Mark Lanegan – Straight Songs of Sorrow

 

 

Gênero: Rock alternativo

Duração: 60 min.
Faixas: 15
Produção:  Mark Lanegan
Gravadora: Heavenly

3.5 out of 5 stars (3,5 / 5)

 

 

Mark Lanegan lançou recentemente sua autobiografia, “Sing Backwards and Weep”. Quem conhece seu trabalho, sabe que não há um único álbum em seu catálogo que seja “alegrinho”. Lanegan é uma criatura das sombras e um olhar atento até aos momentos mais acessíveis de sua trajetória já mostrava isso quando ele era apenas o cantor do Screaming Trees, grupo adjacente ao grunge de Seattle, surgido no fim dos anos 1980. Depois de brigar com todos no grupo, Lanegan abraçou uma carreira solo – que começara como exercício de criatividade – e enveredou por ela como o único caminho possível para mandar para longe os seus – muitos – demônios internos. Neste meio do caminho, ele colaborou com um monte de gente, de Queens Of The Stone Age a Moby, passando por Greg Dulli e Isobel Campbell, sempre deixando sua marca: vocais soturnos, letras e melodias visando o mais subterrâneo dos submundos. Viciado em heroina, alcoólatra, depressivo, o mundo de Lanegan não é para amadores e com este novíssimo “Straight Songs Of Sorrow” não é diferente.

 

Dentre os detalhes que Lanegan foi inserindo em seu trabalho, talvez o mais interessante seja o abraço a tinturas eletrônicas, algo que fez um inacreditável bem ao seu canto. O contraste entre sua voz roufenha e os timbres sintéticos criou uma tensão bem legal, algo como se fosse um aspirante a Tom Waits brincando num quarto cheio de sintetizadores. Este álbum, cujas faixas são diretamente ligadas a capítulos da autobiografia, avança um pouco nesta mistura com a eletrônica, mas ela aparece pouco. A maioria é composta de canções com teclados e instrumental não protagonista, enfatizando as letras e a voz de Mark, seus dois principais trunfos no bolso do colete. O fato das faixas representarem capítulos de seu livro torna este “Straight Songs Of Sorrow” um sério concorrente ao posto de seu trabalho mais pessoal.

 

Com a carreira cheia de guinadas e uma produtividade impressionante – ele tem lançando álbuns inéditos todos os anos, desde 2017 – Lanegan não decepciona os fãs. Há momentos de real danação – no bom sentido – que já começam pela faixa de abertura, talvez a única em que o instrumental “brigue” com a voz, “I Wouldn’t Want To Say”, com Mark praticamente declamando a letra enquanto é bombardeado por guitarras e percussões enlouquecidas, durante quase seis minutos. As baladas geladas estão presentes, especialmente em “Daylight In Nocturnal House”, em que pianos e efeitos de teclados convivem com um clima de desolação espiritual total e a voz de Mark, pairando sobre tudo. “Churchbells, Ghosts” é outro exemplo desta modalidade, mas algo no arranjo pende para o blues, para mesmo o gospel, com tons que tentam se erguer do chão.

A eletrônica que eu mencionei há pouco surge nos melhores momentos do disco. Em “Bleed All Over”, talvez a melhor canção pór aqui, ela se mistura com violões e palmas sintetizadas, conseguindo o tal contraste entre leveza e crueza, com ótimo resultado. “Stockholm City Blues” já aponta para outra direção, em que os timbres funcionam como coadjuvantes em meio a uma narrativa cinematográfica em que é quase possível enxergar a capital sueca sob a neve, da janela lateral do quarto de dormir. “Ballad Of A Dying Rover” é esquisita, com efeitos de teclado se misturando com a voz de Lanegan em modo obsessivo e delirante.

 

Em tempos de pandemia, fico imaginando quem tem isenção espiritual para mergulhar num poço de escuridão musical como é o caso deste álbum. Talvez apenas os fãs de Mark Lanegan, mas, se for possível absorver alguma luz antes de se arremessar no poço, talvez a viagem valha a pena.

 

Ouça primeiro: “Bleed All Over”

 

0

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *