Thin Lear – Wooden House

 

 

Gênero: Rock alternativo

Duração: 36 min.
Faixas: 11
Produção: Matt Longo
Gravadora: Egg Hunt

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

Se você gosta de Harry Nilsson, Van Morrison, Randy Newman e do John Lennon do início dos anos 1970, é quase certo que vai se sentir em casa neste primeiro disco de Thin Lear, “Wooden House”. O projeto é do multinstrumentista novaiorquino Matt Longo, que fez de tudo nas sessões de gravação, saindo-se com um desses trabalhos em que a beleza instrumental, da concepção ao arranjo, é o grande atrativo. Tudo por aqui é extremamente belo, aquele tipo de disco que surpreende o ouvinte a cada curva do caminho. Uma hora é um naipe de cordas que surge do nada; noutra é um rodopio vocal que aparece quando era mais improvável. E, além de tudo, a voz de Longo é um amálgama improvável deste registro lennoniano com um timbre peculiar e esquecido: o de Paul Heaton, que era vocalista do Housemartins nos anos 1980, do Beautiful South nos 1990/00 e, atualmente, tem carreira ao lado da cantora Jacqueline Abbott. Ou seja, “Wooden House” tem atrativos de sobra para quem deseja mergulhar em música linda e atemporal.

 

Matt tem trinta e poucos anos, é oriundo da cena indie/alternativa modelo 00/10 da Grande Maçã, logo, por mais que queira, não consegue evitar certa aura de quem estudou a fundo seus musos inspiradores. Claro que não há nada errado nisso, mas, enquanto Lennon e Nilsson, por exemplo, chafurdavam na esbórnia adicta no início dos anos 1970, sofrendo e traduzindo tudo isso em música, Longo surge como um desses nerds de música, extremamente aplicados e capazes de reproduzir tudo o que lhes toca mais afetivamente. Repito, nada errado nisso, até porque o resultado é próximo da perfeição, com o tempero de algumas doses de excentricidade nas letras, dando ao conjunto de canções uma aura enigmática e esquista, que lhes cai muito bem.

 

Neste campo das faixas mais próximas de um revestimento indie mais convencional, “The Guesthouse” surge chamando a atenção. Ela tem levada e arranjo que dão o tom para o mistério, se diluindo numa progressão convencional, até ser interrompida por um ataque de metais que parecem fora do tom a princípio, só para devolvê-la ao ritmo original, soando tudo normal, olhando de lado, já saindo. E nisso ela dura menos de três minutos, confundindo o ouvinte. Este também é o caso de “Death In A Field”, com andamento mais próximo do midtempo e pianos pontuando a melodia, e de “Maniacs”, o single do álbum, que é belissima e cheia de pequenos malabarismos na levada de bateria em meio a uma melodia conduzida pelo piano.

 

Já no terreno das pequenas canções estudadas e envoltas pela névoa do folk-jazz-blues orquestral que mencionamos lá em cima, há várias razões para se esbaldar. Tem a melodia clássica e beatlemaníaca de “Different Tune”, que mais parece uma canção de McCartney safra 1971; tem os rodopios de cordas e pianos de “Netta” e a ostentação blues da lindeza que é a faixa-título. A preguiça no sol da tarde que é “A Simple Phrase” e a apoteose discreta de violões que permeia “93 Heap”, só para chegar no fecho de ouro, que vem com “Your Family”, outra canção nostálgica, com dedilhados e reminiscências, dando aquele tom sépia que inunda lembranças e relembranças.

 

“Wooden House” é desses discos atemporais e belos. Como vivemos tempos pra lá de líquidos, a triste tendência é que ele suma da vista rapidamente, daí a necessidade de escrever e tentar preservá-lo por mais tempo, apresentá-lo a mais gente. Altamente recomendado para quem quer 36 minutos de belezura nesse cenário tão difícil de hoje.

 

Ouça primeiro: “Maniacs”

 

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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