Jorge Ben – 13 Músicas (mais dois bônus)

 

Pensem numa tarefa quase impossível: sim. Escolher as tradicionais 13 canções de um artista muito querido ganha, como diria Galvão Bueno, contornos de dramaticidade quando se trata de Jorge Ben. Sim, porque, pra início de conversa, a gente não usa o “Benjor” por aqui. O amor pela obra do sujeito vem desde os anos 1970, priscas eras em que dava pra ouvir Jorge nas trilhas sonoras e especiais da Globo, no rádio do carro, em toda parte.

 

Suas canções me acompanharam ao longo do tempo e minha admiração por Jorge Duílio só fez aumentar. Vi shows dele nos anos 1990, comprei seus discos, caixas comemorativas e o acompanhei o mais perto que pude. Apresentei suas músicas para amigos queridos – que se tornaram fãs – e, para minha sorte e gratidão, esbarrei com o homem em 2019, lá no Circo Voador, palco de muitos de seus shows. Dessa vez, entretanto, Jorge estava na plateia da apresentação do Living Colour. Se esbaldou, tirou fotos, gritou, filmou com o celular e tudo mais. Felizmente não se furtou a posar comigo e meus dois irmãos de outras mães, Leonardo Salomão e Ricardo Benevides. A foto está aqui embaixo.

 

 

Pois bem, vamos então ao resultado destas escolhas tão difíceis. Privilegiei a memória afetiva e a relevância, deixando de lado muitas canções que várias pessoas diriam ser clássicas. Ora, todo mundo sabe da importância de “Taj Mahal”, “Fio Maravilha” ou “Xica da Silva”, certo? Aqui vamos com, como diria Ed Motta, alguns deep cuts geniais de Ben.

 

 

– Oé Oé (Faz o Carro de Boi na Estrada) (1981) – é adoravelmente datado o arranjo de Lincoln Olivetti para esta narrativa surreal/campestre de uma imagem recorrente do carro de boi pelo qual passamos na estrada da nossa juventude. Faixa do ótimo “Bem-Vinda Amizade”.

 

– O Circo Chegou (1972) – esta canção é outra narrativa da infância vivenciada por Jorge no recanto do Rio Comprido, Zona Norte do Rio. O circo chegando, chamando as pessoas para o espetáculo e os personagens que povoavam as fantasias de criança, tudo com humor e surrealismo na medida certa. Obra-prima.

 

 

– Amante Amado (1978) – faixa belíssima do subestimado álbum “A Banda do Zé Pretinho”, primeiro registro de Jorge pela Som Livre após deixar a Philips em 1977. Algumas canções desse trabalho são tão sensacionais ou melhores até do que suas gravações mais inspiradas e clássicas.

 

– Berenice (1978) – um clássico afetivo que servia de trilha sonora para meu avô cantar enquanto dirigia sua Brasília branca a caminho do meu colégio, nos idos de 1978/79. Romance, humor, suingue, genialidade, tudo isso em menos de três minutos. Outra faixa de “A Banda do Zé Pretinho”.

 

 

– Meus Filhos, Meu Tesouro (1976) – lembro da capa de um caderno escolar que trazia a inscrição “meus filhos meu tesouro”. Ben mistura essa imagem doce e familiar com planos para o futuro, surrealismo, conversa mole e bom humor. Maravilha oculta no ótimo disco “África Brasil”.

 

– Dumingaz (1975) – uma das várias gravações que Jorge fez em homenagem à esposa, Domingas. Aqui, com a grafia levemente subvertida e cheia de balanço, a canção percorre caminhos idílicos numa tarde no parque. Sampleada pelos Racionais MC em “Fim de Semana No Parque”, de 1991. “Dumingaz” está no disco “Solta O Pavão”.

 

– Medley: Vendedor de Bananas/Cosa Nostra/Bicho do Mato (1973) – faixa comemorativa do disco “Dez Anos Depois”, álbum comemorativo de dez anos de carreira na Philips. Este pot-pourri traz sucessos obscuros, sendo que “Cosa Nostra” só fora gravada num compacto para o Jornal Pasquim, enquanto “Bicho do Mato” ficara famosa na voz de Elis Regina. O arranjo é puro samba-jazz, perfeito e irresistível.

 

 

– O Namorado da Viúva (1974) – canção do ótimo “Tábua de Esmeraldas”, disco emblemático da maturidade lírica e musical de Jorge, mas superestimado pelos fãs mais recentes, que o preferem sem dar o valor devido ao feixe de clássicos que ele gravou entre 1969 e 1978.

 

– Maria Domingas (1971) – costumo dizer que esta canção, presente em “Negro é Lindo” contem o “eu te amo” mais dilacerante da música brasileira em décadas. Não apenas por isso, “Maria Domingas” é uma das canções mais belas que Ben já gravou.

 

– Palomaris (1971) – título enigmático, arranjo soberbo, violão acústico turbinado, letra falando sobre um flerte com as tradicionais moças que povoam as narrativas de Jorge. Outra obra de arte do álbum “Negro é Lindo”

 

– Domingas (1969) – de todos os arranjos que música brasileira – sem exageros – o de “Domingas” é um dos mais incrivelmente belos. A letra é cinematográfica e representativa do melhor da poesia surreal/afetiva/suburbana que Ben ergueu em suas canções. Do disco homônimo, com capa desenhada pelo pintor Albery.

 

– Que Pena (Ela Já Não Gosta Mais de Mim) (1969) – clássico que ficou mais famoso na voz de Gal Costa, mas que tem neste original um frescor pouco conhecido, oriundo da narrativa masculina que mostra vulnerabilidade e, logo em seguida, capacidade de reação diante de uma nova realidade amorosa na vida.

 

– Meu Glorioso São Cristóvão – com Gilberto Gil (1975) – esta canção é praticamente um mantra que vai muito além das religiões, trazendo o catolicismo – do qual Ben é devoto – e a abordagem mais ecumênica que Gil tem, mesmo ele sendo um adepto do candomblé. O resultado é uma tour de force sem paralelos. Faixa do imprescindível “Gil e Jorge”.

 

– A Minha Menina – com Mutantes (1968) – colaboração de Jorge com os Mutantes, presente no álbum de estreia do grupo paulista. O resultado é uma das maiores tempestades rítmicas da história da música nacional. Samba, guitarras psicodélicas, malandragem e mais outros elementos indizíveis.

 

– Que Maravilha – com Toquinho (1970) – colaboração sensacional entre Jorge e Toquinho, registrada no segundo disco lançado pelo cantor, compositor e violonista paulistano. A letra é um achado, totalmente cinematográfica, embebida por um arranjo aerodinâmico de samba, bossa e jazz em medidas exatas. Clássico atemporal.

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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