um homem rude, solitário, bronco e calejado, talvez pela infância em orfanato, pelas responsabilidades e trabalho. Sabemos: todo mundo tem algum sapato apertado que caleja, endurece, amargura.

 

Uma mulher pequena como ela poderia dar conta das obrigações? É o que o olhar de Everett questiona ao abrir a porta para Maudie. Temos que lembrar que o filme, dirigido pela cineasta irlandesa Aisling Walsh, retrata os anos 30, e se hoje ainda observamos o espaço doméstico como feminino e o público como masculino, certamente naquela época era bem mais intenso. Everett a aceita e expressa todas as condições para ela ficar: afazeres domésticos e comida no prato, linha dura que costura as relações autoritárias e abusivas. Na escala de prioridades o primeiro lugar é ocupado pelo homem da casa, os cães, as galinhas e por último, ela. Os dias podem parecer de amargura, mas a personagem revela aos poucos uma inteligência emocional grande. A aparência frágil encapsula a sagacidade e a resiliência de alguém que sabe que pode trilhar um caminho menos árido.

 

A partir de agora algumas impressões revelam cenas do filme, você pode decidir se continua ou não. Entre idas e vindas, ela fica. E toda uma outra rotina cai sobre ambos. Cabe a ela deixar a casa bonita, enquanto a ele cabe o trabalho como vendedor de lenha e peixes. Pintar é um talento que ela leva como passatempo. Ao descobrir uma lata de tinta verde, que cobrirá uma estante e transformará as paredes em representação da natureza, Maudie inicia um processo de humanização daquela casa, daquela vida, daquele homem. E é com cor verde que ela começa esse grande jogo de ocupação de espaços. Interessante que a cor verde é comumente relacionada à esperança, acho que neste caso não é por acaso. O trabalho intenso ocupa os dias de Everett, os de Maudie também. Aos poucos passa a adicionar mais cores às pinturas, cores que são armazenadas em latas de sardinha. E assim, aos poucos, os espaços vão sendo abertos, a cama já é pra dois, a intimidade dá sinais de ser compartilhada. Maudie se divide entre escova de chão e pincéis que cobrem qualquer superfície que ela possa pintar: as madeiras, os papéis, as paredes. É a sua forma de sobreviver.

 

Em quase duas horas de filme, é possível perceber a passagem de uma mulher arrumadeira, para uma mulher companheira. Algumas cenas chocam, como o tapa na cara que a leva novamente para dentro de casa por ter ousado aparecer em público. Everett julga a aparência, a fragilidade, parece ter vergonha de estar acompanhado de uma mulher diferente. Não é seu marido, é seu dono, seu patrão. Mas no decorrer dos dias a frequência das pinturas aumenta, e as cores também, as cores que possui, tudo porta adentro. A busca por peixes é o que moveu Sandra a procurar a casa e é neste momento que a arte de Maudie já não é só dela, a forma de ver o mundo já é interessante para outra pessoa. Sandra tem bons sapatos confortáveis dirige um carro, isso encanta Maudie. Que logo menos assinará Maudie Lewis.

 

Tomar notas, organizar as vendas e contas são novas funções de Maudie que acompanha Everett nas entregas, caminhando do seu jeito, com dificuldades, ao lado daquele que agora é seu parceiro. Os comprovantes de negociação são cartões pintados por ela. Esses cartões chamam atenção de Sandra que se propõe a pagar por aquela arte. Sandra reconhece a sensibilidade da arte de Maudie, tornam-se amigas. Ele tenta sexo e ela explica a morte de sua filha. Everett baixa a guarda e eles se casam. Maudie não caminha mais ao lado dele, ela já vai de carona, carregada pelo seu marido. E com uma trilha esperançosa o espectador acompanha os dias. A conquista do espaço de Maudie acontece a partir da insistência e persistência própria. Lentamente ela deixa de ser arrumadeira aleijada e passa a ser uma mulher. Ao pintar ela se aproxima da vida de uma forma segura, sem sofrimento. E dá vida para ele, que antes só enxergava o cinza. O tempo passa e a saúde dela se esvai. Ela segue pintando, acompanhada pela fumaça do seu cigarro, que sempre esteve ali. Maudie sorri. Maudie tem prazer. Maudie percebe.

 

O amor vai sendo construído, falamos de amor real não do romântico, e solidificado no companheirismo. Ambos já sabem os limites, regras e necessidades, as melancias vão se ajustando na carroça. Talvez ela tenha sido a única da família que foi feliz. Talvez por ter vivido a sua verdade, a sua essência. Maudie é a representação da arte como escape. Ela desbrava aquele mundo feito de paredes de madeira, desordem, sujeira, preconceito e se detém nas janelas e no mundo que elas desenham. E tudo está ali, no detalhe da cor, no desenho do bico do pássaro, na necessidade de capturar o que há de bonito no simples e enfeitar o que tem dentro de todos. É sim trabalhoso de amaciar um sapato novo e é também difícil enxergar cores onde a neblina cobriu, onde a noite caiu. Maudie nos coloca esse ponto de vista, a escolha das cores para tingir a existência e a necessidade da arte para a sobrevivência emocional. É um filme sensível e significante. Quando ela fala sobre enquadramento é sobre o que deixamos no campo de visão/memória e o que excluímos. Decidimos o vai e o que vira lembrança. Memória é fato, lembrança é sentimento.

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Ariana de Oliveira

Ariana de Oliveira é canhota de esquerda, Cientista Social, estudante de Jornalismo e comunicadora da Rádio Univates FM. Sobre preferências: vai dos clássicos aos alternativos.

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