Marcelo Camelo há 13 anos…

 

 

Era o fim de 2008 e Marcelo Camelo iniciava sua carreira solo. Pautado pelo Portal Rock Press, entrei em contato com ele por telefone e fiz esta simpática entrevista aí embaixo. Era um tempo distante, no qual havia a expectativa pela apresentação de Paul Weller no Tim Festival – que não se confirmou – e Camelo acabava de conhecer Mallu Magalhães.

 

O resultado deste papo você lê abaixo.

 

 

Marcelo de Souza Camelo está com 30 anos e já é um dos mais respeitados compositores do país. À frente do Los Hermanos, Camelo desfilou por quatro discos (“Los Hermanos – 1999”, “Bloco do Eu Sozinho – 2001”, “Ventura – 2003”, “4 – 2006”) uma musicalidade capaz de unir rock alternativo americano e samba, levadas indies inglesas e canções praianas. Ele diz que o processo é inconsciente, mas admite que gostava de grunge lá pelo meio da década de 1990.

 

Também se assume como fã de uma música popular antiga e quase anacrônica, que ele e outros artistas de sua geração (+2, Orquestra Imperial) estão revisitando e redescobrindo. Com os Hermanos em suspenso, Camelo produziu e lançou seu primeiro trabalho solo, “Sou”. O título do álbum surgiu do poema visual do amigo Rodrigo Linares e traz a participação de gente tão distinta, indo de Dominguinhos e Clara Sverner até Mallu Magalhães e o amigo Domenico Lancellotti, Camelo se acompanha do sexteto paulistando Hurtmold.

 

O disco é uma obra que necessita de várias audições para a compreensão. A sensação de total liberdade criativa e respeito pela idéia original do artista é a primeira impressão que salta aos ouvidos. O disco foi lançado pelo selo do compositor, Zé Pereira e distribuído pela Sony/BMG e dividiu a opinião de fãs dos Hermanos e críticos musicais. Camelo diz não se importar muito mais com a crítica, mas lamenta, como leitor, que muitos textos sejam fruto de outras referências distintas da música e do trabalho do artista.

 

 

Você diria que a saudade, liberdade e solidão são os temas dominantes no disco?

Não, não há intenção nisso. As músicas me vieram naturalmente, eu gosto bem mais de compor sem pensar muito no que estou fazendo. As palavras acabam vindo naturalmente, seja por sonoridade, por significado, talvez por motivo nenhum. Eu não penso conscientemente nisso quando estou compondo.

 

Em quanto tempo você compôs as 14 músicas do disco?

“Santa Chuva e “Liberdade” são músicas mais antigas, inclusive “Liberdade” chegou a ser cogitada para entrar no repertório do 4 (o último álbum de estúdio do Los Hermanos), mas não teve muito a ver com o clima do disco. As outras todas foram compostas no período que eu fiquei em casa, fruto desse mood pós-banda. “Santa Chuva” apareceu primeiro na voz da Maria Rita.

 

A impressão que o disco traz é de que você quis fazer uma espécie de MPB mais clássica. Confere?

Sim, tem muito a ver com essa idéia mesmo. Eu sempre gostei de ouvir gente como Adoniran Barbosa, Noel Rosa, Chiquinha Gonzaga, além do último disco da Guiomar Novaes (pianista clássica brasileira, falecida em 1979) – com o repertório voltado pra obra do Villa-Lobos. O disco ficou com esse tom verde escuro, esse cheiro de mata atlântica, muito brasileiro. Ouvi muito Tom Jobim, João Donato, as melodias acabaram indo pra essa direção. Chico Buarque e Dorival Caymmi também entraram no esquema, eu acabo preferindo as formas mais antigas de MPB do que os filtros e intérpretes que vieram depois.

 

Como foi a participação da Mallu Magalhães no disco?

Putz, foi um convite de puro afeto. Vi a Mallu na internet, me encantei com o jeito dela cantar e começei a mandar e-mails pra ela, assediando mesmo. Depois pensei na música, “Janta”, e fiz a letra em português. Depois pedi pra ela fazer a parte em inglês. Ela estava sem tempo e eu acabei fazendo tudo no fim. Mandei a música pronta pra ela e fiquei em cima até ela aceitar. A Mallu é eterna, você fecha os olhos e ela deixa de ter quinze anos. Clara Sverner (pianista, convidada) Dominguinhos (outros participantes do disco) também são assim, é gente eterna.

 

Você vê alguma semelhança entre essa colaboração com a Mallu e a que você teve com Sandy e Júnior, no disco Acústico MTV deles?

Não, não foi a mesma coisa. Eu fiquei encantado com a Mallu e a chamei. Sandy e Júnior me convidaram pro disco e pro show. Eu aceitei na hora, há várias músicas no repertório deles que eu gosto, mas queria cantar “As Quatro Estações”. A letra a música são da própria Sandy, então eu pedi e eles deixaram sem problemas. Me deram liberdade total, eu fiz os arranjos. Gostei bastante do resultado. “Quatro Estações” é muito bonita.

 

E você se sente em total liberdade finalmente?

Bem, estar sozinho é uma escolha. Eu tenho mais autonomia. Fica mais fácil assim.

 

Como é a participação do Hurtmold (sexteto paulistano de rock contemporâneo) em arranjos que brincam tanto com as formas mais clássicas da MPB?

Cara, eles são demais. Sempre existiu uma admiração por eles, sou fã dos caras, há uma afinidade estética entre eu e eles. Escolhemos três bandas para abrir shows dos Los Hermanos no Canecão, em janeiro de 2006. Cidadão Instigado, Carne de Terceira e o Hurtmold. Eles eram os únicos com quem eu não tinha nenhum contato pessoal, mas já admirava os caras. A idéia de tocar com eles veio quando compus “Teo e a Gaivota” para a tilha de um filme de um amigo meu. Fiz três versões; uma com voz e violão, pra qual gravei um clipe e coloquei na internet, a segunda era pra ser tocada com orquestra sinfônica, que acabou não rolando porque a arregimentação foi muito complicada. A terceira era com o Hurtmold e foi a que entrou no disco.

 

 

Como está a tua expectativa pro show do Tim Festival dividindo o palco com o Paul Weller?

Eu estou bastante ansioso pra tocar, mas não conheco muito o trabalho dele. Claro, conheço as principais coisa do Jam (banda inglesa liderada por Weller entre 1977 e 1982) mas não é o tipo de rock que mais me interessa. Eu não conheço músicas das fases diferentes da carreira do cara. Fico satisfeito porque os meninos (Hurtmold) estão tocando pra c******o e faremos um belo show. Ele (weller) participou daquela versão gringa de “Anna Julia”. O Jim Capaldi (ex-baterista do Traffic) tocou e cantou mas o baixo daquela versão é tocado pelo Paul Weller.

 

E o carnaval continua presente no seu disco…

Carnaval me lembra o tempo em que eu morava em Jacarepaguá (Zona Oeste do Rio).  Sei lá. Não é um processo consciente.

 

 

Muitos fãs estão dizendo que “Copacabana” (uma marcha-frevo, faixa de Sou) é igual a “A Banda”, de Chico Buarque…

Isso talvez seja porque a pessoa só ouviu essas duas marchinhas na vida. Acho que isso é mais pra gente de outros estados, aquelas pessoas que moram no Rio ou em Pernambuco talvez saibam diferenciar as duas, “Copacabana” é uma marcha-frevo, com letra em homenagem ao “mito” Copacabana, talvez outra alusão inconsciente ao Carnaval. “A Banda”, bem, não dá nem pra comparar, né?

+1

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *